O jogo entre o Wolverampton Wanderers e o Honved no Molineux abriu definitivamente as portas á criação das competições europeias continentais. No entanto, os dois clubes que disputavam o título oficioso de campeão do Mundo nessa noite nunca estiveram á altura dos seus pergaminhos nos torneios a doer. A sua história de fracasso europeu contrasta com a afirmação global das noites europeias que ajudaram a criar.

O amargo destino dos heróis daquela noite de Dezembro

Em 1972 o Wolves disputou a sua primeira final europeia. Era a edição inaugural da Taça UEFA, o torneio que tinha substituído de forma oficial no calendário a Taça das Cidades com Feiras – que a UEFA determinou nunca reconhecer oficialmente – e que tinha sido a primeira grande aposta do organismo no mundo das noites europeias. Foi a primeira e única presença numa final continentes do clube de Wolverampton. A dois jogos os Wolves foram batidos pelo Tottenham Spurs. Era já um mundo radicalmente diferente daquele vivido em 1954, quando o clube era considerado pela imprensa nacional como o campeão mundial a título oficioso. O seu grande rival emocional da época não fez muito melhor.

Quase vinte anos depois desse mítico duelo, o Honved não tinha logrado participar em nenhuma final continental – ao contrário de outros clubes húngaros como o Ferencvaros, Ujpest Dosza ou MTK Budapeste – nem jamais o conseguiria. Um destino curioso, longe da glória continental, para os dois clubes que tinham precisamente, com a sua rivalidade, alimentado de forma definitiva o debate sobre a necessidade da criação de torneios continentais depois de mais de meio século de competições regionais cujos vencedores acabavam sempre por ser contestados pelos adeptos dos países que não participavam nas respectivas competições, fossem eles os sempre ausentes britânicos, os latinos em relação á Taça Mitropa ou os centro-europeus com respeito á Taça Latina. Numa época onde muitas vezes o título mundial ou continental era apenas resultado do prestigio acumulado, os húngaros do Honved e os ingleses do Wolverampton, podiam sentir-se parte da elite. Mas quando o sonho de um – de vários, com o passar do tempo – torneio continental arrancou finalmente, ambos clubes foram desterrados para o esquecimento colectivo, ainda que por razões diferentes. A sua história de glória não seria parte relevante na épica das noites europeias.

O jogo que fez nascer as Noites Europeias

13 de Dezembro de 1954.

Meio ano antes a Alemanha Ocidental tinham surpreendido o mundo ao conquistar o campeonato mundial frente á toda poderosa Hungria dos “Mágicos Magiares”. Para muitos era um acidente de percurso num curriculum impressionante que se tinha forjado nos Jogos Olimpicos de 1952, em Helsínquia, e tinha prosseguido com uma sequência de vitórias consecutivas que incluía uma dupla humilhação á Inglaterra – com a primeira derrota insular em casa por 3-6 – e uma categórica caminhada á final mundial perdida de forma surpreendente. Talvez por isso, para muitos, o Honved de Budapeste, clube que reunia a nata daquela seleção, continuasse a ser a mais poderosa formação de clubes do mundo, um verdadeiro campeão oficioso numa época onde não havia torneios que o comprovassem.

Os europeus do sul tinham a Taça Latina – que nesse ano não tinha sido disputada por culpa do Mundial – e os de leste a renovada Taça Mitropa, agora Zentropa, muito distante da sua época dourada. A norte não havia torneio regional digno de registo e nas ilhas britânicas reinava a filosofia de insularidade absoluta. Os ingleses eram adeptos, sim, de receber as grandes equipas mundiais em digressões que se tinham tornado habituais no pós-guerra. Graças á inovação tecnológica da instalação de holofotes, os jogos podiam ser agora disputados durante a semana e á noite sem interromper os compromissos nacionais. A aparição da televisão como meio difusor deu-lhes ainda mais esse toque exótico especial. E nenhum clube no mundo se tinha especializado tanto nessa modalidade competitiva como o Wolverampton Wanderers. Os homens de Stan Cullis, um dos mais brilhantes e autoritários treinadores da história, tinham conquistado o campeonato inglês e levavam meses a receber em casa, no velho Molineux, a nata do futebol mundial, com sucessivos triunfos. Uma seleção sul-africana, o Racing Avellaneda, Dortmund, Valencia, Real Madrid,  Celtic, Maccabi Haifa, Spartak Moscovo foram derrotados, e equipas como o First Vienna salvaram um empate contra as cordas.

A imprensa parecia exigir agora o duelo definitivo, a desforra, um ano depois, contra os húngaros. E assim o amigável ficou marcado para essa fria noite de inverno tão inglesa. Os húngaros, que por sua vez mantinham também a sua quota de invencibilidade, chegaram e foram surpreendidos não só com o típico temporal britânico mas com a decisão de Cullis de regar o campo a ponto de o transformar numa piscina o que favoreceu o jogo aéreo e direto dos ingleses que estiveram a vencer por 3-0 até que o Honved conseguiu adaptar-se minimamente ao relvado para reduzir até 3-2, resultado que os locais defenderam agonicamente nos minutos finais. Ainda assim o triunfo levou a imprensa inglesa, o próprio Cullis e muitos adeptos a reforçarem a crença de que o Wolves era melhor equipa do mundo. Uma decisão contestada pelos húngaros e, sobretudo, por Gabriel Hanot, que nos dias seguintes começou uma impressionante campanha no L´Equipe que terminou com a oficialização da Taça dos Campeões Europeus. Para a maioria dos adeptos tanto o Wolves como o Honved eram sérios favoritos a vencer o primeiro torneio continental mas nenhum deles participou sequer na edição inaugural nem teve êxito nas subsequentes.

Honved, a super equipa que desapareceu antes de tempo

A ideia de Hanot partiu do principio de que os convidados para a edição inaugural deviam ser os campeões nacionais e,na sua ausência, os clubes de maior prestigio. O Wolves tinha deixado de ser campeão inglês, vendo-se superado pelo Chelsea na luta pelo título e portanto não recebeu sequer convite, algo que o Chelsea declinou por pressões da federação britânica. Por sua vez o Honved, igualmente por pressões do governo húngaro, profundamente incomodado com o fracasso da sua seleção no Mundial da Suíça, recusou participar entregando assim a vaga ao Voros Lobogo, equipa eliminada nos quartos de final pelo Stade Reims, finalista vencido. Começou então o ciclo de prestações para esquecer para os dois causantes do nascimento das noites europeias continentais.

Na seguinte temporada, o Honved decidiu finalmente apostar a sério no torneio continental como forma de recuperar o prestigio continental do futebol húngaro após o êxito da edição inaugural – na qual muitas federações, sobretudo a leste, pura e simplesmente não acreditavam – e apresentou a sua melhor cara para o que seria o duelo inaugural contra o Athletic Bilbao, campeão espanhol e estreante na prova ao lado do campeão, o Real Madrid. Então a ironia bate á porta e muda para sempre a história da competição. O Honved mantinha ainda todas as estrelas e era visto como favorito a superar os merengues de Di Stefano mas durante o jogo da primeira-mão dá-se um golpe de estado em Budapeste que pretende revogar o governo do Partido comunista. Os jogadores são apanhados de surpresa e depois da derrota pela mínima, por 3-2, em São Mamés, são encorajados a permanecer fora do país até a situação se normalizar, disputando vários jogos amigáveis antes do jogo da segunda-mão.

A brutal intervenção soviética, com os seus tanques a ocuparem a capital húngara desmontando assim o golpe, provoca o êxodo imediato da nata da equipa, liderada por Ferenc Puskas, Sandor Kocsis, Zoltan Czibor e companhia, jogadores que anos depois acabariam por prosseguir a carreira precisamente em Espanha. Face a essa crua reviravolta do destino, o Honved acaba mesmo por ser eliminado, num jogo disputado em Bruxelas que termina empatado a três e com Czibor como guarda-redes durante uma hora, mas com os jogadores já com a cabeça noutro lado. Nunca mais a equipa estará tão perto da glória continental.  As suas performances declinaram tanto nos torneios domésticos como europeus. Chegaram aos quartos-de-final da Taça das Taças em 1966, caindo com o Liverpool, e só voltaram á Taça dos Campeões Europeus em 1980/81, caindo aos pés do Real Madrid. Até ao dia de hoje o clube não disputou qualquer meia-final continental. Eles que foram a causa de tudo.

Wolves, uma final e mil sonhos perdidos

Se o Honved nunca mais voltou a estar perto da glória europeia, ao Wolves, o vencedor desse jogo mítico, o destino também pregou várias partidas ainda que os seus resultados tenham sido bastante melhores. Três anos depois da estreia da Taça dos Clubes Campeões Europeus, o Wolves voltou a vencer o campeonato inglês o que lhe garantiu a possibilidade de suceder ao Manchester United como representante da liga mais antiga do mundo no torneio que nenhuma equipa insular tinha logrado ainda ganhar. A expectativa era elevada e como a grande maioria dos jogadores do mítico jogo com o Honved permaneciam em atividade, com Cullis ao leme, o Wolverampton foi imediatamente catapultado para a lista de favoritos.

Eliminados pelo Schalke 04 na primeira eliminatória tiveram de adiar o sonho por um ano mais, uma vez que lograram manter nas vitrinas o título de campeão que lhes abriu as portas á seguinte edição. Na primeira eliminatória de 1959/60 a equipa superou com dificuldade o Vorwarts Berlin da Alemanha de Leste para depois bater com autoridade o Estrela Vermelha de Belgrado. O jogo de quartos-de-final ia colocar, frente a frente, o Wolves contra outro dos grandes favoritos á final, o Barcelona treinado por Helenio Herrera. Foi um tremendo banho de água fria no orgulho inglês. Os catalães foram muito superiores em ambos jogos. Venceram por 4-0 no Camp Nou com um Suarez estelar e Kubala a anotar um dos golos para depois ir ao Molineux vencer por 2-5. Foi uma noite especial para Kocsis que anotou um hat-trick, ele que tinha estado com a camisola do Honved naquela fria noite de 1954.

Foi a primeira e última participação do clube na prova rainha europeia. O Wolves jamais voltou a vencer a liga e teve que contentar-se nos anos seguintes a participar na Taça das Taças e Taça UEFA. Foi, precisamente, na primeira edição da nova competição da UEFA que a equipa alcançou a final, disputada a duas mãos contra o Tottenham, depois de eliminar a Académica, o Deen Haag e a Juventus antes de superar o Ferencvaros nas meias-finais, um duelo emocional com o próprio passado do clube. Ainda assim no conjunto das duas mãos da final os Spurs foram superiores e colocaram ponto final ao fim do sonho europeu de um clube que não voltou a participar com glória nas noites europeias.

Os clubes míticos de um mundo sem torneios europeus

Sem pena nem glória após a noite que mudou para sempre a história do futebol, Honved e Wolves pertencem a essa nata de clubes míticos que fizeram parte fundamental da história do jogo antes da consagração das noites europeias. Se muitos dos campeões europeus têm uma história anterior com muito pouco glamour, há clubes distintos que ajudaram a cimentar as bases dessa mítica era e que provocaram o ensejo de criar de forma definitiva torneios continentais. Wolves e Honved, bem como o Torino, o Dínamo de Moscovo, Schalke 04, o Sporting de Portugal, Nice, Atlético de Madrid, Athletic Bilbao, Austria Vienna, Nuremberga, Genoa e afins foram fundamentais na concepção de uma mentalidade colectiva europeia e ainda que não tenham tido resultados nas provas europeias pós-1955 á altura dos seus pergaminhos anteriores, foram alicerces fundamentais para a implementação e concretização dessa ideia que ganha forma nessa expressão que faz parte de qualquer vocabulário de adepto de futebol, o das belas e inesquecíveis noites europeias.

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