Foi o homem que definiu o conceito de treinador quando este ainda nem sequer fazia sentido num desporto a dar os primeiros passos. William Sudell montou a primeira super-equipa do futebol, desafiou convenções, estabeleceu normas que durariam décadas e pagou o preço de se antecipar no tempo na luta a favor do profissionalismo.

Sudell, o primeiro pioneiro do futebol moderno

A carreira de Sudell acabou com uma nota trágica que o afastou durante décadas do reconhecimento que merecia. Condenado por fraude, foi obrigado a cumprir pena e a vergonha, um peso demasiado duro na estrita Inglaterra vitoriana, forçou o seu exílio voluntário para a África do Sul onde se reconverteu num jornalista de referência. Mas até o seu final é reflexo daquela que foi a história da sua vida, a de luta a favor de um modelo de gestão desportivo muitas décadas á frente do seu tempo. Sudell sempre quis o melhor para o seu clube e foi capaz de tudo, do legal e do ilegal, para o conseguir mas aos olhos de hoje as movimentações ilícitas de dinheiro que protagonizou empalidecem com a natureza do desporto que ele tanto ajudou a popularizar.

Sudell foi pioneiro em tudo. Até á sua aparição a figura do treinador não existia. Nem sequer a figura do árbitro. Os jogos eram arbitrados pelas próprias equipas e só quando estas não estavam de acordo recorriam a uma autoridade – havia um para cada parte do campo, vestido á civil – que dava o seu parecer. Os jogadores treinavam-se e organizavam-se a si próprios e os clubes contavam apenas com a figura de um secretário que geria a logística das deslocações e o contacto entre elementos da equipa. Com Sudell tudo mudou. Foi o primeiro a preparar um plantel de forma consciente para aproveitar as potencialidades da equipa. Foi também um dos primeiros a contratar jogadores de forma disfarçada, arranjado-lhes trabalhos em empresas que subvencionavam as suas aventuras futebolísticas. Foi também um dos ideólogos dos jogos de competição da Football Association, a Taça de Inglaterra, e do campeonato de liga, torneios que venceu com aquela que foi, igualmente, a primeira super-equipa do futebol mundial, o Preston North End.

O homem que inventou o papel do treinador

Sudell nasceu em Preston, a 17 de Julho de 1950. Como quase todos os jovens da sua geração, começou a praticar distintos desportos na adolescência, quase todos no seu clube local, o Preston North End. Não era particularmente bom em nenhum mas cedo se revelou um grande gestor e antes de cumprir os trinta anos já era o presidente da entidade. Em 1881, com 31 anos recém-cumpridos, converteu-se no treinador da equipa de futebol. O desporto estava em franca ascensão e começava a trasladar-se o circulo de poder da zona sul para a cinta industrial do norte onde Preston se encontrava. Aos filhos das grandes escolas inglesas que capitaneavam as equipas do sul como os Royal Engeniers ou os Old Etonians estavam prestes a suceder-lhes os operários do norte e Sudell seria chave nesse processo.

A Preston Mill era uma das principais fábricas da região e era igualmente administrada por Sudell. Seria a base do seu êxito. Consciente de que o futebol praticado a norte, na Escócia, era muito superior ao inglês, Sudell dedicou-se a atrair jogadores escoceses ao seu clube, oferecendo-lhes empregos na sua fábrica. Era uma táctica que se tornaria habitual na região e que encobria o profissionalismo que as autoridades ainda renegavam violentamente. Tanto que, em duas ocasiões, por queixas de clubes londrinos, o Preston North End acabou suspenso de participar na Taça de Inglaterra por praticar profissionalismo encoberto. Sudell não se importava. O seu trabalho era transformar um clube que não atraía mais de 6 mil pessoas ao estádio numa máquina de vencer e para isso começou não só a contratar de forma disfarçada a futebolistas como ideou planos de treino e pequenas nuances tácticas numa era onde o desenho principal em campo era composto por um 1-2-7 na maioria dos casos. Foi o primeiro gestor a consciencializar os jogadores da sua importância e a criar o chamado espírito de grupo para lá das habituais reuniões amadoras dos praticantes do sul do país, inspirados ainda por um código de ético senhorial.

A saga dos primeiros Invencibles

A grande evolução do Preston chegou depois de Sudell ter visto como os vizinhos do Blackburn Rovers punham com êxito, em prática, a ideia que ele tinha defendido. Em 1883, abordou o capitão do Hearts de Edimburgo, Nick Ross, para liderar a sua nova equipa. Foi a primeira de várias contratações de iminentes escoceses que mudaram para sempre a qualidade do jogo dos homens de Deepdale. Nesse mesmo ano chocou contra o establishment da FA pela primeira vez ao defender abertamente o profissionalismo, deixando claro que o mesmo já estava a ser praticado por vários clubes, para além do seu, de forma encoberta. Não seria o último encontro com as autoridades. A sua postura foi tal que se tornou o líder de um movimento rebelde que englobava mais de quarenta clubes do norte do país e que defendia a cisão da Football Association se não fosse legalizado o profissionalismo.  Ganhou o combate. Pela primeira vez foi autorizado o pagamento a jogadores mas sob estritas condições de nascimento e proximidade geográfica, o que na prática obrigava Sudell a contratar escoceses mas a esperar um ano desde a sua chegada a Preston para oficialmente remunerá-los. A partir desse momento, o primeiro manager logrou abrir a caixa de Pandora que revolucionou para sempre o desporto e com esse novo ar fresco chegou a era de hegemonia do Preston North End.

Depois de perder a final da FA Cup contra o West Bromwich Albion em 1887, o clube partiu para um ano memorável e venceu em 1889 a primeira edição da liga, um torneio que o próprio Sudell, ao lado de Charles Alckock e William McGregor, encorajou e ajudou a organizar. Nesse mesmo ano, depois de ter vencido invicto o campeonato com várias jornadas de antecipação, o Preston conquistou também a FA Cup por primeira vez. Era o primeiro Double da história do futebol, um feito que muito poucas vezes seria repetido nas décadas seguintes e que inaugurou a época dourada do clube que repetiu na época seguinte o triunfo no campeonato. Teria de passar uma década até outro clube, o grande Aston Villa, fosse capaz de lograr um bicampeonato. No ano dos Invencibles – um feito apenas igualado mais de um século depois pelo Arsenal – o Preston marcou 85 golos e sofreu 15, a melhor média da história da competição. Em comparação, não com os nossos dias mas com o bicampeonato do Aston Villa, dez anos depois, os Villains marcaram mais cinco golos – 90 – mas concederam 30 mais – 45 – deixando claro que a nível ofensivo e defensivo o Preston de Sudell era uma máquina quase perfeita de jogar futebol.

Da glória á prisão

Sudell logrou a sequência de títulos com uma equipa com dez escoceses habituais entre os titulares e um estilo de jogo fluido que assentava no “passing game” do norte da ilha e que seria anos depois a base do jogo continental graças aos ensinamentos de vários treinadores e antigos jogadores escoceses, alguns deles do seu Preston, aos emergentes clubes do resto da Europa e do mundo. No entanto, para lograr manter a sua super equipa, era preciso dinheiro, mais do que aparentemente o clube podia legalmente gastar. Em 1893 tudo terminou. Uma auditoria ás contas da Preston Mill, a fábrica onde Sudell ocupava o cargo de gestor, deixou claro que o manager estava a retirar regularmente dinheiro da empresa para investir no clube. Um total de 5326 libras, uma pequena fortuna numa época onde o jogador mais caro tinha custado apenas 100 libras. Esse dinheiro servira para pagar a legião escocesa durante quase uma década que permitiu ao Preston manter-se sempre na elite mas esse acto de gestão foi considerado fraude e Sudell além de despedido acabou julgado em tribunal e condenado a pena de prisão. Não tinha feito nada distinto do que fariam os principais managers que se destacariam nas décadas seguintes. O seu único problema foi o medo que o profissionalismo ainda criava no meio futebolístico e as tremendas restrições com que se deparava diariamente.

O seu Preston foi pago a peso de ouro, sim, mas como qualquer outro dos grandes clubes da história. Depois de cumprir três anos de pena, partiu com a família para a África do Sul. O Preston nunca mais voltou a viver os anos de glória que teve consigo apesar da flamante etapa com Tom Finney, uma das grandes figuras do futebol inglês de meados do século XX. Com o Aston Villa a suceder ao clube como principal emblema do futebol mundial no final do século XIX, o Preston North End passou por uma etapa de esquecimento até que o glorioso feito do Arsenal de Arsene Wenger permitiu voltar a colocar em perspectiva o logrado pelos homens de Sudell. Um homem que estaria orgulhoso da sua herança. Tudo aquilo pelo que lutou chegou a concretizar-se. E ele foi o primeiro, o primeiro manager da história.

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