No final da II Guerra Mundial Josef Estaline convertia-se provavelmente no maior triunfador do conflito e o seu poder sobre a União Soviética atingia picos históricos. A sua família passou a entrar nos jogos de poder e utilizou o desporto como arma. O VVS Moscovo foi fundado para reinar sobre o desporto soviético mas só no futebol é que o objectivo nunca foi realmente atingido.

A saga de Vasilyi Estaline

Eram dias de celebração. Os soviéticos tinham entrado em Berlim, forçado o suicídio de Hitler, ocupado toda a Europa de Leste com o seu exército e assumiam-se sem enganos como os verdadeiros vencedores da guerra. Tinham sido os que mais baixas contavam nas suas filas, os que mais perderam até ao volte-face que foi Estalinengrado. A partir de aí, com a óbvia e indispensável colaboração anglo-americana, que abriu em África, primeiro, e na Europa Ocidental depois, uma nova frente, o vento soprou na direção poente e os homens de Estaline fizeram-se senhores de meia Europa. Tinha nascido uma genuína super-potência e tudo depois de mais de uma década de purgas, assassinatos, planos económicos fracassados e limpezas étnicas que prepararam o caminho para a liderança indiscutida de Josef Estaline, o senhor absoluto dos sovietes. A sua família, quase ao estilo imperial, também começava a escalar nos circuitos de poder e muitos perspectivavam que o futuro imediato da URSS não seria afinal tão diferente da Rússia caduca e despojada dos Czares.

Vasily Estalin, com apenas 24 anos, era já o delfim reconhecido do pai, que inicialmente o tinha abandonado depois da precoce morte da mãe. Vasily fez o que o pai mais gostaria, um nome por si próprio. Na Força-Área converteu-se numa lenda e foi promovido a pulso durante o conflito armado, liderando vários bombardeamentos ás cidades alemãs. A sua paixão pelo desporto levou-o igualmente a promover encontros entre oficiais da Força-Aérea, sobretudo de hóquei no gelo, a sua modalidade favorita. Foi a semente de uma ideia que rapidamente quis transformar em realidade, a de mudar para sempre a face do desporto soviético com o seu próprio projeto desportivo.

O clube da força área que não triunfou nos relvados

Em 1945 nasceu oficialmente o VVS Moscovo, rapidamente catalogado pela maioria como o clube da Força Área tal como o Dínamo de Moscovo era o clube das Forças Secretas e o CSKA Moscovo o clube do exército. Na prática, se o Dínamo era o capricho pessoal de Laurentyi Beria, o todo-poderoso ministro de Estalin, e o CSKA o dos principais generais do Exército Vermelho, o VVS seria o clube de Vasilyi e, rapidamente por extensão, da família Estalin. Na cena desportiva soviética sobrevivia apenas, longe destas lutas, o Spartak de Moscovo dos irmãos Staoristin, o mais antigo e popular clube do país, o único realmente dissociado de qualquer grupo influente de poder do regime e por isso também o mais popular a nível nacional. E era entre estes quatro escudos que a hegemonia nacional se ia discutir nos anos imediatamente a seguir á guerra quando as ligas nacionais voltaram á sua normalidade.

O VVS Moscovo rapidamente se converteu em força dominante tanto no hóquei no gelo – apesar de um acidente de aviação em 1950 que custou a vida a todos os seus jogadores e técnicos, um desastre ocultado por Vasilyi da opinião pública – e no basquetebol. Mas o futebol era outra coisa e aí, num desporto que rapidamente se transformava num dos mais populares do país, depois do lento arranque nos anos vinte em face ao resto do mundo, o VVS não conseguia dar o salto que se tinha proposto e incomodar os grandes de Moscovo, Kiev e São Petersburgo.

No seu segundo ano foram campeões absolutos da II Divisão – que tinha arrancado oficialmente em 1936 e suspendida durante os anos da guerra – depois de terem sido finalistas vencidos na fase de promoção da sua época de estreia. A seguinte temporada marcou o seu inicio na elite mas foi complicada para um clube incipiente e o VVS não superou o 13º lugar, lutando para evitar a despromoção. Em 1948 melhorou a sua posição, subindo até ao nono lugar, mas ainda muito distante das grandes equipas do exército e das forças secretas, o CSKA e Dínamo, que somavam os dois primeiros lugares de cada torneio do pós-guerra sem conhecer rival. A digressão extremamente popular do Dínamo pelas ilhas britânicas, convertendo o seu apaixonante estilo de jogo conhecido como “passovotchka” numa lenda, ajudou ainda a minar mais a distância entre os dois projetos. O VVS Moscovo conseguiu em 1950 o seu melhor posto, um quarto lugar – e no ano seguinte alcançou as meias-finais da Taça Soviética, mas os títulos continuavam a escapar-se-lhe das mãos ao contrário do que sucedia no basket, volei e hóquei. A ausência de jogadores reconhecidos, num país que carecia ainda de estrelas individuais, impedia-lhes de utilizar a mesma estratégia de outros desportos, o de recrutar para servir nas forças áreas os melhores atletas e depois alinhá-los com a sua respectiva equipa, emulando a táctica tanto do Dínamo como do CSKA.

A desestalinização e o fim do VVS

Em 1953 tudo mudou. O VVS tinha acabado a temporada anterior num penoso 11º posto, dando sinais de que o projeto estava já em decadência, quando se anunciou a morte inesperada de Estalin. Foi o inicio de uma caça ás bruxas para preparar caminho para o sucessor do longevo ditador georgiano. Tal como Beria, dono e mecenas do Dínamo, Vasilyi foi detido pelo exército e encarcerado. Durante meses foi alvo de duros interrogatórios que acabaram por servir para condenar Beria a uma dura morte – o seu clube, o Dínamo, sobreviveu mas perdeu muita da sua influência real – e a Vasily a seis anos de exílio num gulag no leste do país graças á intercedência do novo secretário-geral e líder da URSS, Vitaly Krutchev. O seu projeto desportivo não teve a mesma sorte. O VVS foi oficialmente desmantelado em 1953 e os melhores atletas de cada modalidade incorporados ao clube do exército, o CSKA, o grande triunfador social desses anos convulsos.

Foi a última ocasião que um projeto unipessoal como o VVS teve lugar na União Soviética. Apesar das direções regionais do Partido Comunista terem sido mecenas nos anos seguintes de vários Dínamos – os de Kiev, Tiblissi e Baku sobretudo – e o poder do exército se manter intocado tal como o prestigio do CSKA, seria preciso viajar ás novas repúblicas satélites para conhecer episódios similares ao do VVS e de Vasilyi Estaline mas com muito mais êxito no mundo do futebol, tal como a época dourada do Dínamo de Berlim e do Steaua Bucareste nos anos oitenta. O VVS, esse, caiu no esquecimento da história e talvez o seu final precipitado e sem paliativos tenha sido mera consequência da incapacidade de triunfar no novo desporto favorito da nação, o futebol.

1.268 / Por