No vocabulário futebolístico italiano e hispânico os golos nos instantes finais do jogo foram baptizados com o nome de uma das maiores lendas do futebol argentino que foi também um pioneiro na Europa e um inesperado goleador letal quando o relógio se aproximava dos minutos finais dos jogos.

A origem da “Zona Cesarini”

Chega o minuto 85. E não há relatador italiano, argentino, espanhol que não se lembre de avisar aos adeptos mais distraídos que acabam de entrar na “Zona Cesarini”. Claro que para a maioria o aviso é desnecessário. Desde há mais de oitenta anos que esse conceito faz parte da identidade futebolística desses países. E a cada golo nos suspiros finais se recupere a memória de um jogador mítico, um dos primeiros sul-americanos a brilhar no futebol europeu, um verdadeiro e surpreendente killer de área que tinha um apetite especial para deixar a sua marca nos jogos mesmo nos minutos finais.

Ao largo de cinco anos, Renato Cesarini fez as delicias dos adeptos da Juventus, naquela que foi a primeira idade de ouro da “Vechia Signora”, sobretudo com golos inesperados no final dos encontros. O facto de ter repetido a proeza com a camisola da Squadra Azurra em diversas ocasiões ajudou ainda mais a alimentar a lenda do italo-argentino que no regresso à sua Argentina natal ajudou a popularizar aí também o termo que trazia de Itália. Hoje, tanto nas pampas como na península da bota, e por arraste linguístico, também em Espanha, a expressão “Zona Cesarini” tornou-se imensamente popular e persiste ao passar do tempo.

O mago que brilhou na Juventus

Renato Cesarini foi um dos melhores jogadores da sua geração. Nasceu em Itália, perto de Ancona, em 1906 mas aos poucos meses de vida trasladou-se com a sua família para Buenos Aires seguindo a rota de milhões de italianos que, devido á pobreza, nesses anos embarcaram rumo ás Américas. Foi na capital argentina que cresceu e se apaixonou pelo futebol, numa altura onde Buenos Aires era um dos grandes centros mundiais da modalidade. Estreou-se em 1923 no modesto Borgeta Palermo, clube da comunidade italiano na margem do estuário de La Plata, e em 1925 assinou pelo Chacarita Juniores onde se tornou numa autêntica celebridade nacional. Foi aí que se estreou também como internacional argentino.

Ao contrário do que muitos possam pensar, era interior e não avançado e de aí a escassez de golos na sua carreira – que durou doze anos – não chegando aos oitenta golos como atleta sénior – e dono de um talento técnico espantoso, um verdadeiro malabarista com o esférico. Era um dandy fora dos terrenos de jogo e um mago dentro e em 1929, seguiu o exemplo de vários atletas sul-americanos, e assinou pela Juventus. Graças á política impulsionada pelo governo de Mussolini, e com a intervenção ativa do selecionador transalpino, Vittorio Pozzo, o futebol italiano marchou rumo á profissionalização e atraiu vários atletas sul-americanos de origem famíliar italiana. Chamaram-lhes “oriundi” e vieram em massa nesses anos dos principais clubes argentinos, uruguaios e brasileiros. Entre eles estava Cesarini que rapidamente se converteu numa lenda da Juventus. Com a camisola turinesa venceu cinco Scudettos consecutivos, chegou a internacional italiano e transformou-se numa das maiores lendas da primeira era dourada do Calcio.

Em 1931 marcou, para lá do minuto noventa, o decisivo golo da Itália contra a Hungria num jogo da Taça Gero, a equivalente de seleções á Taça Mitropa. Um golo que seguiu uma tradição habitual, tal como os que lograva com a Juventus, sempre nos instantes finais dos jogos e por autênticos golpes de magia com que resolvia jogos aparentemente perdidos. A sequência de golos de Cesarini nos instantes finais foi tal que o jornalista desportivo italiano Eugenio Danese baptizou na sua crónica a expressão “Zona Cesarini” em sua honra. Nunca mais desapareceu do léxico futebolístico transalpino até hoje.

Cesarini, goleador inesperado e o pai de La Máquina

Em 1935 Cesarini abandonou a Juventus para voltar á Argentina mas a expressão permaneceu viva no Calcio e com ele atravessou também a fronteira. Cesarini jogou ainda dois anos, no Chacarita Juniores e no River Plate, marcando dez golos – dois deles na sua particular “Zona” temporal – e depois assumiu o posto de treinador dos “Milionarios”, sendo o responsável pelo lançamento da célebre formação conhecida como “La Maquina”, uma equipa desenhada á sua imagem e semelhança e que também era conhecida por marcar a maioria dos golos no final dos jogos motivo pelo qual foram igualmente baptizados como os “Caballeros de la Angustia”, por deixarem os adeptos de coração nas mãos até ao final na incerteza da vitória.

Devido aos seus contatos em Itália, Cesarini visitou frequentemente o seu país de origem e pôde testemunhar como a sua herança goleadora permanecia viva. Foi aí que voltou a treinar, agora a Juventus, recriando com o italo-argentino Omar Sivori uma réplica quase perfeita do seu próprio efeito decisivo no final dos encontros. Falecido em 1969, a Renato Cesarini o futebol continuou a homenagear para sempre com a expressão que lhe dedicou e a cada grande e inesperado golo nos finais dos encontros, o seu nome volta á baila para lembrar aqueles que se esqueceram que o jogo termina apenas com o apito final do árbitro.

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