Venezia, a primeira maravilha de Mazzola

Antes de transformar a história do futebol italiano com a camisola “granata”, Valentino Mazzola transformou a cidade italiana menos apaixonada pelo futebol numa surpreendente potência nacional. Veneza rendeu-se ao génio de Valentino na única conquista da sua história, a Coppa Italia de 1941.

O encontro inesperado na cidade dos canais

A Europa já tinha entrado em guerra. O Torino era ainda um clube importante no Piedmonte mas sem expressão nacional. Veneza, a rainha do Adriático, continuava sem ser uma cidade devota do “Calcio”. Entre o passado, o presente e o futuro, fez-se história.

O FBC Unione Venezia, fundado em 1907, conta com apenas vinte e três participações na Serie A desde a sua primeira encarnação, em 1908. Números modestos para um emblema que representa não só uma das mais importantes e simbólicas cidades do país mas também toda a região do Venetto. No entanto, na cidade das “gôndolas”, o futebol não é propriamente uma devoção. Talvez porque a cultura de jogo de rua choca, invariavelmente, com a sua particular arquitectura. Entre ilha e ilha, o espaço para manobrar o esférico reduzia-se a pequenas ruas e parques. Insuficientes para gerar a paixão e devoção do vale do Pó, das ruinas romanas ou do calor asfixiante do sul do país. Veneza foi sempre o patinho feito do Calcio mas em 1941, surpreendentemente, transformou-se num inesperado protagonista. A culpa foi de um jovem aspirante a estrela que tinha chegado à cidade para cumprir o oficio de todos os italianos adolescentes, cumprir o serviço militar. Com 20 anos, Valentino era já um nome que despertava curiosidade. Tinha passado os cinco anos anteriores a jogar na fábrica da Alfa Romeo em Milão, um clube modesto dos trabalhadores da marca automóvel, deixando já destelhos do seu talento e génio. Alguns dos principais clubes da região abordaram o jogador para entrar nas suas filas mas o chamamento da marinha naval italiana veio primeiro e com ele a obrigação de dizer que sim. Com vinte anos anos cumpridos, Mazzola chegou a Veneza e depois de uns jogos amigáveis com os colegas do pelotão, foi incentivado pelos oficiais a apresentar-se no clube local, o Venezia, para jogar por eles nas horas livres.

Para Valentino a experiência era duplamente sedutora. Não só podia continuar a por em prática a sua enorme paixão como o facto de jogar no clube local lhe oferecia um tratamento especial em comparação com os seus colegas de regimento. Depois de impressionar no primeiro dia, Valentino foi convidado a ficar. Um dirigente do clube disse-lhe, no entanto, que teria de trazer as suas próprias chuteiras já que não havia pares suplentes para ele no armário do balneário. O jovem prodigio respondeu com toda a tranquilidade do Mundo que, se fosse por ele, até jogaria descalço. O dirigente olhou para o campo, enlameado, e entendeu rapidamente que Mazzola estava destinado a algo grande.

A vitória da dupla Loik-Mazzola na Copa de Itália

Durante três anos, Mazzola tornou-se na estrela da cidade veneziana.

A sua estreia aconteceu ainda com o clube a lutar pela promoção á Serie A e como seria de esperar, os golos e assistências de Valentino foram decisivos para devolver o clube dos leões de São Marcos á Serie A. Tinham passado dez anos desde a ultima aparição na elite do Calcio. Na seguinte temporada, 1939-40, Mazzola voltou a deixar uma notável impressão conduzindo o clube até ao décimo posto da tabela classificativa diante de rivais mais poderosos como o Bari, Napoli e a Fiorentina que acabaria por vencer a Copa de Italia. A parceria de ataque de Valentino com o italo-uruguaio Giovanni Alberti foi decisiva mas o parceiro ideal do génio de Cassano d´Adda chegaria no defeso seguinte.

Ezio Loik tinha percorrido o caminho oposto de Mazzola. Natural de Friuli, uma região a norte de Veneza, tinha despontado em 1936 como uma das jovens promessas do Calcio e o AC Milan imediatamente incorporou-o ás suas filas. Não eram bons anos para os “rossoneri”, superados pelos seus rivais do Inter-Ambrosiana de Giusepe Meazza com regularidade. Em 1940, depois de três épocas para esquecer, Loik foi atraido pelo Venezia e não recusou a oferta. No Stadio Pierluigi Penzo – só acessível por comboio e barco – conectou imediatamente com Mazzola.

Com a companhia de Diotavelli e Alberico, o ataque do conjunto veneziano tornava-se subitamente no mais feroz e atrativo do Calcio. As constantes trocas de posição entre Loik e Mazzola, a partir da posição de interiores, eram uma arma dificil de travar e davam um trunfo especial a uma equipa que contava igualmente com a solidez defensiva que Piazza, Di Gennaro e Puppo ofereciam. Nessa temporada, o conjunto ficou em 12º na Serie A mas conquistou o único titulo de elite da história do emblema de Veneza, a Copa de Italia.

Eliminando sucessivamente o Borzachinni Terni, Udinese e Bologna o conjunto veneciano cruzou-se nas meias-finais com a AS Lazio de Silvio Piola, uma das mais temiveis formações do futebol italiano da época. Num jogo disputado em Veneza, os laziale foram categoricamente batidos pelos locais com uma exibição estelar de Mazzola. Já não era nenhuma novidade, o jovem Valentino era o sucessor de Meazza como grande icone do futebol transalpino. A final, contra a AS Roma, teria lugar a 8 de Junho, na capital italiana. O país já estava formalmente em guerra mas o desgaste do conflito armado tardaria ainda dois anos a fazer-se notar. No Olimpico o duelo foi frenético. Amadei marcou o hat-trick mais rápido da história da competição colocando os “gialorroso” a vencer por 3-0 ao minuto vinte. A reação de Valentino não se fez esperar. Reduziu aos 36 e assistiu Diotavelli e Alberti para os golos do empate na segunda parte. Havia desempate, marcado para Veneza. Com o apoio entusiasmado de uma cidade que, subitamente, redescobriu a paixão pelo Calcio, o Venezia venceu por 1-0 com golo de Loik em mais um lance iniciado por Valentino. Era o primeiro título da dupla que ia dominar o futebol italiano durante toda a década de quarenta. A vários quilómetros de distância.

A caminho do super Torino o título que ficou por ganhar

Conquistada a Copa de Itália o Scudetto tornava-se no próximo objectivo. Nunca um clube tão modesto tinha sonhado tão alto mas com Loik e, sobretudo, com Mazzola, tudo era possível. O Venezia partiu para a temporada 1941-42 convencidos que podiam fazer história e quase que lograram o objectivo. Acabaram a temporada num histórico terceiro lugar, ainda hoje a sua melhor posição de sempre. Os homens de Giovanne Rebuffo disputaram até ás ultimas rondas o título com o Torino e a Roma, a equipa que tinham batido na final da Copa no ano anterior.

A derrota no jogo da segunda volta com os romanos – depois de terem empatado o primeiro duelo – foi decisivo nas contas finais. Ao magnifico ano na liga repetiu-se outra grande campanha na Copa Italia travada apenas nas meias-finais pelo AC Milan. A era dourada do futebol veneziano tinha chegado ao fim. As agruras da guerra começavam a fazer-se sentir. Mazzola, com o serviço militar obrigatório completo, foi autorizado a transferir-se para o Torino. Com ele foi Loik, o seu inseparável amigo e parceiro de diabruras no ataque. Na capital do Piemonte os dois iam encontrar-se com uma geração única de futebolistas.

Em 204 jogos com a camisola “granate”, Mazzola marcaria 104 golos, daria dezenas de assistência e inventaria o grito de guerra eternizado pelo trompetista do estádio Filadélfia que consagraria o primeiro pentacampeão da Serie A. Entre 1944 e 1949 o Torino foi invencível e consagrou-se como a mais demolidora e atrativa formação do futebol mundial. O sonho acabou numa viagem de regresso de Lisboa, contra a montanha de Superga, a 4 de Maio de 1949. Mazzola, escolhido a dedo por Pozzo para liderar o ataque ao terceiro título mundial, morreu com todos os integrantes da equipa. Os italianos teriam de esperar até 1982 para voltar a ser campeões do Mundo.

O Torino, por sua vez, teria outro idolo maldito, Gigi Meroni, que chorar décadas depois. Mas para o Venezia a saga de Mazzola foi o principio e o fim de uma paixão curta mas intensa com a magia do Calcio. Na cidade dos canais, a bola nunca mais voltou a soar da mesma maneira quando Valentino partiu para um destino heroico e trágico!

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