Em 2007 os habitantes da minúscula ilha de Tuvalu fizeram história. Apesar da derrota por 16-0, tornaram-se na primeira seleção não reconhecida pela FIFA a disputar um jogo oficial de apuramento para o Mundial de futebol. Desde então uma campanha online tem procurado recolher assinaturas suficientes para dar à seleção de Tuvalu um direito que só o máximo organismo do futebol lhe nega.

O sonho de uma ilha minúscula do Pacífico

O jogo não acabou bem. Mas era o resultado era o menos importante.

16-0 a favor das Ilhas Fiji, uma derrota estrondosa mas significante. Foi assim que começou a participação da modesta equipa nacional de Tuvalu nos Jogos do Pacífico Sul. Uma competição com um valor especial nessa edição. Por iniciativa da Confederação da Oceânia, a prova funcionaria como a primeira ronda de eliminatórias para ocupar a vaga do play-off de apuramento para o Mundial de 2010, na África do Sul. Dez nações competiriam por três lugares na fase final onde já se encontrava a Nova Zelândia. Nove delas eram membros reconhecidos da FIFA. Um deles não. Tuvalu.

Com 11.500 habitantes, a pequena ilha a meio caminho entre a imensa Austrália e o arquipélago do Hawai, é o terceiro estado mais pequeno do Mundo. Só a cidade-estado do Vaticano, no coração de Roma, e a minúscula ilha de Nauru, também no Pacifico, são mais pequenas que Tuvalu. Mas nenhuma das duas tem uma seleção de futebol. Em Nauru o único desporto que se pratica habitualmente é o rugby. No Vaticano, salvo o célebre torneio Clericus, não há espaço para mais do que as orações diárias. Mas em Funafuti, a capital da ilha, as bolas de futebol são parte da cultura. Ocupada durante séculos pelos holandeses primeiro, e pelos ingleses depois, os tuvalenhos herdaram o gosto dos europeus pelo beautiful game. Independentes em 1974, candidataram-se rapidamente a fazer parte da Confederação de Futebol da Oceânia (OFC). Foram recebidos quatro anos depois e em 1979 o país disputou pela primeira vez um torneio continental, os Jogos do Pacífico do Sul. Acabaram em último. Era o que menos importava.

A negativa constante da FIFA

Durante os vinte e cinco anos seguintes o reconhecimento oficial da FIFA transformou-se na grande luta de Tuvalu. Vários estados do Pacífico receberam o estatuto oficial de membros da FIFA. Mas a Tuvalu, apesar da sua reconhecida experiência e paixão pelo jogo, o mesmo era negado vezes sem conta. Uma realidade que não era exclusivo seu. As vizinhas ilhas de Kiribati e Nieu passaram pelo mesmo purgatório. Mas nenhuma delas levou a luta tão longe. O país investiu bastante em infra-estruturas desportivas nos últimos anos, um estádio nacional de 1500 pessoas e vários campos de treino para os mais novos. Sem os fundos da FIFA era difícil fazer mais.

Em 2006 a OFC anunciou que o habitual torneio dos Jogos do Pacífico Sul seriam a fase preliminar da sua zona de apuramento para o Mundial. Para Tuvalu era a oportunidade única de mostrar o seu valor. A seleção, orientada por Tuakai Puapua, um dos primeiros internacionais do país, era composta exclusivamente por jogadores locais. Derrotados claramente pelas ilhas Fiji no primeiro jogo oficial da sua candidatura ao Mundial de 2016, os tuvalenhos perderam o segundo jogo por apenas 1-0 contra a Nova Caledónia. Dois dias depois, a 29 de Agosto, fizeram história.

Jogando diante de pouco mais que 200 pessoas – o torneio disputou-se nas ilhas Salomão – os insulares conseguiram um empate histórico a uma bola contra a seleção do Tahiti. A mesma que, anos depois, participaria na Taça das Confederações da FIFA depois de vencer o torneio oficial da OFC. Foi um resultado memorável que garantiu que a seleção acabaria em último lugar na fase de grupos mas com um ponto. O primeiro da sua história. O evento foi celebrado no país como se de uma vitória se tratasse. Semanas depois o primeiro-ministro do país – Apisai Ielemia – e o presidente da federação local viajaram até Zurique para procurarem convencer pessoalmente a FIFA a aceitar a sua candidatura. Voltaram a receber um não por resposta mas a notícia atraiu o interesse de um jovem holandês chamado Paul Driessen. Apaixonado pelo Pacifico, o jovem adepto do VVV Venlo contactou com os dirigentes desportivos do país. Tinha um plano para colocar Tuvalu no mapa.

Uma campanha de marketing para por Tuvalu no mapa

Tuvalu tinha-se tornado na mais pequena nação a disputar um apuramento para um Mundial de futebol. E tinha-o feito sem ser um membro da FIFA. Agora o importante era poder repetir a experiência. Para isso Driessen viajou até à ilha, preparando um plano de ataque com a federação local. Uma federação que não tinha, em 2007, nem sequer uma página web ou correio electrónico próprio.

Driessen criou um site online para recolher assinaturas com o objectivo de pressionar a FIFA a reconsiderar. Paralelamente desenvolveu uma campanha de marketing com venda de camisolas, equipamentos e produtos típicos da ilha com o dinheiro a reverter exclusivamente para melhorar as infra-estruturas desportivas do país e dotar a federação de recursos suficientes para persuadir a FIFA a aceitar a sua candidatura. Durante seis anos a missão de Driessen tem alertado para a situação de pequenos países como Tuvalu. Graças à sua intermediação, os últimos dois selecionadores do país foram treinadores holandeses que aceitaram o desafio de dotar os jogadores locais de conhecimentos técnicos e tácticos suficientes para melhorarem os seus resultados em campo. Foi uma verdadeira revolução para o futebol da região. O primeiro jogo da nova era terminou com uma convincente vitória por 3-0 contra os rivais das ilhas Samoa. Dias depois a seleção de Tuvalu fez melhor ainda, batendo por 4-0 a seleção da Samoa Americana. Foi a melhor sequência de resultados da história do país. O trabalho com a nova Fundação de Apoio, sediada na Holanda, continuou nos anos seguintes em 2012 a seleção nacional realizou um estágio de dois meses no país com o apoio da federação holandesa, disputando mais de vinte jogos amigáveis.

A estância deu os seus frutos. Dois dos jovens jogadores da seleção ficaram na Holanda a treinar com o Heerenvan e cinco mais acabaram por assinar contratos com equipas semi-profissionais da Nova Zelândia. Atualmente há mais de 1200 jogadores registados na federação, dez por cento da população total do país. Uma liga amadora foi criada com os jogos a serem disputados exclusivamente no estádio nacional. As modestas bancadas estão sempre repletas de entusiastas. Só falta o último passo. O ok da FIFA. O golo mais importante da história de uma nação que, por ser pequena, não deixa de sonhar em grande.

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