Weah, o último génio africano O liberiano foi o único jogador africano depois de Eusébio a ser consagrado como estrela mundial

Na década de noventa o futebol africano estava na moda. O inesperado êxito dos Camarões e a chegada ao futebol europeu de vários internacionais popularizaram como nunca o “continente negro”. À cabeça dessa revolução estava George Weah, um jogador de todos os tempos que encarnou tanto a ascensão como o apogeu e a decadência do futebol da “África Negra”.

O apogeu de África

Tinha o arranque possante e irresistível de Ronaldo Nazário. A força implacável e o movimento de corpo no disparo de Eusébio da Silva Ferreira e a técnica apurada e instintiva de mil horas de dribles e fintas nas praias de Monrovia. O que nunca teve foi atrás de si uma máquina virtual de marketing que potenciasse os seus logros e o perfil mediático exigido àqueles que rompem a linha imaginária entre os fora-de-serie e os icones globais. Porque George Weah foi um dos maiores fuori clasi da história do futebol. Para os que contablizam, erroneamente, Eusébio como europeu (por ter nascido com a nacionalidade portuguesa ainda que em terras africanas), não pode haver dúvidas sobre o facto de que Weah é o maior jogador de sempre do continente negro. Mesmo a sombra do mago Eusébio é menos alargada do que se pode imaginar. O problema para Weah – que partilha com o jogador moçambicano a honra de ter sido o único africano a vencer o prestigiado Balon D´Or – é que grande parte da sua carreira foi passada em França, o campeonato menos mediático dentro das grandes potências continentais e que a sua chegada a um gigante como o AC Milan foi tardia e a um projecto desportivo em rota descendente  no apogeu da primeira década de Silvio Berlusoni na liderança rossonera. Apesar do futebol francês ter vivido na sua época uma idade de ouro e do Milan ser, sem dúvida, um dos clubes da década, ainda assim Weah teve de suportar uma especie de ostracismo mediático a que não seria estranho, sem dúvida, a sua nacionalidade. Tivesse sido camaronês, como o veterano mas muito menos competente Roger Milla, ou nigeriano, como o genial Finidi, e o eco da sua lenda ter-se-ia multiplicado por dez aos ombros das duas grandes selecções do futebol africano dos anos noventa. Mas não. Weah nasceu num dos países mais pequenos e isolados da elite futebolistica de África e com a Liberia nunca disputou um Campeonato do Mundo ou a segunda fase da Taça Africana das Nações, limitado enormemente pela falta de qualidade geral do futebol liberiano. Ainda assim, apesar de tantos handicaaps, o seu futebol falou quase sempre por si e a sua lenda ganhou contornos miticos a cada passo dado.

A primeira estrela de Wenger

Weah nasceu numa familia humilde de um dos bairros mais pobres de Monrovia e na adolescência teve de compaginar a sua promissora carreira como jogador como técnico eletricista para a companhia telefónica local. Desde cedo aprendeu o valor do sacrificio e também que os impossiveis não existem. No futebol local o seu nome cedo destacou mas a Libéria era demasiado pequena para tanto talento e aos vinte e um anos mudou-se para o vizinho Camarões onde jogou uma época no Tonnere Yaoundé. Os camaroneses já tinham encantado o mundo do futebol no Espanha 82, tinham alguns dos clubes mais potentes do continente e estavam a poucos meses de deslumbrar no Mundial de Itália mas a grande vantagem da mudança para Weah foi ter chegado ao radar dos olheiros dos principais clubes franceses que penteavam com regularidade o continente africano há várias décadas à procura de jovens promessas. Foi assim que, depois de receber os primeiros entusiasmantes relatórios, Arsene Wenger, então o jovem promissor treinador do AS Monaco contactou com Claude Le Roy, o seleccionador dos Camarões que lhe confirmou que tudo o que tinha lido era certo. Havia ouro em África.

Wenger viajou até Yaounddé, viu com os seus olhos como Weah era tudo aquilo que lhe tinham prometido e mais e assinou imediatamente o jogador que assim se estreou em 1988 na Ligue 1 com a camisola dos monegascos. Durante quatro anos o liberiano foi o mais determinante e decisivo jogador do futebol francês mas não logrou vencer um só campeonato. O domínio asfixiante, pago directamente do bolso de Bernard Tapie e com várias conexões polémicas que mais tarde seriam desmontadas numa rede de corrupção desportiva, do Olympique Marseille impediu-o de levantar o campeonato mas foi incapaz de tapar o seu talento. Por diversas vezes o próprio Tapie procurou assinar o jogador, acabando por contentar-se com a sua “réplica” ganesa, Abedi Pelé. Esse Monaco era uma equipa de talento indiscutível mas que não podia competir com um sistema viciado e o êxito na Coupe de France de 1991 e a subsequente final da Taças das Taças no ano seguinte – perdida contra o Werder Bremen poucas horas depois do desastre de Bastia ter destruido o estado de ânimo da concentração gaulesa em Lisboa – foi o máximo que Weah, então já unanimemente reconhecido como o melhor futebolista africano do momento, logrou.

Ici c´est Paris, a cidade rendida a Weah

Depois de quatro anos o Monaco foi incapaz de o reter mais mas em lugar dos milhões dos vizinhos de Marselha foram os milhões do novo-rico de Paris, apoiado pelo Canal Plus, que o fizeram dar o seguinte passo. Com a camisola do PSG vieram mais duas Coup de France (1993, 1994) e sobretudo chegou a primeira liga nacional, numa equipa de estrelas onde pontificavam Raí, Ginola, Djorkaeff, Leonardo mas em que George Weah era a estrela indiscutível. O êxito do PSG no primeiro ano após o derrubar do império marselhês anunciou uma etapa dourada no clube da capital e deixou para a posteridade alguns dos melhores golos alguma vez anotados nos campos gauleses por um jogador, com o selo de qualidade de Weah. Com o seu contributo o PSG marcou presença consecutiva em três meias-finais consecutivas europeias. Em 1993 caiu na Taça UEFA contra a Juventus de Roberto Baggio, em 1994 na Taça das Taças frente ao Arsenal de Ian Wright e em 1995 na Champions League pelo todo poderoso AC Milan, depois de deixar pelo caminho gigantes continentais como o Bayern Munich ou o Real Madrid. A Bota de Ouro de melhor goleador do torneio continental foi o ponto de partida para um ano absolutamente inesquecível que terminaria por coroá-lo como o génio absoluto do futebol africano.

Senhor da Serie A e o sonho perdido do Mundial

O êxito dos Camarões em 1990 abriu um apetite voraz dos europeus pelo futebol de África, algo reforçado quatro anos depois pela campanha da Nigéria, coroada em 1996 com a medalha de ouro olímpica. Eram os anos em que se teorizava sobre a possibilidade iminente de um país africano vencer um Mundial e todos os grandes da Europa pescavam em África ou procuravam em ligas periféricas jogadores africanos de potencial.

De todos eles o mais cobiçado era sem dúvida Weah mas não era fácil fazê-lo sair de um clube rico e com um projecto europeu sólido como era o PSG. Só alguém como Silvio Berlusconi podia lograr o milagre. O presidente rossoneri, ajudado pelo inimitável Adriano Galliani, entendeu que o salto de qualidade que o seu AC Milan podia dar depois da final da Taça dos Campeões Europeus perdida com o Ajax vinha da mão do africano. Capello tinha aperfeiçoado a ideia original de Arrigo Sacchi e convertido o Milan na equipa mais regular da primeira metade dos anos noventa, disputando três finais consecutivas da Champions League entre 1992 e 1995. Se a defesa de ferro permanecia vigente e o meio-campo plástico, com Desailly Com Dejan Savicevic e Roberto Baggio na frente de ataque, faltava-lhes um goleador consumado e esse homem era Weah.

A sua chegada causou impacto imediato na Serie A como poucos futebolistas lograram na história. O liberiano foi fundamental para levar o clube rossoneri a um novo título de liga deixando atrás de si alguns dos golos mais memoráveis da história recente da competição, talvez o mais famoso dos quais aquele frente ao Hellas Verona numa tarde de domingo no San Siro. Foi um golo que exemplificou tudo aquilo porque em Dezembro de 1995 a revista gaulesa France Football decidiu nomeá-lo Balon D´Or. Era o primeiro jogador africano desde Eusébio, mais de três décadas antes, a levar o galardão. A definitiva consagração do futebol africano e o motor para um inverno repleto de honras e reconhecimentos internacionais que só terminaram quando dois anos depois foi oficialmente reconhecido como Futebolista Africano do Século (Eusebio não estava na disputa). A vitória na Serie A de 1996 parecia ser a aurora de uma nova idade de ouro mas acabou por marcar o apogeu máximo tanto de Weah como do primeiro projecto milanista de Berlusconi.

A saída de Capello, para o Real Madrid, abriu a caixa de pandora. Na época seguinte os italianos foram eliminados de forma surpreendente pelo FC Porto na fase de grupos da Champions League. A disputa entre Weah e Jorge Costa – que envolveu golpes no campo, em San Siro, e no túnel dos vestuários, nas Antas – levou à ribalta o assunto do racismo no futebol mas também escondeu a decadência dessa formação italiana que nos três anos seguintes não venceu qualquer troféu, nacional ou continental. Só em 1999 Weah voltou a levantar um Scudetto mas, com 33 anos, o seu protagonismo era agora bastante relativo no quadro rossonero. Várias lesões e o caos instalado em Milanello no final da década precipitou o final de Weah como estrela global mas o que realmente marcou a mudança de guarda foi a explosão de Ronaldo Nazário, um futebolista de características muito similares mas com o perfume canarinho e um ainda maior apetite pelo golo. A ascensão de Ronaldo com a camisola do Inter e o poderio colectivo da Juventus de Zidane e Del Piero, marcou uma mudança de guarda.

Weah abandonou o quadro italiano em 2000 e passou brevemente pelo Chelsea e Manchester City, onde deixou destelhos do seu génio, antes de assinar pelo Marselha e retirar-se nos Emirados Arabes Unidos. A retirada surgiu doze meses depois de Weah ter visto ser-lhe negado o seu decisivo sonho, o de levar a Libéria a um Mundial. Apesar de ter obrado o milagre de disputar a CAN de 1996 e 2002, o conjunto liberiano falhou o apuramento para os Mundiais de 1994 e 1998 e quatro anos depois esteve a um jogo de carimbar o bilhete. Um sonho que permaneceu impossível.

De Balon D´Or a Presidente

Sem esconder o seu desejo de devolver ao seu povo o que o futebol lhe tinha dado, Weah envolveu-se de imediato com o futebol liberiano, primeiro, e a política nacional, depois. Foi seleccionador nacional e em 2005, depois do final da Guerra Civil que assolou o país, Weah candidatou-se por primeira vez a presidente do país. Acumulou derrotas eleitorais até que em 2017 foi finalmente o vencedor do combate nas urnas transformando-se no primeiro Balon D´Or a assumir um cargo de chefe de Estado. Tinham passado vinte anos e o futebol africano, tão depressa como se popularizou perdeu o folego, sendo substituído pelo asiático e norte-americano em popularidade nos anos seguintes. George Weah passou por esse período incolume. A sua lenda supera a barreira continental. Define a essência do jogo e representa a plasticidade emocional do futebol moderno até ao extremo. Uma lenda dentro da própria lenda.

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