Em 1983 Zico era o melhor jogador do mundo. E também o único a jogar fora do continente europeu. Ao contrário de Pelé, o descendente de portugueses que reinava no Brasil decidiu atravessar o oceano rumo ao Calcio. Durante dois anos viveu o céu e o inferno mas ninguém ficou indiferente ao génio do carioca.

A viagem do melhor jogador do mundo

16 anos. Uma vida. Com tudo o que havia por ganhar conquistado, faltava apenas um desafio, um golpe de efeito na carreira de um dos futebolistas mais memoráveis da história. Arthur Coimbra, o filho de português a quem o futebol de rua apelidou de Zico, era a maior estrela do futebol sul-americano. Durante quase duas décadas liderou o traumático mundo pós-Pelé nos relvados brasileiros ao mesmo tempo que transformava o eterno sofredor Flamengo em campeão mundial. As conquistas na Libertadores e Intercontinental para um clube historicamente afastado das grandes decisões continentais foi a cereja no topo do bolo de uma carreira que inclui dezenas de outros títulos estaduais e nacionais. Zico era um dos poucos nomes consensuais do futebol mundial numa era de transição. O mundo já se tinha despedido de Pelé, Beckenbauer e Cruyff e ainda não se tinha rendido totalmente a Maradona. Entre o astro argentino, o francês Platini e o génio carioca disputava-se a primazia mundial. O que os diferenciava, sobretudo, era a distância do Atlântico.

Em 1982 Maradona seguiu o inevitável caminho do futebol europeu depois de cinco anos a brilhar na Argentina com o Juniores e o Boca. Primeiro em Espanha, depois em Itália, curtiu-se nos exigentes campos europeus ao mesmo tempo que a estrela de Platini, que a principio se passeou tranquilamente por França, cruzava os Alpes para brilhar como nunca. Semana sim, semana também, Platini e Maradona podiam medir-se e olhar pelo retrovisor a concorrentes emocionais diretos como Dalglish, Keegan, Rummenige, Schuster e companhia.

Zico, esse, vivia a outro ritmo, outro mundo. Com Copacabana de pano de fundo, o samba do Mengão como música ambiente, o seu palco era outro, o das tardes inesquecíveis no Maracana e as noites de rubronegro ao peito com o Brasil em suspenso. Era difícil, salvo pelos torneios de seleções – e se em 1978 foi figura residual, em 1982 Zico tinha ganho o duelo a Maradona mas ficado aquém de Platini – medir todos debaixo dos mesmos critérios. Até Arthur Coimbra abandonar o conforto do seu lar de sempre a comparação seria sempre injusta. Talvez também por isso um dia o génio acordou e fez as malas. O destino era inevitável na forma mas desacertado no conteúdo. Itália era a pátria do futebol espetáculo naqueles anos, o aglutinador mundial de talentos. E desde o Brasil nenhuma estrela se atrevia sequer a provar outro caminho. Uns com mais êxito que outros. Talvez Zico pudesse ter assinado por qualquer clube não fosse a limitação de estrangeiros e a suspeita que, aos 30 anos de idade, Zico era menos Zico do que nunca. Acabou por ser o cenário com menos glamour possível o que recebeu o artesão mais original. Em 1983 o génio brasileiro aterrou em Itália para dois anos de luzes e sombras.

A invasão estrangeira do Calcio

Quando Zico decidiu que era hora a voz correu e ultrapassou a velocidade do som e de Itália voltaram apressadas as ofertas de contrato. A Roma e a Juventus eram destinos ambiciosos mas no primeiro já jogava o seu amigo Falcão e na segunda acabava de aterrar Platini. O Milan oferecia dinheiro mas, em horas baixas, pouco interesse e de Nápoles chegou uma oferta louca mas que acabou por não ser suficiente para atrair o carioca. A mesma oferta cairia meses depois nas mãos do seu grande rival sul-americano, Diego Maradona, e a história seguiu um curso muito diferente. No final o jogador aceitou a proposta da Udinese, um clube modesto do nordeste italiano onde brilhava o internacional Franco Causio e pouco mais. Seis milhões de liras foi o preço a pagar por ter Zico – com um milhão de dólares para ele, um novo recorde, rapidamente superado pelo oferecido pelos napolitanos a Maradona – e gerou polemica a tal ponto que a transferência esteve suspensa durante semanas até o clube persuadir o presidente da República, Sandro Pertini, a pressionar a federação italiana para levantar o veto a um negócio visto como imoral. As manifestações nas ruas de Udine com o grito “Zico ou Austria” a lembrar o fantasma de secessão da zona historicamente associada ao império austro-húngaro facilitaram a decisão politica.

Naquela época as grandes armadas do Calcio começavam a recrutar as suas estrelas fora. Rummenige e Brady em Milão, Platini e Boniek em Turim, Falcão em Roma e Elkjaer Larsen em Verona eram apenas alguns dos nomes próprios ilustres. Nos anos seguintes a lista foi-se ampliando com Sócrates, Toninho Cerezo, Maradona ou Laudrup. O ponto de inflexão foi a chegada de Zico. Muitos pensavam que, tal como Pelé, Rivelino, Jairzinho, Gerson ou Tostão o génio carioca jamais se ia arriscar a jogar o seu prestigio no futebol europeu. Durante décadas – uma realidade cimentada pelo fracasso de Didi no Real Madrid – cimentou-se a ideia de que o futebolista brasileiro não estava apto para o jogo europeu e as grandes estrelas nacionais mediam muito bem a possibilidade de viajar à Europa com receio a estragar a sua imaculada reputação. Zico tinha 30 anos. Nos quinze anteriores tinha vencido tudo o que havia a vencer, tal como Pelé, e não sentia ter nada mais a provar. A atração europeia parecia ser superior a si mesmo e quando aterrou em Friuli fê-lo com uma ideia muito clara: ele ia mudar a percepção europeia do génio canarinho.

Um ano a um golo da lenda absoluta

O seu primeiro ano pareceu dar-lhe razão por completo. Zico foi fenomenal em quase todos os sentidos. Jogou 24 jogos completos e marcou 19 golos – a maioria de livres diretos – terminando a apenas um de Michel Platini, o “Capocanonieri” que, no entanto, tinha jogado quatro encontros mais que o brasileiro para atingir a sua cifra. Platini venceu também o titulo de liga, como era aliás de esperar face ao evidente favoritismo de uma Juventus que continha a coluna vertebral dos campeões do Mundo de 1982 e os dois jogadores individuais mais sonantes do torneio, Platini e Boniek. Já a Udinese era um histórico clube da parte baixa da tabela. Os homens de Enzo Ferrari eram altamente irregulares, oscilando entre séries triunfais e depressões profundas com empates e derrotas acumulando-se desenfreadamente. A equipa começou a época de forma irrepreensível.

O apetite goleador de Zico fez-se sentir com a sua estreia como anotador na goleada ao Genoa e no triunfo frente ao Catania. Com dois jogos, Zico liderava a tabela dos goleadores com quatro golos. Num ano de carrossel, a equipa liderou o campeonato nas primeiras rondas mas acabou por navegar abaixo do décimo lugar durante várias jornadas, terminando o ano a quatro pontos dos lugares europeus na nona posição. Tinham o terceiro melhor ataque do torneio mas também a terceira pior defesa. A lesão inoportuna no joelho direito, em Março, travou a corrida por um lugar nos quatro primeiros. Ainda assim era uma das melhores épocas de estreia de um estrangeiro na Serie A. O futebol europeu tinha finalmente provado, em primeira mão, o sabor a magia do futebol de Zico e a World Soccer entregou-lhe o titulo oficioso de melhor jogador do Mundo, algo a ter em consideração uma vez que, ao contrário do Ballon D´Or da France Football (ganho por Platini pelo segundo ano consecutivo) era um prémio aberto a futebolistas de todo o planeta. Um ano depois a experiência tornou-se amarga.

O duelo com Maradona

Se o primeiro ano de Zico foi de lenda, o segundo foi de pesadelo. Ao contrário de Maradona, que foi progressivamente in crescendo na sua experiência, o brasileiro passou rapidamente do 80 ao 8. A Udinese, acreditando que um treinador brasileiro podia potenciar ainda mais o rendimento do carioca, substituiu Ferrari por Luis Vinicio. Foi uma escolha desastrosa. Os bianconeri passaram toda a temporada a lutar por não cair na Serie B e só na penúltima jornada confirmaram a categoria. Zico, fundamental no jogo ofensivo da temporada anterior, desapareceu por completo – fruto de sucessivas lesões musculares – e anotou apenas três golos em treze jogos num ano em que o Calcio viveu um impressionante sobressalto com a mudança dos critérios de seleção arbitrais, optando-se pelo sorteio puro em lugar das nomeações, levando inesperadamente o Hellas Verona a levantar o seu único Scudetto. Zico padeceu igualmente da comparação com Maradona, a grande novidade do ano, recém-contratado pelo Napoli.

O argentino ainda não estava ao nível que acabaria por render dois anos depois mas ainda assim a sua influência foi manifestamente superior à do brasileiro em dois clubes com ambição mas pouco habituados a lutar pelas primeiras posições. O conto de fadas estava destinado a acabar em tragédia. A justiça italiana aproveitou-se da ocasião para fazer sangue e reclamar ao brasileiro impostos pendentes de pago aquando da sua chegada. Cercado por todos os lados Zico decidiu voltar ao Brasil, ignorando inclusive uma oferta mirabolante da família Agnelli para acompanhar Platini para a seguinte temporada no ataque da Vechia Signora. No último jogo do campeonato a Udinese media forças com o Napoli. Era o terceiro duelo com camisolas diferentes entre Maradona e Zico depois do Flamengo vs Boca e do Brasil vs Argentina. O jogo acabou com empate a dois. Zico deu duas assistências, Maradona marcou os dois golos – um deles, com a mão – e a passagem de testemunho ficou completa.

A finais de Maio o futebolista formalizou um novo contrato com o Flamengo e colocou ponto final à aventura europeia quando, precisamente, os jogadores brasileiros começavam a atravessar o oceano com maior regularidade rumo a Itália. O impacto do primeiro ano dissolveu-se na memória dos últimos meses e muitos qualificaram a tour europeia do génio brasileiro como um fracasso, algo que distou muito do realismo pragmático da época. Aos 32 anos Zico voltou à América do Sul para preparar-se para o Mundial do México, um ano depois, mas debaixo do calor azteca o seu jogo esfumou-se e precipitou a sua reforma antecipada no Japão.

O primeiro génio Brasileiro na Europa

Zico é um dos maiores futebolistas da história mas a sua curta e mista experiência europeia contribuíram muito para o esquecimento colectivo da sua figura. Ao contrário dos astros brasileiros que preferiram a comodidade de jogar sempre em casa, tomou uma decisão de risco que tudo indicava que seria certeira ao final do primeiro ano. O futebol europeu viu o melhor e o pior de Zico e a lembrança, que coincidiu com um Mundial para esquecer e a afirmação de Maradona pareceram convencer o mundo que os dois jogadores eram de galáxias diferentes esquecendo, igualmente, que enquanto Zico chegou ao futebol europeu já superada a trintena, Maradona estava na flor da idade.

No final de contas, o carioca sofreu na pele episódios dignos da Divina Comédia de Dante o que não o impediu de transformar-se no primeiro grande génio indiscutível do futebol brasileiro a atuar mais de uma época no futebol europeu. Poucos anos depois o que com ele tinha sido a excepção transformou-se na regra e os astros canarinhos invadiram a Europa antes de voltar a assaltar o Mundo.

2.449 / Por
  • Amadeo Buschetta

    E o grande Evaristo de Macedo e o matador José João “Mazolla” Altafini?

    • Miguel Lourenço Pereira

      Amadeo,

      Houve grandes jogadores brasileiros na Europa antes de Zico. Muitos. Mas génios de classe mundial do nivel de Zico não. Estamos a falar de um dos 100 melhores jogadores de sempre, provavelmente entraria num top 50 ou menos. E nesse sentido, entre os génios brasileiros, foi o primeiro. Isso não invalida que houve enormes jogadores do Brasil na Europa antes.

  • Carlos A. Segato

    Também poderíamos lembrar do meia Didi, das copas de 1958 e 1962, o príncipe etíope, na denominação do inesquecível cronista Nelson Rodrigues. Didi jogou no famoso ataque do Real Madrid, ao lado de Puskas e Di Stefano, dentre outros.

  • Ariel Paulo Krivochein

    Acho uma irresponsablidade alguém assinar tão pomposamente um artigo desses com tanta DESINFORMAÇÃO numa publicação destinada especificamente ao futebol..

    Filó (Guarisi), Fausto, Del Debbio, Tozzi, Dino da Costa, Canário, Evaristo, Julinho Botelho, Didi, Altafini (Mazzolla), Niginho, Cané, Luís Vinício, Orlando Fantoni, Dino Sani, Sormani, Juary, Jair da Costa, Chinesinho, Amarildo, Germano.

    Desses 21 GRANDES jogadores brasileiros q atuaram na Europa entre 1930 & 1970, pelo menos de 7 a 10 deles foram gênios (ou do tope de Zico ou superiores a ele).

    Ñ foram (como tampouco Zico) para a Europa para ‘arriscar suas reputações’ ou dar vôos ‘mais altos’ em suas carreiras. Já saíam do Brasil mundialmente consagrados.

    Até pq a meca do futebol mundial na época era o Brasil.

    Atuar na Europa ñ era cereja do bolo nenhuma.

    Apenas a competição no Brasil era mto forte & a gde maioria ñ tinha a menor chance de atuar em sua seleção.

    Ir para a Europa p/eles significava engordar a conta bancária.
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    PS: Tb Didi jamais ‘fracassou’ no Real (como afirma o articulista): todos sabem os ciúmes q sua presença provocou em Puskas & principalmente Di Stéfano – q sabotaram a presença do maior jogador de meio-de-campo da época na equipe merengue.

  • ASouza Melo

    “Nos quinze anos anteriores havia vencido de tudo o que havia de vencer”Parágrafo 5º. Se comparando até a Pelé?E Zico ganhou COPA DO MUNDO?Zico foi um merchandising do Flamengo que sempre foi controlado por cartolas que quebraram as finanças do clube e hoje vive como um clube parasita entre politicagem e negócios de um estado falido dominado por gangues armados. Depois da fatídica perda de penalte na copa de 86, rotulou-se de vez como “pé frio” e hoje já perambulou como “TREINADOR” no avançado futebol da índia em que seu clube fico em último. Parece que ele com certeza se inflou nos comentários de cartolas que era bom jogador na época, mas era apenas um fantoche de dirigentes parasitas que controlavam resultados no submundo do futebol. A realidade na Europa mostrou isso.