Virdis, o herói anónimo do Milan de Sacchi

Em 1988 o AC Milan quebrou um largo jejum de títulos e assentou as bases para converter-se na grande potência do futebol italiano das duas décadas seguintes. O projecto de Sacchi converteu-se rapidamente em mito inspirado na solidez da sua defesa italiana e no talento do seu trio de holandeses mas o herói anónimo desse único Scudetto dessa equipa era um avançado sardo que soube fazer esquecer a ausência de um génio superlativo chamado Marco van Basten.

Virdis, o avançado que todos descartavam

Em 1987 Arrigo Sacchi chega a Milão. O ex-técnico do AS Parma, então um clube da Serie B, tinha impressionado o novo presidente rossoneri, Silvio Berlusconi, numa eliminatória da Copa de Italia e o seu estilo descarado, ofensivo e completamente distinto da velha escola italiana rapidamente captou o olhar felino de “Il Cavalieri”. Parecia ser um homem novo para um tempo novo, um tempo pintado de rossonero.

O clube que Berlusconi acabara de comprar, dois anos antes, tinha uma história brilhante mas um presente terrível. Duas vezes despromovido nos cinco anos anteriores – uma na secretária como consequência do Calciopollis de 1980 e outra no terreno de jogo, dois anos depois – o Milan não celebrava há oito anos um Scudetto. O último tinha chegado com o mito Gianni Rivera ainda como jogador de campo. Depois dessa histórica celebração os milaneses tiveram de ver como a Juventus se assumia de novo como máxima potência nacional – conquistando nos anos seguintes seis Scudettos, uma Taça Uefa, uma Taça das Taças e uma Taça dos Campeões Europeus – e ainda como equipas de menor perfil como a Roma ou Hellas Verona também celebravam o título nacional. Nem a crise, igualmente aguda, do histórico rival de Milão, o Inter, era paliativo.

Berlusconi queria inverter o ciclo e Sacchi parecia ser o homem certo mas havia muito trabalho a fazer. O magnate da comunicação iria seguramente agitar as águas do mercado e oferecer ao técnico alguns dos melhores jogadores disponíveis no mercado. Primeiro chegaram Carlo Ancelotti, Ruud Gullit e Marco van Basten e um ano depois Frank Rijkaard completou um quarteto sem o qual não se entende esse histórico Milan. A base, no entanto, Sacchi encontrou-a já em casa, na equipa que acabava de herdar do histórico jogador e treinador sueco Niels Liedholm e do seu sucessor no banco, um jovem Fabio Capello.

Ao começar a pré-temporada de 1987/88 o novo técnico contava no plantel já com as figuras de Franco Baresi, Alessandro Costacurta, Paolo Maldini e Mauro Tassoti – o quarteto defensivo mais famoso da história do futebol moderno provavelmente – e um quarteto de ataque que tinha os dias contados no clube e que incluía dois ingleses – Mark Hateley e Ray Wilkins – e ainda duas jovens promessas, Daniele Massaro e Giuseppe Galderesi, que tinham vindo substituir o histórico goleador Paolo Rossi, que tinha abraçado o projecto milanista depois de colocar ponto final na sua história com a Juventus. Pier Paolo Virdis era o quarto avançado em discórdia, um futebolista nascido na Sardenha, 29 anos antes, e que tinha já uma serie de temporadas relativamente anónimas na Serie A, tendo-se estreado em 1974 com a camisola do Cagliari, por quem voltou a jogar em 1980/81, com duas passagem pela Juventus de Giovanni Trapatonni – primeiro entre 1975/1979 e depois entre 1981-82, mas sempre como figura relativamente discreta. No total Virdis somava 15 golos em mais de 80 jogos com a Vechia Signora, números pouco impressionantes desde logo de tal forma que a sua chegada a San Siro deixou os adeptos de nariz torcido. Sucedeu precisamente o oposto. No ano anterior à chegada de Sacchi, apesar da concorrência, Virdis logrou um histórico Capocanonieri, apontado 18 golos na Serie A, e sendo decisivo para que o Milan acabasse a época em postos europeus, ainda que bastante atrás do Napoli de Diego Armando Maradona.

Um herói anónimo entre estrelas

Virdis parecia ser o tipico avançado da velha escola italiana e oposto à ideia de jogo que Sacchi estava disposto a implementar. As contratações de Gullit e van Basten davam um claro sinal de que o novo treinador contava com dois titulares indiscutiveis que iam relegar Virdis a um papel ingrato. Ainda para mais, apesar da sua brilhante temporada, Berlusconi há muito que tinham demonstrado preferir a aposta nas duas jovens promessas como eram Galderesi e Massaro no apoio ao duo-holandês. Virdis tinha os dias contados para todos menos para quem realmente importava, Sacchi.

Sacchi sabia que a coluna vertebral do seu projecto dependia da ligação entre Baresi, Ancelotti e Gullit, os três jogadores que melhor iam saber interpretar a sua ideia de jogo. Á volta do capitão ia crescer uma defesa de jogadores jovens e portanto imbuidos de um novo espirito, menos limitados pela velha escola de defender tão italiana. Desse modo tanto Costacurta como Maldini souberam adaptar-se rapidamente ás ideias de Sacchi e ajudaram a forjar, com Tassoti, esse quarteto inimitável. Ancelotti, por outro lado, um veterano de mil batalhas com a camisola da Roma, era o barómetro perfeito para um um controlo de jogo que se apoiava igualmente na mobilidade de Roberto Donadoni, contrato no ano anterior, e também de Evani e Colombo. Na frente, como tuttocampista, Gullit era mais do que um avançado. Era uma força da natureza que conectava o meio-campo e o ataque – em várias ocasiões jogou inclusive como médio ofensivo abrindo a porta ao uso de um terceiro dianteiro – e sobretudo impunha um ritmo avassalador que desconcertava qualquer rival.

van Basten, por outro lado, era um verso solto, um jogador que encaixava pouco no modelo de Sacchi e apesar do seu génio, o técnico italiano sempre procurou criar um onze base onde o holandês acabasse por ser um complemento e não o elemento fulcral o que inevitavelmente o levou a procurar opções alternativas. Nenhuma tão sedutora como Virdis. Trabalhador, móvel e capaz de adaptar-se melhor às exigências pretorianas de Sacchi, o avançado sardo acabou por ser a grande surpresa do ano e quando Marco van Basten começou a padecer sucessivos problemas físicos que o levaram a disputar apenas onze dos quase trinta jogos disputados na Serie A. Nessa perpétua dúvida, Virdis converteu-se rapidamente numa certeza e foi somando pontos e golos para os milaneses na larga maratona que os opôs ao campeão Napoli durante todo o ano.

O plano B de Sacchi

O início da temporada 87/88 foi intermitente para o projecto de Sacchi.

Uma precoce eliminação na Taça UEFA frente aos surpreendentes futuros finalistas, o RCD Espanyol, acabou cedo com as aspirações continentais de Berlusconi e rapidamente o mesmo sucedeu com a Copa de Italia deixando a Serie A como único objectivo factível para o projecto milionário montado pelo dono do clube. O Napoli de Maradona arrancou como um tornado, confirmando todo o seu favoritismo, e num primeiro momento parecia que Juventus, Inter e Sampdoria iam aguentar o ritmo enquanto que o Milan iam perdendo pontos importantes, sobretudo fruto das baixas de van Basten por lesão e da dificuldade inicial da sua defesa de por em prática o modelo de pressão alta exigido pelo técnico. Uma visita de Berlusconi ao balneário depois de um tropeção contra a Roma marcou um importante ponto de viragem. O Milan chegou ao final da primeira volta instalado já no segundo lugar e a partir de aí tudo mudou. A corrida a cinco cavalos transformou-se num sprint a dois até ao final do ano.

Os problemas físicos de van Basten – que marcara em Pisa, na sua estreia – no entanto tinham deixado a sua marca e era Gullit, com a sua omnipresença, quem parecia suster a equipa que no entanto tinha graves problemas em marcar. Na quarta jornada Virdis estreia-se a titular e anota o primeiro golo na vitória contra o Ascoli em casa, feito que repetiria duas semanas depois em Verona com um golo que valeu dois pontos. O problema goleador no entanto era evidente e o Milan chegou à décima jornada com apenas doze golos a favor, um dos piores ataques entre os candidatos ao título, que além do mais lhe tinham custado duas derrotas (Roma e Fiorentina) e quatro empates (Sampdoria, Empoli, Cesena e Torino).

O título conquistado com os golos de Virdis

A derrota contra os gialorossi no entanto acabou por ser a última em todo o torneio e a partir de aí a equipa mudou completamente. Seguiu-se uma sequência de três vitórias fundamentais – 0-1 contra o Inter, 4-1 frente ao Napoli e 0-1 frente à Juventus, com Gullit e Virdis como goleadores – que relançaram os milaneses na corrida ao título. Os golos do sardo, juntamente com os do gigante holandês foram somando vitória atrás de vitória nas rondas seguintes e o Milan colocou-se rapidamente a seis pontos do Napoli, distância encurtada a um ponto apenas à medida que os napolitanos iam surpreendentemente perdendo pontos em campos improváveis o que levantou sempre as suspeitas da influência da Camorra na derrota do seu próprio clube e máximo favorito nas casas de apostas. O certo é que os golos de Virdis frente à Roma e Inter deixaram tudo em aberto para o jogo do título em San Paolo a três jornadas do final. Se o Napoli saísse vivo desse jogo tinha o segundo Scudetto consecutivo nas mãos. O Milan tinha de vencer para ultrapassar os homens de Maradona, sabendo ainda que na seguinte ronda se media à Juventus sem margem nenhum de erro. O jogo em San Paolo acabou por definir o papel fundamental de Virdis no projecto de Berlusconi.

Com van Basten regressado da sua longa lesão, Sacchi tomou a decisão de deixar o holandês no banco para surpresa geral mantendo assim a confiança na dupla Virdis-Gullit, apoiados no meio-campo por Evani, Colombo, Donadoni e Ancelotti. Uma decisão que se revelou inspirado de imediato quando aos 36 minutos o sardo apontou o primeiro golo do encontro frente a Garella, gelando as bancadas do campo napolitano. Maradona respondeu pouco depois com o empate e Virdis, uma vez mais, restabeleceu a vantagem no marcador quinze minutos depois antes de que Van Basten, lançado aos leões na segunda parte, por Donadoni, acabasse por assestar o golpe decisivo, o golo que lançaria o Milan para o seu primeiro Scudetto da era Berlusconi. De nada valeu a um Napoli periclitante o empate a zero frente à Juventus dos milaneses na ronda seguinte. Tudo ficava por decidir na última ronda com o Milan a viajar a Como e o Napoli a Genova e um empate bastava aos rossoneri para celebrar o título. O golo de Virdis, aos dois minutos, foi suficiente. Os locais empataram – salvando-se assim da despromoção – e os milaneses celebraram o título e Pietro Paolo Virdis acabou o ano como o máximo goleador da equipa.

Um ano depois, já com van Basten definitivamente estabelecido como máximo titular do ataque, o seu árduo trabalho dos anos anteriores foi recompensado quando Sacchi decide lançar o veterano sardo para o lugar de Gullit na final da Taça dos Campeões Europeus frente ao Steaua em Barcelona. Foi o coroar de três anos inesquecíveis para um jogador que em 1986 muitos davam por perdido para o futebol de elite depois de quase uma década anónima na Serie A. Sem nunca ter sido internacional, Virdis retirou-se dois anos depois com um curriculo impressionante e como herói anónimo de uma equipa de antologia que necessitou, como poucos, dos seus golos para fazer História.

 

329 / Por