A chegada de Hulk e Witsel a São Petersburg pode não ter sido a esperada pelos jogadores mas não dista demasiado do que se podia esperar de um clube como o Zenit. Durante anos, os adeptos do clube têm-se afirmado como os mais xenófobos do futebol russo, um movimento social que tem ganho cada vez mais adeptos no país onde Vladimir Putin define as regras rumo a uma “Rússia Branca”.

Mais do que uma questão salarial

Poucos dias depois da contratação de Hulk e Witsel começaram os rumores. Os problemas. A angústia para os adeptos de ver o clube distanciar-se dos seus valores. Os valores de uma equipa russa e branca.

Primeiro foram os jogadores, alegadamente por questões salariais, quem se queixou publicamente das contratações dos jogadores provenientes do campeonato português. Kerzhakov e Denisov foram os protagonistas da revolta de balneário. Ambos foram punidos, financeiramente, e com uma breve despromoção à equipa júnior. Dois jogadores da era dourada do clube, aquela que venceu, finalmente, o título da Premier russa e a Taça UEFA em 2008. Jogadores que sabem qual é a verdadeira filosofia de um clube que até há bem pouco tempo era apenas um dos muitos clubes de meio de tabela do futebol russo mas que graças ao investimento da Gazprom e a influência de Vladimir Putin se tornou no símbolo de uma nova Rússia.

Dias depois uma bomba, que se revelou ser falsa, colocada às portas do centro de estágio, com o rosto de Hulk, deixava claro que os adeptos não estavam contentes com o dinheiro gasto na compra dos dois jogadores. Mas, mais do que o dinheiro, talvez o problema fosse outro. O clube rapidamente divulgou os valores dos salários de Denisov, que resultou ser um dos mais bem pagos do futebol europeu, deixando claro que o problema era diferente, mais profundo e socialmente perigoso. Uma questão de raça, uma questão que está na génese da reestruturação do futebol em São Petersburg.

A influência da Gazprom

O Zenith era uma equipa pouco importante da liga soviética, relegada a um segundo plano pelos grandes de Moscovo, Kiev e Tiblissi. O título de 1984 foi a excepção num palmarés praticamente inexistente durante os anos da URSS. Quando o gigantesco país se desmembrou, o futebol russo centralizou-se, mais do que nunca, em Moscovo e o Zenith continuou a lutar por sobreviver. A chegada da Gazprom mudou tudo.

A empresa de gás natural, um dos braços fortes da política económica de Vladimir Putin, adquiriu o clube e começou a investir rapidamente nas estruturas de base da instituição e entregou a primeira equipa ao holandês Dick Advocaat, abrindo as portas para uma época de sucesso histórico. Como único clube de uma metropole gigante como é São Petersburg, o Zenith cresceu sem rivalidades próximas e com uma base social muito identificada com as políticas sociais do novo presidente do país, o primeiro nascido na cidade em mais de cem anos.

Putin e Medvedev, ele também um antigo presidente da Gazprom, foram ocupando os cargos políticos fundamentais de Moscovo mas sempre com um olho no que se passava na sua cidade natal. Ter um clube de futebol capaz de ombrear com os grandes de Moscovo e capaz de passar a sua mensagem política e ideológica, na Rússia atual, era algo bom demais para deixar passar ao lado. O investimento da Gazprom não foi inocente até porque no Zenith, o presidente sabia encontrar uma massa adepta fiel ás suas ideias para a Rússia pós-Ieltsin, mas centralizadora, mais autoritária e mais branca do que nunca.

Os adeptos do clube sempre estiveram entre os mais temidos do país. Muitos deles estão associados a grupos da extrema-direita, defensores da exclusão não só de imigrantes mas, sobretudo, de russos de outras repúblicas, essencialmente centro-asiáticas. Num país onde todos aqueles que nasceram fora da Rússia europeia não podem estar na capital mais de duas semanas sem uma justificação de trabalho, a xenofobia e o racismo continuam a ser uma realidade complexa.

A introdução de jogadores negros, essencialmente africanos, começou por ser uma consequência de casamentos organizados entre jovens locais e estudantes de países associados ao Bloco de Leste nos anos 70 e 80. Mas eram uma profunda minoria. Foi a aterragem de vários futebolistas brasileiros, sobretudo a partir de 2000, nos clubes moscovitas, como Vagner Love, que despoletou as primeiras criticas dos adeptos locais. Em São Petersburgo, os adeptos locais gabavam-se de que o clube não contratava jogadores fora da Europa. Era um dos seus maiores motivos de orgulho face aos rivais da capital, uma cidade mais cosmopolita e com menos preconceitos que o resto do país face a um Mundo ao qual tentava abrir-se progressivamente. A chegada de Hulk e Witsel, pelos valores em questão, despoletou o lado mais xenófobo do clube azul.

Xenofobia indisfarçável

Em 2007 o técnico Dick Advocaat tentou contratar o brasileiro Zé Roberto, então a actuar no Bayern Munchen. A proposta era irrecusável, como quase todas as ofertas de clubes russos são nos últimos anos, mas o brasileiro recusou. Relatos de colegas de seleção sobre a realidade social com que se iria encontrar na cidade levaram-no a preferir voltar ao Brasil. Era um sinal preocupante para o técnico mas um espelho do clube e da cidade.

A Nevsky Front, claque organizada com o nome do rei russo que derrotou o exército teutónico numa das batalhas mais emblemáticas da história do país, está por detrás da esmagadora maioria de manifestação de adeptos do clube. São um grupo hooligan assumido e orgulhavam-se, até agora, do clube nunca ter tido um jogador negro nos seus quadros. Eram defensores de explorar o mercado eslavo (o que incluía quase toda a Europa de Leste) e, em último caso, jogadores brancos da Europa Ocidental. A chegada de Hulk e Witsel não era bem vista e os directivos sabiam-no. Um risco que quiseram correr mas que não muda por isso a realidade social do clube.

Numa entrevista ao jornalista britânico Marc Bennets, publicada no seu livro “Football Dynamo”, o líder da claque organizada, em 2008, chegou a afirmar que alguns dos membros da claque tinham abandonado o clube quando o Zenith contratou um jogador coreano. Se fossem ao mercado assinar com um jogador negro talvez a reação fosse diferente, mais violenta. A realidade, quatro anos depois, deu-lhe razão. Os vários protestos no estádio tentaram focar a questão num problema salarial, mas tanto jogadores como adeptos, particularmente jogadores da casa, sabem que esse não é o problema.

Símbolos supremos da “Rússia Branca”, os adeptos do clube sentem-se traídos pelos seus dirigentes. Não questionam o valor desportivo dos jogadores contratados mas a sua proveniência, da mesma forma que ninguém questionou no clube quando Danny foi contratado por 30 milhões ao Dynamo Moscow, tornando-se num dos mais populares elementos do plantel junto dos adeptos apesar de não ser de origem eslava.

O futuro de Hulk e Witsel no Zenith não será seguramente tranquilo. Depois das manifestações iniciais, a direção desportiva manteve-se firme. Pagou por dois jogadores valores muito acima do mercado e qualquer revenda agora será um imenso prejuízo difícil de explicar. Mas se o projeto do italiano Luciano Spaletti fracassar, principalmente na Europa, palco onde o clube tem mostrado sérias deficiências esta temporada – em alguns jornais russos fala-se mesmo em boicote por parte dos próprios jogadores – não será de surpreender se o clube se posicione ao lado dos adeptos mais extremistas.

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