Antes de Portugal ter dado o pontapé de saída nas suas aventuras nos Campeonatos do Mundo a arbitragem portuguesa já se tinha estreado na história dos Mundiais. Vieira da Costa marcou presença em dois torneios e abriu caminho para uma tradição que Pedro Proença continua no Brasil.

 A estreia da arbitragem portuguesa nos Mundiais

O Mundial de 1950 ficou célebre por dois resultados que entraram diretamente para o livro de memórias da competição. Mas para lá da derrota da Inglaterra em Belo Horizonte ou do triunfo do Uruguai frente aos anfitriões no Maracanã, o torneio organizado pelo Brasil em 1950 foi também especial para o futebol português.

John Sousa, luso-descendente, transformou-se no primeiro jogador de ascendência portuguesa a fazer parte do onze tipo de um Campeonato do Mundo, dezasseis anos antes de Eusébio da Silva Ferreira. Foi um ano de triunfo para a comunidade emigrante lusa nos Estados Unidos. E foi também um ano para celebrar a arbitragem portuguesa. José Vieira da Costa, árbitro portuense, tornou-se no primeiro homem de negro a representar Portugal num Mundial de Futebol.

O célebre árbitro não dirigiu nenhum jogo no torneio mas fez parte da equipa de assistentes em três jogos, um deles na poule final entre a Espanha e a Suécia. Quatro anos depois, Vieira da Costa subiu ao relvado como líder da equipa de arbitragem do encontro decisivo entre RF Alemanha e Turquia. Foi a sua única participação no torneio helvético mas que se revelou suficiente para entrar na história. Seria o primeiro representante português a arbitrar um jogo na fase final antecipando uma longa tradição que ultrapassa a das próprias participações oficiais da seleção principal na prova. Pedro Proença no Brasil, onde tudo começou, será o nono árbitro português a participar na competição.

Vieira da Costa, o estreante

Vieira da Costa nasceu no Porto a 13 de Fevereiro de 1908.

A sua carreira arbitral começou em 1930 como árbitro dos jogos nos campeonatos distritais do Porto, onde estava afiliado. Progressivamente Vieira da Costa passou a ser escolhido para competições nacionais, começando pelo Campeonato de Portugal – a versão inaugural da Taça de Portugal – passando depois para os Campeonatos da Liga e da 1º Divisão. No final da década já era um dos árbitros mais reconhecidos do futebol em Portugal.

A Janeiro de 1950, já com quase duas décadas de arbitragem ao mais alto nível ás suas costas, Vieira da Costa estreou-se como árbitro internacional nos Jogos Centro Americanos, o que serviu para ser eleito para o lote de árbitros seleccionados pela FIFA para viajar no Verão seguinte ao Brasil. Enquanto a Federação Portuguesa de Futebol recusou o convite de Jules Rimet para substituir a Escócia no torneio – depois de Portugal ter sido eliminado na fase de qualificação – a arbitragem portuguesa fez-se representar no sorteio. Foi uma escolha pragmática já que o organismo organizador do torneio queriam um árbitro fluente na lingua local e capaz de se comunicar facilmente com os paises sul-americanos hispânicos e que fosse de companheiro de viagem dos restantes árbitros europeus.

A 25 de Junho, Vieira da Costa estreou-se como árbitro auxiliar do brasileiro Mário Viana no jogo entre Espanha e Estados Unidos em Curitiba. Cinco dias depois, no mítico Maracanã, auxiliou o galês Benjamin Grifith o decisivo Brasil vs Jugoslávia que garantiu o apuramento dos locais para a poule final. Já aí, treze dias depois, apitou com Reginald Leafe o Espanha vs Brasil um jogo que permitiu aos locais chegarem ao decisivo encontro com o Uruguai a precisar apenas de um empate que nunca aconteceu. A impressão deixada pelo árbitro para a FIFA foi a melhor e assim, quatro anos depois, já no zénite da sua carreira arbitral, Vieira da Costa voltou a estar entre os eleitos para fazerem parte da exclusiva lista de homens de negro no torneio organizado na Suiça. O primeiro encontro do português repetiu o historial dos três anteriores tendo actuado como fiscal-de-linha de Raymond Wissling.

Foi a 17 de Junho, quatro dias depois, que Vieira da Costa se estreou finalmente como árbitro principal no decisivo jogo entre turcos e alemães, os futuros vencedores do torneio. Em Berna, diante 40 mil adeptos, o árbitro portuense geriu um jogo sem polemica e história que acabou com a vitória germânica. Foi a primeira e última vez que o árbitro luso teria galões de lider de equipa. Ainda voltou a aparecer como assistente em outros dois jogos (Inglaterra vs Suiça e Suiça vs Itália) alcançando um total de sete jogos no seu historial de Mundiais entre árbitro principal e assistente, um recorde ainda hoje por bater. No ano seguinte o árbitro portuense acabou a carreira desportiva. A sua história dava o pontapé de saída na relação entre os Campeonatos do Mundo e os árbitros portugueses.

A carreira dos árbitros portugueses em Campeonatos do Mundo

Em 1958 a representação arbitral portuguesa coube a Joaquim Campos.

O árbitro, natural de Mirando do Corvo, apitou o Alemanha Federal vs Irlanda do Norte no torneio escandinavo e voltou, seis anos depois, a fazer parte dos eleitos da FIFA arbitrando o Argentina vs Suiça. Em 1970, no México, Saldanha Ribeiro foi o lider da equipa de arbitragem do empate entre Bulgária e Marrocos e serviu como assistente no confronto entre a Alemanha Federal e os bulgaros. Após o interregno de 1974 surgiu em cena António Garrido que esteve no torneio de 1978, na Argentina, no polémico Argentina vs Hugnria, e que depois de participar no França vs Inglaterra do Espanha 82 esteve entre os potenciais candidatos a ser o responsável por dirigir a final. Finalmente acabou por ser relegado a arbitrar o duelo entre gauleses e polacos pela medalha de bronze, até hoje a maior distinção dada a um árbitro português na fase final do torneio.

Carlos Valente viajou ao México e a Itália para arbitrar três jogos (um em 1986 e dois em 1990) e sem representação no torneio organizado nos Estados Unidos coube a Vitor Pereira seguir o longo historial português estreando-se no França 98 com o Jamaica vs Croácia seguido do duelo dos oitavos de final entre alemães e mexicanos. No torneio seguinte, na Coreia do Sul e Japão, o árbitro repetiu a mesma performance com um jogo na fase de grupos (França vs Dinamarca) e nos oitavos-de-final (Estados Unidos vs México). Carlos Matos, habitual fiscal-de-linha de Vitor Pereira, acompanhou-o em dois dos jogos mas no China vs Costa Rica teve direito a ser o único representante luso em campo. Sua também é a honra do historial da arbitragem português.

Em 2010 foi Olegário Benquerança o elegido pela FIFA como representante português dentro do lote de participantes da UEFA e depois de dois encontros da fase de grupos coube-lhe dirigir o polémico Gana vs Uruguai que terminou com um indiscutível penalty que Asamoah Gyan não soube concretizar precipitando a posterior eliminação dos africanos. Pedro Proença dará continuidade a uma história que é mais antiga e estatisticamente mais rica do que a da própria equipa nacional. Desde 1950 que os árbitros portugueses marcaram presença em vinte e cinco jogos oficiais no torneio por vinte e três da equipa das quinas. No Brasil Proença e os homens de Paulo Bento continuarão esta história paralela do futebol português em Campeonatos do Mundo.

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