Viktor Maslov, o inventor do futebol moderno

Quem é Viktor Maslov? Para a maioria dos adeptos e analistas, um nome perfeitamente desconhecido. E no entanto, este treinador revolucionário está por detrás da mais importante mutação táctica do futebol moderno. Esqueçam tudo o que leram, consequência forçada da desinformação habitual dos dias da Guerra Fria. Porque talvez nunca tenha havido um treinador tão influente na história do futebol.

O adeus numa paragem de metro

A última vez dói sempre mais. A de Viktor Maslov como treinador do Dynamo Kiev deve ter doido mais ainda. Como dizer adeus quando se deu tanto, quando as sensações de futuro são tão promissoras? Como acabar uma história que, no presente de então ninguém seria capaz de adivinhar como mudaria o futuro?

Os dirigentes do Dynamo Kiev tinham medo da reação do público quando soubessem que Viktor Maslov iria ser despedido. Por isso preferiram fazê-lo longe de casa, numa das habituais viagens até Moscovo. Depois de uma vitória sobre o Spartak, a equipa saiu do estádio num autocarro rumo ao aeroporto. A meio caminho o autocarro parou ao lado de uma estação de metro. A porta abriu-se. Maslov saiu, com a mala na mão. Acenou vagarosamente aos jogadores. E chorou. Nunca ninguém o tinha visto chorar. Nunca ninguém lhe tinha dito adeus assim.

Curiosamente o despedimento de Maslov acabou por ser fundamental para o sucesso do seu próprio plano, da sua filosofia de jogo. Três anos depois desta sequência, a sua herança era tão pesada que nenhum dos seus substitutos tinha sido capaz de estar à sua altura. Até que os mesmos homens que o demitiram decidiram chamar o único que ousou opor-se-lhe.

O que não contavam é que o jogador que desafiou o exigente técnico seria o seu mais apaixonado discípulo no banco de suplentes. Valery Lobanovsky pegou na herança de Maslov e levou-a ainda mais longe. Com ele o pressing, a defesa zonal e a aplicação cientifica ao estudo e análise do jogo tornou-se na base do sucesso do futebol do Dynamo de Kiev nas três décadas seguintes.

Pressing, mais do que uma palavra

Pressing. Marcação à Zona. 4-4-2.

Se é preciso resumir a importância definitiva de Viktor Maslov na história do futebol, estas três palavras poderiam fazê-lo perfeitamente.

Eram o santo e senha da sua ideologia quando ninguém sequer podia imaginar o que significavam para a evolução do jogo. Poucos anos depois um holandês teimoso chegava à mesma conclusão em Amesterdão. E um dos seus jogadores mais complicados prosseguia o seu trabalho, aplicando a base cientifica onde ele utilizava apenas o seu sentido comum. Mas tudo começou ali, com ele. O futuro saiu do seu presente.

Maslov foi um dos espectadores mais atentos do Mundial de 1958.

Na altura treinador do Torpedo de Moscovo, equipa do prodígio soviético Eduard Streltsov, a sua experiência nesse Mundial moldou para sempre a sua filosofia táctica. Ao seguir a evolução táctica do escrete canarinho orientado por Zezé Moreira, Maslov sentiu que havia um potencial tremendo que estava a ser desaproveitado com um excesso de jogadores colocados na linha de ataque. Ao contrário da maioria dos analistas, prendados de Pelé e Garrincha, ele focou a sua atenção no trabalho de formiga de Mario Zagallo. O extremo esquerdo brasileiro habitualmente fechava na linha de meio-campo, transformando o 4-2-4 num 4-3-3. Isso permitia maior liberdade criativa a Didi e dava aos laterais maiores possibilidades de se incorporarem ao jogo ofensivo sem hipotecar a segurança da defesa.

Quando voltou a Moscovo decidiu abandonar definitivamente o WM, a táctica mais habitual nos clubes da liga soviética, e apostar num 4-2-4 à brasileira.

Se nesse sentido se antecipou a Bela Guttman, que aplicou a mesma fórmula no Benfica depois da sua experiência no Brasil, foi mais longe ainda quando começou a incutir a todos os seus jogadores que pressionassem a bola independentemente da posição no terreno de jogo. Dos avançados aos laterais, todos tinham de apertar o jogador com a posse de bola para forçar um passe errado e assim recuperar a possessão e com ela o controlo do jogo. O processo foi longo e a ausência de Streltsov, por problemas políticos (foi deportado para um Gulag em vésperas do Mundial), não ajudaram a que o modelo fosse aplicado com o sucesso esperado mas as equipas contrárias começaram a reparar na dificuldade extrema em manter a possessão contra os moscovitas.

A sua obsessão transformou-se em encontrar o Didi brasileiro, o homem que pautava o ritmo do jogo e para quem os colegas deveriam passar a bola sempre que possível. Ele era a pausa onde os outros deviam ser a velocidade. Quando em 1964 recebeu um convite do Dynamo de Kiev para treinar o clube mais importante da Ucrânia, com todos os apoios estatais garantidos para obter sucesso no campo desportivo, aceitou o desafio e abandonou Moscovo. Seria aí onde a sua obra começaria a ganhar forma.

Marcação zonal, o conceito definitivo

O primeiro problema que Maslov teve em Kiev chamava-se Valery Lobanovsky.

A sua mutação táctica implicava um repensar da posição clássico do extremo. Maslov reparou que uma equipa com dois extremos estava a perder o controlo do meio-campo. Um só seria suficiente. Progressivamente até esse jogador seria substituído por um médio mais criativo, posicionado no eixo central do terreno de jogo. Essa filosofia implicava abdicar dos jogadores talentosos e velozes mas que paravam demasiado o jogo com os seus malabarismos e que, essencialmente, não recuavam no terreno para dar o equilíbrio defensivo necessário à equipa. Lobanovsky era esse tipo de futebolista e depois de dois anos, num braço-de-ferro intenso, abandonou o clube do qual era a estrela.

Foi a peça final do puzzle para que o 4-3-3 de Maslov passasse a ser, em realidade, um 4-4-2.

Um sistema onde todos os jogadores tinham ordens para pressionar o seu marcador imediato desde a saída da bola da defesa contrária. O treino físico foi melhorado para garantir que a equipa era capaz de aguentar a exigência física que suponha esse trabalho e a defesa foi treinada para encarar os adversários rivais numa marcação não homem a homem mas sim à zona. Isso implicava uma coordenação perfeita de movimentos que só era possível porque o pressing exercido encontrava o rival desorientado. Quando um jogador passava pelo seu marcador, para evitar um desgaste físico desnecessário e um desajuste táctico, este simplesmente deixava-o para o homem seguinte. Com a rápida recuperação de bola vinham os lançamentos rápidos para apanhar a defesa em contra-pé, com a linha do meio-campo a subir e descer no terreno de jogo conforme a posição da bola.

Dois anos antes dos Wingless Wonders de Alf Ramsey, o russo abdicou do jogo de alas e colocou um playmaker puro (Szabo, o seu Didi) atrás do duo de pontas de lança (Byshovets e Puzach) com três homens no apoio directo atrás de si.

Com o seu Dynamo Kiev logrou os melhores registos, vencendo duas ligas soviéticas e disputando taco a taco uma intensa eliminatória europeia contra os futuros campeões, o Celtic de Glasgow.

Inovação por instinto

Até ao aparecimento de Maslov, o ritmo de jogo e a ocupação dos espaço, hoje verdadeiro obsessão, eram conceitos deixados quase sempre para um segundo plano.

Os técnicos italianos abdicavam deles, em prole de uma abordagem de contenção, no Brasil – apesar das inovações tácticas dos anos 50 – o futebol ainda era disputado com tremenda liberdade e no centro e norte da Europa os últimos anos de amadorismo só agora permitiam começar a importar conceitos perdidos nos anos. Maslov antecipou-se no tempo e no espaço a todos.

A sua influência só se pode comparar a Jimmy Hogan e Herbert Chapman, definidores dos modelos de jogo continentais e britânicos nos anos 20, modelos que prevaleceram com os seus respectivos seguidores (a escola centro-europeia e sul-americana no primeiro, o kick-and-rush e o catenaccion com o segundo).

O mais curioso é que Maslov, inovador como foi, desenvolveu a sua teoria baseado apenas no instinto e na sua experiência pessoal. Aquilo que mais tarde, para Lobanovsky, seriam teoremas científicos puros, verdades comprovadas por números, consigo era uma aplicação prática do que a teoria lhe parecia dizer. Anos antes do modelo de auto-gestão se ter feito popular em alguns clubes, ele foi um dos primeiros treinadores que consultava ativamente os jogadores sobre o modelo a aplicar e o onze a alinhar. Com essa concessão o que garantia, sobretudo, era a implicação emocional dos jogadores no seu modelo, que exigia do profissional mais do que nunca nenhum outro técnico tinha exigido.

Uma morte em silêncio

Depois da cena, que com o passar dos anos ganhou contornos quase mitológicos, a carreira de Maslov não chegou ao fim. Mas a sua influência no futuro do futebol sim. Com o Torpedo de Moscovo, o técnico venceu uma Taça da URSS dois anos depois antes de viajar até à Arménia.

Aí conseguiu uma das maiores proezas da história do futebol soviético. Colocando em prática a sua teoria, transformou o Ararat Yerevan no mais improvável dos campeões nacionais. Foi o seu canto do cisne. Minado pela doença, Maslov caminho para uma morte lenta, no mais absoluto anonimato, em 1976. Só depois do final da Guerra Fria, quando os estudiosos do jogo começaram a ter acesso aos registos escritos e visuais da época se conseguiu perceber a sua real importância no desenvolvimento do jogo.

Antes de Rinus Michels e de Valery Lobanovsky, o técnico soviético foi o primeiro treinador que entendeu a importância fundamental do pressing constante e da defesa zonal como passos necessários para a evolução do futebol. Hoje os seus ensinamentos perduram garantindo que a herança do homem a quem os seus jogadores chamavam de “Avôzinho” continua muito para lá da sua morte.

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