Resulta curioso que o clube mais titulado a nível europeu e a nível nacional, em Espanha, seja também um dos clubes que mais tempo passou sem lograr a histórica dobradinha do título nacional com o triunfo na Champions League. Desde 1958 que o Real Madrid não sabia o que é levantar os dois máximos troféus numa mesma época, reflexo da mentalidade do clube e da sua gestão paradoxal e também de como o resto do mundo do futebol evoluiu numa direcção oposta à dos merengues.

Seis décadas a ver os rivais a celebrar

Em 2014-15 os adeptos do Barcelona sairam à rua para celebrar três vezes no espaço de duas semanas a conquista de todos os troféus de final de temporada, o mítico “Triplete” que juntava o campeonato de Liga, a Copa del Rey e a Champions League. Era um feito brilhante que no entanto parecia ter-se transformado em algo habitual. Apenas seis anos antes, pela mão de Pep Guardiola, o clube tinha feito algo mais brilhante ainda, celebrando o “Sextete”, ou seja, a consecução de todos os títulos disputados num ano natural, incluindo as duas Supertaças – nacional e europeia – e o Mundial de Clubes, um feito que está ainda por igualar. Não foi só o Barça, no entanto, o único grande clube a lograr conquistar Liga e Champions League ou, em defeito, a sua anterior encarnação, a Taça dos Campeões Europeus. Em 2013 o Bayern de Munich celebrou o título nacional com o ceptro europeu conquistado, ainda para mais, contra um rival alemão, o Borussia Dortmund. Em 2011 e 2009 foi o Barcelona quem logrou o feito tal como 2010 o Inter de José Mourinho. Em 2008 o Manchester United de Alex Ferguson venceu liga e Champions League, cenário repetido em 2006 pelo Barcelona de Rijkaard, em 2004 pelo FC Porto de Mourinho, em 2001 pelo Bayern de Hitzfeld e em 1999 pelo Manchester United – que juntou também o triunfo da FA Cup à festa. Desde o virar de milénio o feito de vencer os dois máximos troféus foi alcançado em dez ocasiões. Nenhuma delas pelo Real Madrid. A equipa merengue venceu a Champions League de 2016 e 2014 mas em ambos casos ficou a uma vitória do título nacional. Em 2002, 2000 e 1998, os seus outros três triunfos no novo modelo da competição, a posição no campeonato nacional também deixou algo que desejar. Cardiff foi a excepção. Antes, é preciso recuar até 1958, há quase sessenta anos, para resgatar o último “Doblete” de um clube que ganhou mais títulos do que qualquer outro com a curiosidade de que quase nunca os conquistou no mesmo ano.

A história do primeiro Doblete

Se é certo que os homens de branco da Castellana são a grande potência europeia com menos “dobletes” históricos e aqueles que estão há mais tempo sem conquistar a “dobradinha”, não deixa igualmente de ser verdade que no início da Taça dos Campeões Europeus pareciam destinados a compaginar desde cedo a hegemonia nas duas competições. Vencedores da liga em 1954-55, os merengues foram convidados por Gabriel Hanot para participar na primeira edição do torneio continental uma vez que ser campeões nacionais não era o critério comum.

O papel fundamental de Raimundo Saporta e Santiago Bernabeu na organização do torneio valeu-lhes o bilhete de entrada em detrimento de um Barcelona que era, sem dúvida, a mais forte e popular equipa espanhola desse tempo graças sobretudo à sua conexão húngara, onde destacava o génio indiscutível de Ladislav Kubala. O facto do Barça ter preferido apostar as fichas noutro torneio continental – a Taça das Cidades com Feiras que venceu, nas suas duas primeiras edições bi-anuais – facilitou a ascensão do seu eterno rival. Os merengues venceram o troféu europeu no seu ano de estreia, em Paris contra o Stade de Reims, mas perderam o campeonato nacional não para o Barcelona e sim para um surpreendente Athletic Bilbao. Como o regulamento da Taça dos Campeões Europeus contemplava uma vaga para a época seguinte para o detentor do troféu, o clube pode disputar a seguinte edição que também levou para casa ao vencer, em casa, a Fiorentina na final.

Nesse ano sim, por primeira vez, os merengues juntaram o ceptro continental ao nacional ao triunfarem de forma categórica no campeonato nacional espanhol de tal forma que para a seguinte temporada a UEFA teve de permitir ao segundo classificado da liga espanhola a entrada na Taça dos Campeões Europeus, neste caso o Sevilla. Foi nesse memorável ano de 1957-58 que o plantel do Real Madrid fez história pela penúltima vez vencendo os dois grandes troféus em disputa, um feito que demoraram seis décadas a repetir.

Da derrota em Sevilla ao sprint final pela Liga

A temporada 57-58 começou a 15 de Setembro com  um duelo no Chamartin frente ao Osassuna. Os homens treinados por Luca Carniglia, o técnico argentino recrutado ao Nice, venceram por um claro 3-0 com golos de Mateos, Kopa e Rial, utilizando aquele que seria o onze tipo da época com Dominguez na baliza, Atienza, Santamaria, Lesmes na defesa e um meio-campo onde Muñoz (e mais tarde Santisteban) e Zarraga recebiam frequentemente a companhia de Alfredo di Stefano, o pilar do grupo. O ataque estava entregue ao quartero Kopa, Rial, Mateos e Gento sempre com o argentino a surgir como quinto elemento num desenho que oscilava entre o clássico WM e o 3-3-4. Quinze dias depois uma goleada categórica por 6-0 frente ao Sevilla, que tinha terminado o torneio anterior no segundo lugar, deixava claro que a superioridade merengue se mantinha incontestada. Não era da Andaluzia no entanto que vinha o perigo neste ano onde o vizinho madrilenho, o Atlético, surgia como o grande candidato a lutar pelo título com os campeões, num pulso que se manteve até à penúltima jornada da prova. O empate a zero 22 de Dezembro entre as duas equipas manteve os “colchoneros” na liderança já que as derrotas do Real em Vigo e Gijón e os empates em Valência e Las Palmas pareciam pesar na tabela classificativa. Uma tendência que se repetiria em anos depois. Ao mesmo tempo que a equipa se passeava na Europa, tropeçava em casa nos locais mais inesperados. No final de 1957 o Real Madrid já tinha deixado pelo caminho no torneio continental o Royal Antwerp nos oitavos-de-final com dois triunfos categóricos e preparava-se para enfrentar nos quartos-de-final ao Sevilla num duelo espanhol.

O jogo da primeira mão foi disputado a 23 de Janeiro em Madrid. Uma semana antes os andaluzes tinham vencido de forma surpreendente por 3-2 os merengues no Sanches Pizjuan graças a um grande jogo de Arza. O resultado tinha dado esperanças aos sevilhistas para o duelo continental e à medida que ambas as equipas viajavam juntos de comboio para Madrid, os futebolistas do Sevilla reforçavam o seu optimismo diante de uns jogadores rivais de caras largas. Foi aí que Di Stefano, fazendo justiça do seu espírito, convocou uma reunião de balneário para alimentar um sentimento de desforra, uma “conjura” que se tornou comum nos momentos futuros de crise do clube. A finais de Janeiro o Real Madrid estava a três encontros de provavelmente dizer adeus aos titulos na temporada mas foi aí que o clube demonstrou todo o seu potencial. Os blancos trucidaram o Sevilla por 8-0 em casa diante de 120 mil adeptos com quatro golos de Di Stefano. Um mês depois, um empate a dois no jogo da segunda mão foi suficiente para selar o apuramento. Pelo meio o clube recuperou a liderança na liga, muito graças a um triunfo histórico no primeiro jogo oficial disputado pelos merengues em Camp Nou, e lançou-se para o sprint final na corrida pelo título. A 27 de Abril, na penúltima jornada, o Atlético tinha de vencer para recuperar a liderança mas o empate a um golo – anotado por Rial – foi suficiente. O Real mantinha o título e podia concentrar-se na sua terceira final europeia seguida, a que chegou depois de eliminar o Vasas húngaro nas meias-finais de forma categórica.

Reis de Espanha, Imperadores da Europa

A final da terceira edição da Taça dos Campeões Europeus disputou-se a 28 de Maio em Bruxelas. Em frente o AC Milan, um surpreendente finalista que alcançou o jogo decisivo depois do desastre de Munique que custou a vida a grande parte do plantel do Manchester United, a quem todos davam por finalista antecipado. Ainda assim o Milan era uma das grandes potências continentais, com uma defesa de ferro alimentada pelo espirito espartano de Giuseppe “Gippo” Vianni, um dos pais do catenaccio, e com um plus de qualidade chegado dos países nórdicos graças ao génio do tridente conhecido como Gre-No-Li, ou seja, Green, Nordhall e Liedlhom, os três internacionais suecos que brilhavam com nome próprio na Serie A. O tenso final de época que obrigou o Real Madrid a suar a camisola até ao fim passou factura e a equipa chegou à capital belga sem reservas físicas. Na habitual discussão antes do jogo decisivo, Di Stefano abordou o jovem Paco Gento, uma gazela como o futebol nunca conheceu, e disse-lhe claramente que num onze de veteranos como ele próprio, ele era o único com capacidade física para aguentar a exigência de uma final europeia na máxima condição, pelo que tinha de ser ele a salvar o colectivo fazendo uso da sua velocidade. Todos os restantes elementos tinham chegado à final destroçados, particularmente Kopa e Rial, os parceiros de ataque de Gento.

O duelo entre italianos e espanhóis foi tenso e muito táctico, um verdadeiro jogo de xadrez tal como a final frente à Fiorentina no ano anterior. Mas onde os Viola apenas pareciam interessados em defender, o Milan demonstrava saber atacar e até à hora de jogo Dominguez foi testado muito mais vezes do que Soldan, o guarda-redes rossonero. Foi precisamente aos 59 minutos que o italo-argentino Schiaffino abriu o marcador para os milaneses com um golo oportuno que podia perfeitamente ter sido o único da noite não fosse o Real Madrid capaz de sacar forças onde não as tinha para uma última meia hora inesquecível. Di Stefano – ele que marcou nas cinco finais consecutivas do clube na década de cinquenta – empatou ao minuto 74 e quando Grillo, outro italo-argentino, voltou a colocar o Milan à frente, montou a jogada para Rial empatar. Faltavam cinco minutos e ambos colectivos declararam trégua até ao prolongamento. Foi aí que Gento cumpriu a promessa feita na véspera ao seu colega e líder espiritual de balneário e se dedicou a destroçar uma defesa italiana já exausta. Dos seus pés nasceu, ao minuto 107, o golo que daria o título aos espanhóis, muito inferiores durante todo o jogo mas muito superiores em espirito competitivo. Di Stefano, reconhecedor da superioridade do rival, colocou o troféus aos pés de Liedholm, mas o certo é que foi no avião de regresso a Madrid que a Taça dos Campeões Europeus voou para ser celebrada com o título de liga conquistado quinze dias antes de forma oficial frente ao Real Zaragoza.

A esse Real só faltou a terceira taça do ano, perdida um mês depois em casa, frente ao Athletic Bilbao, um triplete ainda hoje por conquistar para o clube merengue. Nas décadas seguintes a equipa seria incapaz de repetir o feito. Os dois anos seguintes foram marcados pelo renascimento do Barcelona da mão de Helenio Herrera, bicampeão espanhol mas perene derrotado na maior competição continental. Em 1966 o Real Madrid venceu o torneio europeu com uma equipa só de jogadores da casa mas perdeu a liga para o Atlético de Madrid. Foi preciso esperar a 1998 para os merengues voltarem a celebrar o título continental mas esse ano, tal como o de 2000, ficou marcado por uma debacle interna com troca de treinador e o ano salvo pelo título europeu. Em 2002 nem os Galácticos foram capazes de reverter a tendência, ganhando a final de Glasgow mas perdendo a liga para o Valência de Rafa Benitez enquanto que no ciclo actual de dois títulos, o de 2014 e 2016, o Real viu como o Atlético primeiro e o Barça depois festejaram o campeonato nacional. Para a maioria dos adeptos, o Real transformou-se com o tempo num clube demasiado focado nas grandes noites europeias para dispender esforços com os jogos nacionais e isso tem impedido o clube de se manter activo em ambas frentes.

Ao contrário da maioria dos rivais que começam a temporada com o título nacional como objectivo, o alvo prioritário do Real Madrid em cada ano é sempre o título continental. Os 12 que já soma são prova desse ADN que deixou a liga para um segundo plano. Não é casualidade que só desde que voltou a vencer na Europa – em 1998 – o Real Madrid tenha apenas conquistado seis campeonatos nacionais, tantos quanto os títulos europeus nesse período e três menos que o FC Barcelona que nesse ciclo soma igualmente quatro títulos continentais.  O sonho de uma terceira dobradinha finalmente fez-se realidade em Cardiff mas o ADN do Real Madrid é cada vez mais focado no êxito continental.

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