Friedenreich, Pelé e Romário. Três históricos avançados brasileiros, três reclamados autores de mais de mil golos. Os números são difíceis de explicar – inventados no caso do primeiro, incluindo jogos não registados no segundo e exagerados no terceiro – desde um ponto de vista estatístico mas a lenda do futebol brasileiro não abdica de reconhecer esse trio de ases. Um trio que não está só. Túlio Maravilha também reclama pertencer ao grupo, o dos brasileiros com 1000 golos.

Os Brasileiros dos 1000 golos

Nas listas oficiais de goleadores Pelé reina supremo no Brasil com os seus 1284. Entre esses golos há muitos que vivem na suspeita dos analistas, ora porque foram obtidos em amigáveis dos quais não há qualquer registo fidedigno ora porque geram-se dúvidas nos próprios relatos, imagens e registos de imprensa sobre a genuína autoria de vários golos. Para não falar, naturalmente, do estudo publicado nesta página sobre o grau de exigência desses tantos, quase metade (527) conseguidos em jogos amigáveis e não oficiais. A mesma dúvida – já assumida pela esmagadora maioria dos historiadores – ressoava nos inflacionado 1329 golos de Arthur Friedenreich, números de que os próprios brasileiros sempre renegaram. Nada saberá, realmente, quantos golos marcou o primeiro grande avançado do futebol canarinho.

A completar essa lista milenar surge a única figura do futebol moderno, Romário de Sousa. O “Baixinho” conseguiu o seu registo entre o futebol sul-americano e o europeu (o único dos três que foi alvo do escrutínio estatístico europeu) mas também no seu caso parecem ter sido incluídos na lista golos – tal como passou com Pelé – anotados como júnior, jogos nas reservas e encontros de cariz não oficial. Como não fosse suficiente há outro jogador brasileiro que reclama pertencer a uma lista onde também encontramos jogadores como Josef Bican, Ferenc Puskas ou Gerd Muller. Um futebolista que se auto-catalogou de “Maravilha” e que faz parte intrínseca desse folclore emocional que o futebol canarinho.

O discípulo de Scolari

Túlio estreou-se como profissional com 18 anos ao serviço do Góias, então treinador por Luis Filipe Scolari. A sua ascensão foi meteórica. Dois anos depois foi consagrado como melhor marcador do Brasileirão – a primeira de três ocasiões que recebeu a distinção, igualando o recorde de Bebeto e Dadá Maravilha – e levou o Goiás até à final da Copa do Brasil, perdida com o Flamengo. Rápido, ágil e com faro de golo, transformou-se numa das grandes sensações do futebol canarinho o que inevitavelmente chamou a atenção dos europeus. Um fundo de empresários adquiriu o passe ao Goiás e enviou-o para a Suíça onde assinou pelo Sion, levando o clube ao seu primeiro título e a um brilharete na Europa. Aí começou a polemica com os seus números. Segundo Túlio, nos dois anos que viveu à sombra dos Alpes, marcou 64 golos. Só existem registos oficiais de 19.
Regressado ao Brasil, com a camisola do Botafogo, recuperou o seu apetite goleador e começou a auto-apelidar-se de Túlio Maravilha, dando forma a um cântico que ganhava forma nas bancadas do Maracanã. Foi o seu apogeu. Melhor marcador de novo em 1994 e 1995, o último dos quais com título de campeão nacional incluído, e um regresso à seleção para disputar o seu primeiro torneio oficial, a Copa América de 1995. Contra clamor popular Túlio – que se estreou pelo Brasil em 1990 – não tinha formado parte da lista para o Mundial de Estados Unidos, um ano antes, mas depois de dez jogos amigáveis, finalmente confirmou as boas sensações com uma notável exibição no torneio continental, selado com um golo de antologia contra a Argentina. O que prometia ser um futuro brilhante numa seleção que contava com avançados do nível de Romário, Ronaldo, Edmundo, Bebeto ou Muller acabou por transformar-se num conto de final infeliz. Poucos meses depois da Copa América, o avançado disputou o seu último jogo pelo Brasil.

A obsessão do golo 1000

Nos dez anos seguintes Túlio limitou-se a fazer o que melhor sabia, marcar golos. De todas as formas e feitios e com varias equipas. Teve varias passagens pelo Botafogo, jogou pelo Corinthians, Vitória, Fluminense, Cruzeiro, São Caetano ou Vila Nova. Em 2002 provou de novo o futebol europeu, o Ujpest húngaro e em 2004 viajou até à Bolívia onde representou o Jorge Wilstermann. Terminou a carreira com quase tantos clubes como golos, um total de trinta e três entre o Goiás de 1987 e o Araxá de 2014. Foi o melhor marcador da Serie B e Serie C do Brasil, o único jogador da história a lograr ser Bota de Ouro nas três divisões competitivas. E claro, os golos em todas as divisões iam engrossando a sua lista. Túlio contou todos os tantos anotados, desde as profundezas das mais obscuras divisões regionais até aos jogos disputados pela seleção carioca.

O importante era chegar ao ansiado golo 1000, independentemente da veracidade dos números ou do grau de dificuldade. O ansiado golo milenar chegou em 2013 com o desconhecido Araxá, num jogo da segunda divisão do campeonato estadual mineiro contra o igualmente anónimo Mamoré. Como sucedeu com Pelé o golo foi anotado desde a marca de grande penalidade. Houve invasão de campo e noticia na imprensa mas o resto do mundo não parecia demasiado interessado em entrar em comparações entre Túlio e Puskas. O avançado, no entanto, assumiu que o seu objectivo estava cumprido e poucas semanas depois retirou-se do futebol para enveredar pela política. Nas suas contas particulares – não oficializadas por nenhum orgão – Túlio pertence a esse grupo de elite.

Na prática o seu registo, como o de Pelé e Romário, é apenas mais uma hábil manobra de marketing que procura criar a lenda dos goleadores milenares num universo onde tudo vale para sonhar com ser algo mais que um ilustre desconhecido.

1.538 / Por
  • Pedro Lucas

    Caro Miguel,

    Sem querer, de forma alguma querer corrigir o texto, penso que é necessário referir que alguns dos 1000 golos marcados pelo Túlio, foram conseguidos ao serviço da equipa de sub 23 do Botafogo, quando o ponta de lança já ia bem entrado na casa dos 40. De todos os mitos dos 1000 golos, o Túlio foi o mais “a martelo”.

    Abraço