Watford, a paixão de Elton John

A paixão pelo futebol é capaz de levar os adeptos a cometer loucuras. Mas poucos podem chegar tão longe como comprar o clube dos seus amores. Elton John é um desses poucos homens. A sua paixão pelo Watford levou-o a investir no clube catapultando-o para a sua era de ouro.

Seguir a estrada de tijolo amarelo

35 anos como presidente do clube da sua vida.

Talvez Elton John passe para a posteridade como um música icónico, símbolo de uma era em que o rock se soltou do espartilho da geração “Flower Power” e mergulhou noutras experiências. O seu talento musical tornou-o numa estrela planetária e num dos homens mais ricos de Inglaterra. Com tanto dinheiro, Elton podia ter abraçado mil e um projetos. Mas escolheu aquele que o uniu definitivamente com a sua pequena cidade e o clube onde sonhava que acabaria por jogar quando fosse adulto, quando ainda se chamava Reginald Kenneth Dwight.

Desde a infância tinha sido um espectador regular no estádio, em companhia do pai e tio, e em 1973 assumiu a presidência do Watford FC a petição de vários directivos do clube, conhecedores da sua paixão. Três anos depois completou a compra definitivo do clube. Manteve-se no cargo até 2008, do qual ainda é presidente de honra. Mais de três décadas que viraram por completo a existência de um modesto clube de província numa das equipas mais cool dos anos 80.

John adquiriu o clube quando este militava na Division Four, bem longe das noites de glória que tinha reservado o músico para o futuro. Era um clube repleto de dividas, com um plantel de jogadores de terceira linha e sem grandes ambições para lá da própria sobrevivência. E os primeiros anos foram, sem dúvida, de sofrimento. Até que em 1977, recomendado por um amigo de John, chegou a Vicarage Road a figura que iria mudar para sempre o futuro do clube: Graham Taylor.

A dupla Elton-Taylor

John passava largos meses fora de Inglaterra, entre digressões e gravações de discos, mas todos os dias de jogos esperava ansiosamente a chamada que lhe notificava do resultado final. Com Taylor as chamadas passaram a ser cada vez mais agradáveis.

O clube começou uma espiral ascendente imparável, subindo de divisão de forma consecutiva durante cinco épocas, com apenas uma de interregno. Em 1982 estreavam-se na First Division, a elite do futebol inglês. Pelo caminho o clube tinha já deixado a sua marca com exibições icónicas na FA Cup e na Taça da Liga.

Os Hornets, a alcunha do clube, tinham-se tornado numa das sensações do futebol inglês. O jogo directo tinha-se tornado na imagem de marca de Taylor que com uma equipa sem estrelas, onde destacava a figura goleadora de Luther Blisset e os dribles entusiasmantes de um jovem John Barnes, desafiou os apostadores no seu primeiro ano na elite terminando a temporada em segundo lugar, apenas atrás do todo poderoso Liverpool no ano de despedida de Bob Paisley.

Vicarage Road tornou-se num local de peregrinação para os seguidores do músico que sempre que podia deixava ver-se no camarote presidencial muitas vezes acompanhado da realeza da cultura britânica, dos músicos Mick Jagger e David Bowie a John Cleese e Michael Caine, todos eles amantes entusiásticos do jogo e amigos pessoais do presidente.

O ocaso de uma história de amor

O sucesso doméstico permitiu ao Watford arrancar a época seguinte a disputar pela única vez na sua história uma prova europeia, a Taça UEFA.

O jogo directo de Taylor, tão difícil de contrariar pelos restantes técnicos ingleses, começou por surpreender os clubes continentais e o clube eliminou de forma categórica o Kaiserlautern e o Levski Sofia. No entanto, diante dos checoslovacos do Sparta Praga, a lição estava bem aprendida e o posicionamento defensivo dos homens de vermelho foi suficiente para anular os pontapés largos dos ingleses.

Em 1984 o clube marcou presença pela única vez no Wembley, para a final da FA Cup, mas o conto de fadas não teve final feliz e Taylor começou a pensar mudar o modelo de jogo. Era tarde demais. As restante equipas rapidamente encontrarem forma de o bater de forma regular e depois de quatro épocas em lugares do meio da tabela, a equipa foi finalmente despromovida em 1989. Seriam dez anos passados de novo nas divisões secundárias até que em 1999 o clube voltou a ser promovido à agora renomeada Premier League.

Por essa altura Elton John já era sir, já tinha comovido meio mundo com o seu Candle in the Wind no funeral da princesa de Diana e era de novo o dono do clube.

Em 1987 o presidente vendeu as ações e manteve-se com o título presidencial de forma honorifica. Taylor também tinha saído, primeiro para o Aston Villa e mais tarde para o cargo de selecionador inglês onde sofreu a mais dolorosa das suas derrotas. No entanto, uma década depois, devido à má situação económica do clube, Elton John voltou a aparecer em cena para salvar o Watford da extinção.

Voltou a comprar as ações do clube, injectou vários milhões de libras e ajudou o clube a voltar aos seus melhores dias, desfrutando da última promoção à primeira divisão em 1999. Foi sol de pouca dura e em 2008, de forma definitiva, o músico vendeu o clube a vários investidores privados, que mais tarde venderam o clube ao italiano Giampaollo Pozzo, e abdicou do cargo de presidente.

Talvez Elton John tivesse pensado várias vezes em escrever uma música sobre o “Yellow Army”, mas talvez nem o seu talento musical fosse capaz de captar a essência da sua profunda paixão por um clube que lhe deve os melhores dias da sua larga existência.

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