Union St. Gilloise, o primeiro gigante da Europa Ocidental

Os adeptos de hoje estão habituados a ter o Anderlecht como a máxima referencia do futebol belga. Mas na primeira metade do século XX a grande potencia futebolística do país era outro clube de Bruxelas. Um dos primeiros Reis do futebol europeu viveu a sua fábula antes que as televisões pudessem ter criado o mito.

 A ascensão do futebol belga

Entre 1933 e 1935 o Union St. Gilloise disputou 60 jogos oficiais. Não perdeu nenhum.

O recorde, ainda vigente no futebol belga e dificilmente igualável em muitos dos países do Velho Continente, conta apenas uma parte da história. Da história do primeiro grande clube da zona geográfica conhecida como Benelux. Entre a Bélgica e os Países Baixos forjou-se uma das primeiras colónias futebolísticas no continente. Paralelamente à Suiça e as suas universidades e às cidades do império austro-hungaro, tanto belgas como holandeses revelaram-se rapidamente apaixonados do foot-ball. A proximidade geográfica com o Reino Unido ajudava e de que maneira. Todos os anos vários clubes ingleses atravessavam o Mar do Norte para disputar digressões nesse canto do continente europeu. Ocasionalmente os amadores belgas e holandeses repetiam o processo e com essas viagens foram aprendendo lições valiosas. Durante anos foram os alunos mais aplicados dos ingleses. Entre belgas e holandeses rapidamente se estabeleceu uma rivalidade que durou até aos anos setenta, altura em que os descedentes da “Laranja Mecânica” deram um passo definitivo rumo a outra dimensão que os belgas não souberam emular.

Naqueles primeiros anos do século XX a diferença era nula. Os duelos entre equipas dos dois países repetiam-se – um deles foi tão acérrimo levou, inclusive, à formação do que mais tarde seria a FIFA – e os campeões de ambos os lados da fronteira também. Até que arrancou a hegemonia da primeira grande potencia futebolística da Europa Ocidental.

As primeiras competições da Europa Ocidental

O Union St. Gilloise foi fundado a 1 de Novembro de 1897.

A história do futebol belga guardou-lhe a camisola dez, o número no registo de fundação entre os clubes de futebol do país. Filho desse fin de siecle desportivo, albergava igualmente varias modalidades como era habitual à época nessa política desportiva impulsionada pelos anglófonos. Nascido no bairro de Saint-Gilles, em Bruxelas, a sua ascensão no futebol belga foi rápida e imediata. Em 1903 o clube venceu o seu primeiro título de campeão nacional, um torneio que tinha começado a organizar-se em 1895. Foi o primeiro de onze conquistas, todas elas até aos anos trinta.

Tetracampeões belgas entre 1903 e 1907, os “Unionistes”, transformaram-se também numa das primeiras grandes potencias do futebol continental. As competições europeias tinham começado a disputar-se no coração do império austro-hungaro a partir de 1897, na popular competição conhecida como Der Challenge Cup. Uma prova onde só participavam austríacos, húngaros e checos que deu o pontapé de saída para a organização de torneios entre nações europeias. Em 1898 na zona ocidental do continente organizou-se o seu equivalente, o torneio Challange du Nord.

A competição incluía participantes de vários quadrantes, desde belgas e holandeses a franceses e suíços. Os ingleses, como era habitual, declinaram participar. Nesses primeiros anos os clubes eram ainda, exclusivamente, amadores. O futebol italiano e ibérico estava a dar os primeiros passos e a competição reunia, na prática, o terceiro mais importante grupo de clubes da Europa, apenas atrás das competições britânicas e austro-hungaros. Era um genuíno titulo de campeão da Europa Ocidental que estava em jogo.

O domínio da Challenge du Nord e do von Ponthoz

O torneio arrancou com a vitória do Leopold Club de Bruxelas, o primeiro grande campeão do futebol belga. O St. Gilloise estreou-se na prova seis anos depois e levou para casa o troféu. Seria a primeira de quatro conquistas do clube que acabou por consagrar-se no grande dominador da competição. A equipa venceu as edições de 1904 e 1905 e depois de um hiato de um ano, recuperou o troféu em 1907. Era uma competição quase dominada hegemonicamente por clubes belgas. Das 16 edições disputadas, só em seis ocasiões o titulo saiu do pais.

Paralelamente ao sucesso do Challange du Nord, em 1900 um importante magnata belga, o conde Straeten von Ponthoz, decidiu criar igualmente uma competição com a mesma filosofia. O seu grande sucesso foi a capacidade de atrair com regularidade equipas amadoras inglesas bem como mais representantes dos vizinhos países da França e Alemanha. O Union St. Gilloise estreou-se em 1902. Era a sua primeira participação num torneio internacional. Caiu na primeira ronda. Na época seguinte a equipa caiu na final contra o Leopold FC e depois do hiato de um ano (em que a equipa venceu a Challenge du Nord pela primeira vez) o St. Gilloise conquistou o von Ponthoz pela primeira vez, reeditando o duelo com o Leopold FC mas agora a seu favor. A final repetiu-se no ano seguinte, de novo com a vitória a sorrir aos “Unionists” e em 1907, o último ano da competição, o clube de Bruxelas bateu os ingleses do FC Pilgrim na final confirmando o tricampeonato histórico. Em duas temporadas tinham vencido todas as competições em que tinham participado (liga belga, Challenge du Nord e von Ponthoz).

Ao torneio von Phontoz sucedeu a competição Jean Deupich. Em 1914, pouco antes da Europa mergulhar numa guerra fraticida sem sentido, o Union St. Gilloise devolveu o orgulho aos seus adeptos ao conquistar a competição de forma autoritária.

Foi o quarto titulo internacional de um clube que parecia intratável em casa. O clube era unanimemente considerado como uma das máximas refer*encias do futebol mundial. Quando a FIFA formalizou o seu nascimento foi agendado um encontro de comemoração. Por um lado a seleção de França. Por outro o Union St. Gilloise. Era a confirmação tácita e simbólica da sua relevância no futebol do pré-I Guerra Mundial.

A Union 60, os três anos de invencibilidade

Depois do hiato da temporada 1907-1908, o Union St. Gilloise repetiu o triunfo no campeonato em 1909, 1910 e 1913 aos que juntou a Taça da Bélgica em 1912 e 1914.

A guerra, como sucedeu com todo o futebol na zona ocidental da Europa, roubou ao clube os seus melhores anos e os mais espetaculares dos seus jogadores. Se até ao inicio da I Guerra Mundial o clube nunca tinha estado fora do pódio do futebol belga, a vida no pós-guerra não começou de maneira diferente. O Union St. Gilloise terminou em segundo lugar de forma consecutiva durante quatro temporadas até que em 1922 voltou a conquistar o titulo de campeão belga. O progressivo desaparecimento das provas de clubes ocidentais com o pós-guerra – entre o fim do torneio Jean Deupich e a Taça Latina passaram praticamente três longas décadas – a importância do Union St. GIlloise a nivel continental foi-se reduzindo. Ainda assim o clube continuava a sua lenda dentro de portas.

Campeões em 1933, o clube iniciou um ciclo de sessenta jogos sem conhecer derrota que lhe valeram o último tricampeonato da sua história. Uma equipa formidável que se encontrava entre as melhores da história e que passou para a posteridade como o Union 60. Depois veio a decadência. Em Bruxelas o Anderlecht começava a ocupar o seu espaço de liderança e o futebol do país abriu-se progressivamente a outras cidades dando inicio ás histórias de sucesso de clubes como o Standard Liege, Gent, Club Brugges, RC Malines ou Royal Antwerp. O St. Gilloise voltou às noites europeias nos anos 50 ao representar a Bélgica na recém-criada Taça das CIdades com Feiras. A eliminatória contra o todo poderoso AS Roma no modesto estádio Joseph Marien – para onde a equipa se tinha mudado nos anos vinte – entrou para os anais da história do clube como o último grito de glória.

De rei da Europa a anónimo regional

Em 1963 o Union St. Gilloise foi, finalmente, despromovido. Tinha passado mais de meio século entra a elite do futebol belga. Á época era, ainda, o clube com mais títulos conquistados na história do país. Promovido na temporada seguinte durou pouco a ilusão aos adeptos.

Em 1980 o clube tinha caído nos campeonatos regionais de onde demorou décadas em sair. No inicio do século XXI, um século depois das suas gestas,  o primeiro gigante do futebol ocidental instalou-se comodamente na terceira divisão do seu país, num regime de semi-profissionalismo mais parecido às suas origens do que às exigências do futebol moderno. Como grandes emblemas dos anos da adolescência do futebol europeu, o destino do Union St. Gilloise parece ser o de ser esquecido pelas gerações actuais.

Mas os seus anos de glória estão escritos com letras de ouro na história do futebol e durante alguns anos os seus adeptos puderam dizer, orgulhosos, que as cores do seu emblema representavam um dos mais influentes clubes do futebol europeu.

 

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