Tor!, o futebol alemão descifrado

Como é possível que um país seja campeão mundial de futebol sem uma liga nacional e jogadores profissionais. Aconteceu em 1954 e foi o ponto culminar da curiosa história do futebol germânico. Olhado com desdém desde o principio, o “fussball” percorreu um longo caminho para se tornar num fenómeno de massas na Alemanha. Em Tor!, o historiador Ulrich Hesse-Lichtenberger explica porquê.

De influência indesejada a desporto do povo

Seria curioso ver uma versão atualizada desta obra fundamental.

O livro escrito por Hesse-Lichtenberger arranca com os primórdios do futebol alemão e termina em 2002, na ressaca da final perdida em Tóquio do Mundial 2002. Em dez anos o futebol alemão mudou tanto que talvez o próprio autor esteja a considerar um novo capitulo, onde o espaço de destaque para os filhos de emigrantes, a boa gestão dos directivos da DBF e a ascensão de um novo modelo de jogo são os protagonistas. Mas Tor! conta outra história, aquela que ainda faz parte da mitologia de que o futebol são “onze contra onze e no final ganha a Alemanha”. Uma mitologia que é mais lenda do que real (afinal os germânicos vão para o segundo período de 18 anos sem um titulo nos últimos 50) mas que se explica pela evolução do futebol no coração do gigante europeu.



Tor



Ter sobrevivido às suspeitas da nobreza e burguesia prussianas, à caça às bruxas do Partido Nazi e ao medo constante e doentio do profissionalismo é o grande mérito do futebol alemão. Mais do que as inúmeras conquistas que foi recolhendo, sempre contra o pensamento dominante no país. Afinal, se a Alemanha tem três títulos mundiais e europeus é mais como resultado da ação individual de homens que lutaram pelo futebol quando mais ninguém o estava disposto a fazer do que pelo apoio de uma nação. Sepp Herberger, Helmut Schon, Franz Beckenbauer são alguns dos heróis desta história centenar que acompanhamos desde o primeiro dia que uma bola tocou terras alemãs.

Raio-x de um país

Em Tor! não está só a biografia completa do futebol alemão até esse 2002.

Estão principalmente as razões da sua ascensão e declínio. A obra explora bem como o futebol sempre foi visto de um ponto de vista regionalista, o que provoca que, ainda hoje, não exista verdadeiramente um clube nacional, apesar da popularidade (e ódio) que gera o Bayern Munchen em todo o país. Essa dimensão regional está presente até ao arranque oficial da Bundesliga em 1964. Por essa altura o profissionalismo ainda era uma miragem e o milagre de Berna, em 1954, orquestrado por Herberger, aparenta sobre este relato ter sido precisamente isso, um verdadeiro milagre.

É com o profissionalismo definitivo que a Alemanha recupera o tempo perdido. Um país com apenas duas equipas memoráveis em 60 anos de vida (o mítico Breslau-Elf e os heróis de Berna) encontra em dois projetos paralelos e diametralmente opostos a gasolina de que acabaria por alimentar-se nas décadas seguintes. Essa “guerra” entre Munchen e Monchengladbach, a ascensão de Beckenbauer e Netzer, os titulos internacionais conquistados pela seleção e pelos principais clubes e a decadência que aparece como consequência incontrolada da reunificação com a RDA são explicados ao mais mínimo detalhe por Lichtenberger.

Tor! não é só um dos melhores livros escritos sobre a vida do futebol de um país. É um trabalho histórico e sociológico, repleto de drama e imaginação sobre a vida de um país que se envolveu como protagonista directo em guerras mundiais, projetos europeus, recuperações e depressões económicos, conflitos sociais e raciais, separações e reunificações. E sempre com os olhos postos numa bola a rolar e um golo que entra nas redes contrárias para saciar a fome de toda a nação.

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