Um negro numa equipa de brancos. Um punhal no coração do Apartheid. No culminar das tensões internacionais por culpa da segregação racial na África do Sul um jogador reabriu a ferida desafiando todas as convenções. Sem o saber, Vincent Julius converteu-se na Rosa Parks do futebol sul-africano.

Como o Apartheid dividiu o futebol na África do Sul

Quando em 1959 o governo sul-africano ratificou publicamente a sua política de segregação racial perante os seus parceiros da Confederação Africana (CAF) com a formalização de uma Liga Nacional de Futebol exclusiva para brancos, ditou a sua própria sentença. Num continente disposto a utilizar o futebol como uma metralhadora mais na luta pela independência, o comportamento colonial e racista das autoridades sul-africanos condenaram o país a um ostracismo que durou até ao fim do Apartheid. O futebol prosperou, inevitavelmente, mas a nível interno e longe do potencial real do país. A linha que dividia o estado entre brancos e negros ou indianos passou do quotidiano para os relvados. Rapidamente constituíram-se ligas paralelas, mundos à parte. Um campeonato oficial para equipas de brancos, um torneio oficioso para negros. Os primeiros, mais preocupados com o cricket e o rugby, foram sempre uma imensa minoria praticamente.

O futebol era um desporto para os pobres, para os humildes. Para os do outro lado do muro de pedra invisível que os separava. Nesse universo das “townships” o jogo prosperou com a mesma força e cor que as camisolas do Brasil no verão mexicano. Multiplicaram-se as equipas, os projetos comunitários assentes à volta desses clubes e foram surgindo jogadores de grande potencial. Poucos triunfaram porque não tinham para onde ir. A liga sul-africana para negros não era reconhecida oficialmente, os seus vizinhos africanos tinham a sua própria matéria prima e aos europeus interessava-lhes pouco misturarem-se no complicado mundo da sociedade do Apartheid. Só Jono Somo, essa flecha mítica herdeira de outras memorias, cruzou o lago do esquecimento para consagrar-se não na Europa mas ao lado de Pelé, como um dos rostos mais emblemáticos do New York Cosmos nos anos setenta. Tal foi a sua popularidade que quando voltou a casa decidiu investir o seu dinheiro a comprar um clube, rebatiza-lo Jomo Cosmos e a partir de aí exercer de pai espiritual do futebol sul-africano. Um pai distante para o mundo mas uma inspiração para jovens turcos, jovens ambiciosos como Vincent Julius.

Tanti” Julius, a gazela negra

Vincent “Tanti” Julius era rápido. Era ágil. E era, sobretudo, um animal de área com um apetite goleador tremendo. Durante a sua juventude triunfou sucessivamente sobre todas as adversidades para terminar por impor a sua qualidade num campo de futebol. Fez-se notar e lembrar. Era um dos mais completos jogadores da sua geração, um portento africano como havia poucos nos anos setenta. Mas tinha um problema: era negro.

Noutro qualquer país africano isso teria sido motivo maior para triunfar, símbolo de uma nova vaga, a última, de independentismo sustentada pelo esférico. Na África do Sul, no entanto, era quase um crime. Condenado a jogar em baldios, campos cheios de lama e pedregulhos e estádios em condições lamentáveis, “Tanti” esteve muito perto de se transformar em mais um pedaço esquecido da história, uma lembrança contada entre suspiros num jantar de família. Esse seria o seu destino natural como o de tantos outros jogadores se não fosse o vento de mudança e o seu talento indiscutível, suficiente para o transformar num símbolo tão poderoso como Mandela, Somo ou Biko para os mais humildes habitantes dos bairros de lata que se ampliavam á volta de Pretoria ou Joanesburgo.

A história do futebol sul-africano – e do país – mudou a 18 de Fevereiro de 1977.

Com as bancadas – estritamente divididas entre brancos e negros – a viver um misto de euforia e transe, o Arcadia Shepards subiu ao relvado do estádio Caledonia com dez jogadores brancos e um negro. Esse negro chamava-se Vincent Julius. Tinha sido apresentado aos colegas minutos antes. A sua utilização era um enigma. O clube – presidido por um magnate visionário de Pretória chamado Saul Shacks, branco mas não Afrikaneer, os descendentes de holandeses e racistas mais inflamados – tinha uma significativa comunidade de apoio negra e para potenciar essa sintonia decidiu desafiar o establishment e incorporar futebolistas negros nas suas filas. Durante semanas a ideia foi debatida nos escritórios da direção sem que ninguém soubesse o que se estava a passar. Os dirigentes do clube, uma vez logrado o difícil consenso, contactaram a federação sul-africana para comunicar a sua decisão e averiguar o que lhes podia cair em cima. Para sua surpresa, a resposta foi tíbia.

Os protestos internacionais contra a prisão de Nelson Mandela e Stefan Biko, os grandes lideres da luta contra o Apartheid, bem como as revoltas populares tinham levado ao governo sul-africano a baixar o nível de tensão ao máximo. Pretória não queria dar mais pretextos á opinião internacional para reclamar com a sua política interna. A lei era clara. Não estavam permitidas equipas mistos do mesmo modo que tudo o resto no quotidiano sul-africano estava igualmente dividido. O único comentário realizado foi, em modo de aviso, que os restantes clubes da liga podiam reclamar a despromoção do clube por violar as regras. Shacks decidiu aceitar o desafio. Julius estreou-se nesse dia contra o Highland Parks e marcou o golo decisivo. No inicio do jogo, o capitão da equipa rival, um Afrikaneer de nome Hennie Joubert, chegou á beira dele e disse-lhe, jocosamente, que se portasse bem em campo e fizesse tudo o que o seu “patrão” lhe dizia, referindo-se ao capitão de equipa branco do Arcadia. Após marcar o golo, “Tansi” aproximou-se de Joubert e respondeu-lhe, com ar sério, que se tinha limitado a cumprir ordens do seu “patrão”. Nesse momento o Apartheid chegou ao fim.

A revolução sul-africana

Um ano depois, já “Tanti” se tinha convertido num símbolo contra a luta segregacionista, o ministro dos desportos do governo sul-africano, Piet Koornofh, decidiu convocar os clubes para comunicar-lhes que o governo ia aceitar a utilização generalizada de equipas mistos como forma de apaziguar os problemas sociais, aproveitando igualmente para levar mais negros a assistir ao vivo aos jogos de clubes essencialmente exclusivos da comunidade branca. A medida abriu as portas á unificação progressiva das duas ligas e depois de Julius vários jogadores seguiram as suas pisadas. Poucos anos depois o regime do Apartheid formalmente desaparecia debaixo de aclamação geral e com ele chegava oficialmente a criação de uma federação e liga nacional, sem qualquer tipo de distinção racial.

Como era esperado os clubes de origem na comunidade negra prevaleceram. Tinham mais adeptos, maior historial e maior entrega ao jogo face aos seus antigos rivais, que viveram um pequeno “boom” a partir do momento em que “Tanti” e outros futebolistas negros ou de origem indiana chegaram aos seus quadros, ainda que em muitos casos ocupando balneários á parte dos seus próprios colegas. Quando o Orlando Pirates se sagrou campeão continental, o ciclo chegou ao fim. Um ciclo que tinha começado quase duas décadas antes, com o perfume do golo pintado em tons tribais por um rebelde chamado Vincent Julius.

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