Um mesmo clube, dois protagonistas da mesma final. Em 1980 o futebol espanhol viveu o momento mais insólito da sua história. A final da Copa del Rey foi disputada pelo Real Madrid…contra o Real Madrid. Aproveitando um hiato nos regulamentos, a equipa filial do clube participou no torneio e conseguiu chegar até à final, carimbando o passaporte inclusive para participar na Taça das Taças do ano seguinte. Uma final exclusivamente madridista que nunca mais se poderá repetir.

Real Madrid vs Real Madrid

Cenário, Santiago Bernabeu. De um lado, o Real Madrid. Do outro lado, o Real Madrid.

Pode parecer anedótico, mas não é. Na casa do clube mais titulado do futebol espanhol, a 4 de Junho de 1980, disputou-se a única final da história das taças entre um clube e a sua filial. Um feito inédito e que deixou o futebol espanhol em quase estado de shock. No torneio mais antigo do país – a Copa é bastante anterior à Liga – mediam-se mestres e alunos como iguais. Ninguém esperava que esse cenário fosse possível quando a bola começou a rolar em Setembro. O Castilla – nome oficial do clube que funcionava como filial dos merengues e militava na segunda divisão, onde rodavam as jovens promessas do clube “blanco” – tinha previsto participar no torneio porque, oficialmente, não havia nenhum laço oficial que o impedisse. As filiais funcionavam não como equipas B – como sucede atualmente – mas como clubes dependentes da casa mãe em todos os sentidos menos no institucional. Por isso podiam inscrever-se nas mesmas competições sem que existisse qualquer tipo de restrição.

O Castilla não era o único filial presente no torneio mas nada, nem ninguém, podia prever a sua exitosa campanha. Oficializados em 1971 apenas – quando o clube Deportiva Plus Ultra, onde o Real enviava habitualmente jovens promessas, entrou em falência, sendo adquiridos pelo Real Madrid a instâncias do próprio Bernabeu – tinham de participar desde a primeira eliminatória ao contrario do Real Madrid, isento até aos oitavos de final do torneio pelo seu estatuto de cabeça-de-serie. Os homens treinados por Vujadin Boskov eliminaram sem grandes problemas ao Logroñes e Bétis para depois superar o seu vizinho de Madrid, o Atlético, numa dura meia-final apenas decidida desde o ponto de grandes penalidades. A presença na final, aliada ao título conquistado, parecia coroar um ano inesquecível para a instituição. O que ninguém pensava era que o jogo mais importante do ano tivesse quase contornos de jogo de treino entre as estrelas da primeira equipa e os jovens que aspiravam a suceder-les.

A saga do Castilla

A campanha do Castilla Club de Fútbol começou com duelos contra equipas da mesma divisão. Os triunfos sobre o Extremadura, Alcorcon e Racing de Santander não podiam ser, portanto, consideradas como grandes surpresas. Tudo começou a mudar quando o clube alcançou os dezasseis avos de final e passou a cruzar-se com rivais do primeiro escalão. Os jogos passaram a ser disputados no próprio Santiago Bernabeu – estádio que acabaria por acolher igualmente a final – e depois de eliminar o Hércules, com uma reviravolta histórica, os pequenos aprendizes treinados por Juanjo conseguiram a inesperada proeza de bater, sucessivamente, o Atheltic Bilbao e a Real Sociedad, precisamente os dois clubes que iam dominar a liga nos quatro anos seguintes. A equipa do Castilla não tinha estrelas precoces e entre os nomes emergentes que mais soavam para o plantel principal estava o de Ricardo Gallego. Faltavam ainda quatro anos para que na mesma equipa começassem a despontar os jovens adolescentes que fizeram parte da célebre “Quinta del Buitre” com Butrageño, Michel, Martin Vasquez, Pardeza e Sanchis à cabeça. Por essa altura eram todos ainda juvenis. A grande gesta do Castilla ocorreu numa fantástica meia-final medida contra uma das grandes potencias do futebol espanhol à época, o Sporting Gijon.

Os asturianos ganharam por 2-0 o jogo em casa, na primeira mão, e poucos davam qualquer opção aos jogadores do Castilla, mesmo contando com o fator casa. Mas com um Bernabeu a abarrotar, como se fosse para presenciar uma final da equipa principal, o Castilla superou todos os prognósticos e venceu por um contundente 4-1 que lhes permitiu o impossível, alcançar a sua primeira e única final da Copa del Rey. Houve logo quem contestasse a validez do jogo decisivo e que reclamasse uma alteração imediata aos estatutos que permitiam aos filiais competir no mesmo torneio que o clube-mãe. Nada podiam fazer no entanto para evitar o inesperado espetáculo num final de tarde solarengo de Junho quando vinte e dois jogadores do Real Madrid, divididos entre as duas equipas, subiram ao relvado do seu próprio estádio para disputar a final mais importante do futebol espanhol.

Ganhar um Copa del Rey a si mesmo

O jogo em si foi um esperado monólogo. Nos dias anteriores à final começou a gerar-se um burburinho de apoio generalizado ao pequeno Castilla mas nada nem ninguém imaginava, realmente, que os futebolistas de reservas e as jovens promessas da formação fossem capazes de fazer sombra a uma equipa onde atuavam estrelas como Laurie Cunningham, Santillana, Juanito, Stielike, Camacho, Pirri, Benito e Vicente del Bosque, o atual selecionador espanhol. Mais de 65 mil adeptos marcaram presença no estádio – que estava em processo de remodelamento para receber, dois anos depois, o Mundial de 1982 – para assistir a um espetáculo desigual.

O Real Madrid jogou de branco, como lhe correspondia, e de roxo equipou o Castilla. A final ficou resolvida na primeira parte, a pesar dos jogadores do Castilla, num arraigo de valor, terem tentado dar o melhor de si para adiar o inevitável. Juanito e Santillana marcaram os primeiros golos e abriram caminho para a goleada que se seguiria na segunda parte. Sabido, del Bosque, Garcia Hernandez e o próprio Juanito voltaram a marcar ainda que o grande momento de entusiasmo acabou por se viver quando Ricardo Alvarez, médio do Castilla, anotou o tento de honra da equipa filial a dez minutos do fim. Foi um golo que valeu um título emocional e a pesar da goleada sofrida a festa no fim foi partilhada por ambas equipas.

Os sonhos das noites Europeias de uma filial

Como consequência desta inédita final o Castilla teria ainda direito a viver mais um capitulo de glória. O titulo conquistado, dias antes, pelo Real Madrid, abria-lhes as portas a participar na Taça das Taças. Seriam o único clube filial a lográ-lo na história das competições europeias. A malapata ditou um duelo na ronda inaugural do torneio contra o detentor do troféu, o West Ham United que ainda sofreu uma inesperada derrota no Bernabeu – 3-1 para o Castilla – antes de se desforrar em Upton Park com um claro 5-1 a favor que sentenciou a eliminatória.

O Castilla não voltaria a uma grande final e poucos anos depois a Federação Espanhola oficializou a decisão de impedir os clubes filiais a participar nos mesmos torneios onde estivessem envolvidos os clubes-mãe, pelo que não só não podiam disputar a Copa del Rey como também estavam proibidos de militar na mesma divisão na liga que o clube principal. Até hoje mais nenhum clube filial pode presumir de ter alcançado a final da Taça do seu respectivo país e muito menos ter sido derrotado apenas e só pelo clube de quem dependia.

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  • Dinis Azevedo

    Bela História. Mas curiosamente pode voltar a ter destas coisas em competições internacionais, já que hoje existem empresas que são donas de vários clubes pelo mundo. Como a City Football Group que detém 4 clubes em 4 continentes, a Red Bull que salvo erro também é dona de pelo menos meia dúzia de clubes e o empresário Gino Pozzo que é dono de 3 clubes. Não será de estranhar que dentro de alguns anos uma final intercontinental seja disputadas por duas filias da mesma empresa.