Poucas vezes a realidade e ficção se confundiram de forma tão evidente. Maxym Tsigalko é um mito como goleador no mundo virtual. A realidade foi bem diferente. O avançado bielorrusso é a prova de que nem sempre os mundos alternativos se assemelham ao dia a dia. Heróis da saga Championship Manager os seus dotes como goleador na vida real foram apenas suspiros de uma lenda perdida.

O falso mito

Se Tó Madeira era produto da mais pura ficção e Freddy Adu o resultado de uma astuta política de marketing criada pelas instituições que geriam o futebol norte-americano, a fábula de Maxym Tsigalko é totalmente distinta.

A história de sucesso virtual do dianteiro bielorrusso deve-se apenas e só a um erro de julgamento de um observador que acreditou ter visto nele o grande avançado da década seguinte. O seu engano não foi voluntário. Como tantas vezes acontece, um jogador que muito prometia, por mil e um motivos, perde-se pelo caminho. Mas foi sem dúvida o erro com maior repercussão mediática porque acabou plasmado num jogo de estratégia e gestão desportiva que prima pela quase infalível base de dados que é estudada e revista de forma minuciosa.

Durante alguns anos vários clubes e técnicos procuraram o nome de Maxym Tsigalko na realidade à procura da solução para os seus males. Nunca o encontraram. O avançado apontou apenas 53 golos como profissional em dez anos de carreira. Mas como é que Tsigalko se tornou num mito?

O goleador dos humildes

Na edição do jogo Championship Manager 2001-02, os jogadores encontraram na base de dados uma pérola de marcar golos.

Um jovem de 19 anos que despontava nas camadas jovens do Dynamo Minsk e que parecia ter capacidades goleadoras reservadas para os predestinados. Os seus registos eram invariavelmente altos fosse utilizado por clubes de primeira linha como formações de segundo plano. Jogasse onde jogasse, Tsigalko era garantia de golos, muitos golos. O seu baixo preço permitia aqueles que utilizavam clubes humildes bater-se de igual com os tubarões do futebol europeu. E ao contrário do que sucedia com Tó Madeira, desta vez os jogadores podiam pesquisar no google e encontrar um rosto que reconhecer no futuro.

Numa altura em que a popularidade do jogo começava a alcançar dimensões de culto, o nome rapidamente passou do anonimato dos ecrãs de jogador para o espaço mediático. Os treinadores e dirigentes que consultavam o jogo e a base de dados originais, por protocolo com os criados da saga Championship Manager, cientes de que os valores da esmagadora maioria dos jogadores desconhecidos dentro do jogo se aproximavam bastante à realidade, começaram a interessar-se pelo jogador. Alheio a tudo isto, Tsigalko continuava a marcar golos pela equipa júnior do Dynamo Minsk.

O seu treinador seguramente não jogava Championship Manager porque só um ano depois o começou a convocar de forma regular para a primeira equipa. Nos cinco anos seguintes, em 53 jogos, o avançado apontou 24 golos. Na realidade não tinha passado de uma promessa, como tantas outras, do futebol bielorrusso. No espaço virtual, era uma figura de contornos mitológicos.

Das Champions imaginárias à venda de janelas

As suas estatísticas eram resultado do trabalho de pesquisa do observador da productora Sports Interactive na Europa de Leste. Mais tarde soube-se que o olheiro tinha estado presente em três jogos de Tsigalko com os juniores do Dynamo Minsk e um pela seleção de sub-19 do país. Foram quatro jogos inesquecíveis do avançado que convenceram o observador que ali estava o material para o sucessor do então popular dianteiro ucraniano, Andrey Shevchenko.

O risco de tomar a parte pelo todo tornou-se claro. Os jogos não foram o reflexo real do valor de Tsigalko e à medida que a realidade ultrapassou a lenda os seus registos ficaram claros. Na edição seguinte do jogo Tsigalko ainda estava na base de dados mas os seus valores tinham sido aproximados à realidade. Mesmo assim vários jogadores procuravam comprá-lo e sonhar reeditar velhas glórias. E os clubes europeus continuaram a perguntar por ele. De tal forma que em 2004 o dianteiro chegou à Madeira para assinar pelo Maritimo de Manuel Cajuda, reconhecido utilizador do jogo como inspiração para as suas contratações.

A odisseia de Tsigalko começou antes de chegar à Madeira. O avançado teve problemas em sair do país, com um visto caducado, e nos primeiros treinos deixou evidente que a realidade era bem mais crua do que os dirigentes insulares imaginavam. Uma oportuna lesão foi o pretexto ideal para o Maritimo devolver Tsigalko ao futebol bielorruso de onde não voltou a sair até ter terminado a carreira, com apenas 28 anos, para se dedicar a vender janelas em Minsk. Um destino bem distinto daquele que os que o utilizaram para conquistar Champions League consecutivas com clubes tão anónimos seriam capazes de imaginar. Para eles a lenda continua a valer mais do que a realidade e Tsigalko é um dos mitos que o futebol não soube entender.

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