Como um dos melhores avançados do futebol austríaco se transforma numa estrela mediática do futebol americano? Não do soccer americano mas do futebol que adaptou para terras do tio Sam o rugby britânico. Toni Fritsch é o único futebolista que conseguiu ser o ídolo de dois desportos separados por mais do que um oceano.

A história de Toni-Wembley

A 20 de Outubro de 1965, na catedral do futebol, nascia uma das maiores lendas do futebol austríaco.

A Inglaterra de Alf Ramsey estava a pouco mais de meio ano de sagrar-se campeã do Mundo mas contra a seleção herdeira da escola do Wunderteam foram inofensivos. A Áustria dos anos sessenta distava muito da sua versão gloriosa da década de 30 e até mesmo da equipa que em 1954 conseguiu classificar-se para as meias-finais do Campeonato do Mundo. Mas, ainda assim, era uma equipa que merecia o seu respeito. Contava com uma excelente organização táctica – ao contrário dos britânicos – e tinha vários jogadores de talento. O mais brilhante deles talvez fosse Toni Fritsch. O jovem avançado, com apenas vinte anos, tinha sido um pesadelo constante para Bobby Moore e Jack Charlton durante todo o jogo. A dupla que neutralizou em Junho a jogadores do nível de Eusébio, foi incapaz de evitar que a promessa austríaca apontasse dois dos três golos que deram a vitória aos centro-europeus. Diante dos seus próprios adeptos.

Fritsch tinha-se transformado na mais recente estrela adolescente do futebol austríaco, seguindo os passos de Sindelaar, Happell e Hannapi. Tinha começado a sua carreira profissional apenas dois anos antes mas o seu nome já invocava respeito. A partir dessa tarde mágica não havia ninguém na Áustria que não reconhecesse Toni-Wembley, a sua nova alcunha. Durante os anos seguintes, Fritsch confirmou todo o seu potencial vencendo com o seu clube de sempre, o Rapid Wien, três ligas e duas taças austríacas. No entanto, se a sua carreira se tivesse resumido a essa tarde, dificilmente que hoje Fritsch protagonizaria qualquer artigo ou reportagem. Foi a sua surpreendente decisão, no Verão de 1971, que mudou para sempre a sua vida e o transformou num icone desportivo nos Estados Unidos. Com 26 anos e um futuro promissor no futebol europeu, Fritsch deixou-se seduzir pelo desafio mais surpreendente: transformar-se numa estrela do futebol americano.

De estrela no Rapid Viena à vitória no Super Bowl

Durante as primeiras décadas do football association, era habitual encontrar futebolistas que saltavam de desporto para desporto à medida que desenvolviam as suas carreiras. Na Inglaterra do século XIX a maioria dos jogadores de futebol praticavam igualmente desportos como o rugby ou cricket. Alguns dos primeiros futebolistas alemães ou franceses eram também celebres ginastas. Em Portugal é célebre a paixão do magistral Jesus Correia pelo hóquei em patins, modalidade que preferiu ao futebol no final da sua carreira e que o levou a sagrar-se campeão mundial por seis vezes. Com o desenvolvimento do profissionalismo o ecletismo desapareceu e os futebolistas que praticavam outros desportos paralelamente desapareceram do radar. Fritsch tornou-se numa honrada excepção.

O seu estilo de jogo inspirava-se na sua velocidade em campo mas também no seu poderoso pontapé, capaz de mudar de um momento para o outro a posse de bola, em tudo similar ao que hoje Andrea Pirlo ou Xabi Alonso têm como passe-patenteado. À medida que a sua velocidade se foi perdendo entre pequenas lesões, a sua pontaria tornou-se cada vez mais a sua marca distintiva. Uma característica que cativou rapidamente Tom Landry, o treinador dos Dallas Cowboys, uma das mais populares equipas da National Football League.  Quando aterrou em Viena para encontrar reforços para a sua equipa a sua ideia era realizar uma tour pelas principais cidades europeias, procurando desportistas – fossem jogadores de rugby ou futebolistas – que fossem precisamente donos de um disparo preciso e poderoso. Na capital austríaca Landry ouviu falar de Fritsch, do seu célebre pontapé e persuadiu o selecionador austríaco a levá-lo a participar num trial com o clube. O futebol americano não era um desporto desconhecido dos vienenses já que na cidade residia ainda uma importante comunidade militar, americana, herdeira dos dias em que a cidade esteve dividida entre as potências aliadas. Fritsch, que não sabia falar inglês, apareceu no trial e começou a disparar bolas dentro da improvisada baliza. Não falhou um dos seus dez disparos e Landry soube, nesse momento, que tinha encontrado o seu homem. Prometeu-lhe um contrato com valores que o futebol na Europa nunca poderia igualar e dias depois o internacional austríaco estava num voo a caminho do Texas.

A principio a sua presença na equipa gerou curiosidade entre os adeptos. Muitos consideravam-mo uma opção excêntrica por parte de Landry. Toni tinha dificuldade em comunicar-se com os colegas mas não encontrou problemas em dominar a nova bola que tinha de pontapear. Arrancou com os Dallas Cowboys na temporada de 1971 e poucos meses depois de ter chegado ao país transformou-se numa estrela all-american, liderando a sua equipa à vitória no Super Bowl, o maior evento desportivo dos Estados Unidos.

Uma carreira All Star

Foi uma primeira temporada em cheio, com Fritsch a devolver a moral perdida a um clube que era conhecido, sobretudo, por falhar nos grandes momentos. Durante  onze anos, Wembley-Toni transformou-se numa das caras mais reconhecidas do público americano. Não repetiu o triunfo na Super Bowl – apesar de ter sido um dos melhores jogadores da final de 1976, perdida pelos Cowboys – mas manteve-se no ativo apesar de várias lesões no joelho.  No final da década trocou os Cowboys por outros clubes texanos da liga norte-americana como os Houston Oilers.

Era tão popular que se tornou no primeiro europeu a jogar no Pro Bowl, o jogo amigável disputado entre as principais estrelas da competição. Só em 2007 o seu recorde de maior número de pontos conquistados em jogos dos play-off foi quebrado. Trinta anos depois de o ter estabelecido. O seu impacto foi tal que durante os anos setenta vários clubes norte-americanos tentaram replicar o sucesso da sua contratação, procurando no futebol europeu a jogadores de similares caracteristicas. O único futebolista que esteve perto de emular os seus feitos, ironicamente, foi também recrutado em Viena. Anton Linhart, que tinha sido internacional com Fritsch nos anos sessenta, assinou em 1975 pelos Baltimore Colts e teve também uma carreira de prestigio no futebol americano, juntando-se a Fritsch na curta lista de europeu que participaram no All Star. Ainda assim, o seu feito empalidece com a gesta de Fritsch, até hoje o único jogador de futebol – e longe de ser um jogador anónimo – capaz de conquistar um Super Bowl, reinando sobre dois desportos e dois continentes.

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