Torcida, a primeira claque da história

Enquanto as autoridades debatem o combate ao racismo como uma das grandes prioridades do futebol atual. No entanto, a primeira claque da história já tinha atingido a maioridade nessa etapa. Com nome brasileiro e sotaque eslavo, a Torcida abriu um precedente que mudou para sempre o aspecto dos estádios de futebol de todo o Mundo.

O modelo brasileiro

Nas bancadas do estádio Maracanã, um grupo de jovens croatas vivia extasiado o momento mais triste da história do futebol brasileiro. O golo de Ghighia, a pouco mais de dez minutos para o final do jogo, emudeceu o santuário de pedra sob o qual o Brasil queria construir o seu império. Foi o dia em que Barbosa fez chorar um país mas também o dia onde o imponente estádio abandonou os seus jogadores ao mais aterrador dos silêncios. Mas isso aconteceu no fim, nos momentos que desenharam o Hiroshima brasileiro, como diria depois Nélson Rodrigues. Antes, durante grande parte do encontro, o estádio foi um sambodromo, uma plateia de dança, baile e paixão. E de apoio, sobretudo de um apoio inquestionável à seleção que todos imaginavam campeã mundial. Esse grupo de jovens croatas, de Split, estavam no Brasil de férias e tinham aproveitado a ocasião para seguir o Mundial.

Tinham ficado seduzido pela forma espontânea e livre como os adeptos brasileiros animavam a sua seleção e imaginaram como seria se na sua terra natal os adeptos do seu clube, o Hadjuk Split, fizessem o mesmo.

Quatro meses depois, o mesmo grupo, já reunido em casa, encontrou-se formalmente para criar a primeira associação de apoio organizada, o que mais tarde seria, no vocabulário futebolístico  a primeira claque. Lembrando-se seguramente da sua experiência brasileira, não encontraram melhor nome para o grupo do que Torcida, a expressão brasileira para adeptos. Estava criado o mais importante precedente na história das organizações de adeptos de futebol.

Desafio ao sistema comunista

O grupo Torcida começou ativamente a apoiar o Hadjuk tanto nos jogos em casa como nas viagens que o clube realizava pela Jugoslávia, onde disputava a liga nacional contra outras equipas croatas, sérvias, bósnias, macedónias, kosovares e eslovenas. A adesão ao projeto foi tremenda. No primeiro jogo em que o grupo apareceu de forma organizada no estádio onde o Hadjuk ia disputar o título nacional, reuniram-se mais de 20 mil pessoas que transformaram por completo o ambiente do jogo com cânticos, bandeiras e coreografias organizadas previamente.

O Hadjuk bateu um dos seus históricos rivais, o Estrela Vermelha, e sagrou-se campeão invicto, um recorde histórico para o futebol jugoslava. A fama da Torcida rapidamente alcançou todos os países do Bloco de Leste.

O grupo de adeptos seguiu o Hadjuk pelo país na temporada seguinte mas a sua popularidade era mal vista pelos dirigentes do partido comunista jugoslavo, incapazes de a controlar desde dentro, apesar de terem logrado infiltrar vários dos seus agentes nos quadros da claque. Quando a Torcida se revelou demasiado rebelde e grande para dominar, as autoridades políticas passaram a adoptar medidas repressivas. Primeiro proibiram o nome, denunciando-o como uma concessão ao ocidentalismo. Vários dos seus fundadores acabaram presos e um deles, Venceslau Zuvela, foi mesmo condenado a servir vários anos de cadeia, sob a acusação de utilizar o movimento como oposição ao regime do marechal Tito.

As restrições obrigaram a claque a mudar a sua postura oficial. Continuavam a reunir-se regularmente no estádio do Hadjuk, mas sem utilizar símbolos que os identificassem abertamente. O ambiente no estádio do clube permaneceu um dos mais quentes de toda a Jugoslávia e inspirou vários movimentos, sobretudo nos clubes de Belgrado. De tal forma que, quando a legislação contra as claques foi alterada, em pleno movimento de expansão internacional dos adeptos organizados, a Torcida voltou à ribalta. Mas agora não estava só. Outros movimentos, inspirados diretamente no hooliganismo britânico, como os Bad Blue Boyes do Dinamo Zagreb ou os Tigres de Arkan, do Estrela Vermelha, tinham tomado a dianteira e transformado para sempre o rosto das claques da Europa de Leste. Ao contrário dos seus sucessores, o modelo original da Torcida distanciava-se profundamente da imagem que mais tarde a claque conquistou, quando decidiu entrar em competição directa com os seus rivais, utilizando as mesmas armas e  referências ideológicas.

Perdida no tempo ficou a imagem de um grupo de adeptos, apaixonados pelo espírito despreocupado do adepto brasileiro, que tentaram reproduzir, no Brasil da Europa, como a Jugoslávia era conhecida futebolisticamente, essa paixão fervorosa da torcida.

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  • Rui Almeida

    Artigo interessante. Teria sido também interessante, se bem que não acrescentaria nada ao tema principal do artigo, aflorar a ligação que existe entre a Torcida e os No Name Boys (claque do Benfica) e os motivos desta ligação (creio que foi um acidente na Croácia que vitimou elementos dos NN quando o Benfica defrontou o Hajduk Split na década de 1990).

    • Miguel Lourenço Pereira

      Rui,

      Obrigado. Efectivamente, a natureza do artigo está na origem histórica do grupo Torcida, como primeira claque organizada e não nas suas relações com outros grupos de adeptos organizados. Seguramente que nesse capítulo haveria, e não só na relação entre os No Name e a Torcida, material para muitas reportagens totalmente diferentes.

      • lourenço serra

        mas de onde +e que sai essa ligação entre a torcida e os NO NAME BOYS??

        • Rapaz sem nome

          a ligacao vem de um jogo para as competicoes europeias em que na viagem de volta para portugal o lider dos NN faleceu no acidente de viação.. Gullit,rita e tino faleceram nesse acidente e desde dai a torcida split e os no name boys se tornaram “irmaos”
          RIP GULLIT TINO E RITA

          • Miguel António Pinto

            Não só por isso, os NN mostraram uma tarja que dizia “FREEDOM FOR CROATIA” durante o jogo, no regresso a casa morreram, penso que em Espanha