A Taça Latina é um dos torneios mais polémicos do palmarés português. Um contraste com a percepção da competição mediterrânica no resto do mundo. Prelúdio fundamental para a Taça dos Campeões Europeus, foi um dos dois torneios oficiais mais importantes do futebol no Velho Continente antes da Europa se unir à volta de uma bola.

Um torneio oficial num mundo sem UEFA

O triunfo, em 1950, do SL Benfica na segunda edição da Taça Latina condenou para sempre o torneio aos olhos dos portugueses. No caso dos adeptos encarnados, a competição foi exaltada como aquilo que, no fundo, era, o primeiro titulo continental do futebol luso, mais de uma década antes da vitória em Berna na final da Taça dos Campeões Europeus. Aos seus rivais, o triunfo encarnado naquela segunda final no Jamor foi recebido á época com desinteresse e no presente com desprezo. A crítica habitual é recorrente. A Taça Latina não era um torneio oficial. E no entanto, uma mentira dita mil vezes raramente se converte em verdade. A verdade que diz que a UEFA não deu o seu selo á competição, homologando-a aos seus títulos reconhecidos, não significa que o mesmo careça de oficialidade.

A confusão de termos – que só existe em Portugal, ironicamente – tem servido para ocultar a herança de uma competição fascinante na sua época de concepção e que marcou profundamente a evolução do futebol europeu. Em 1955, quando arrancou o torneio que ia mudar para sempre a história do jogo, poucos podiam antecipar esse impacto que se fez sentir meses depois. A final da primeira edição foi também a final entre dois campeões da Taça Latina. Nos sete anos seguintes, todos os campeões da Europa do torneio organizado pela UEFA tinham sido, também, vencedores da Taça Latina. Finalistas vencidos como o Barcelona ou o Stade Reims também pertenciam a esse grupo. Aliás, até 1964 só houve dois finalistas – em dezoito equipas possíveis – que não participaram no torneio. Um reflexo perfeito da sua relevância desportiva e social. Na Europa destroçada do pós-guerra não havia um espelho a que olhar. O nascimento desta competição despertou um sonho antigo. Talvez sem ela a ideia de um torneio continental tivesse demorado mais anos a concretizar-se.

A última grande competição regional

A Taça Latina foi fundada em 1949. Foi, desde o primeiro dia, um torneio oficial.

Oficialidade garantida pelas quatro federações que lhe deram vida, a italiana e a espanhola, grandes protagonistas da sua concepção, e a francesa e portuguesa. Todos os jogos, regulamentos e participantes partiram de convites e gestões das respectivas federações. Em 1949, quando tudo começou, a UEFA era uma miragem e não havia uma autoridade superior ao das federações nacionais, salvo a FIFA. Mas esta, como era habitual com Jules Rimet, não se imiscuía em organizações salvo o seu Campeonato do Mundo, dando poder ás federações nacionais de oficializar ou não torneios.

A Taça Latina – como a Mitropa ou a Home Nations – era portanto uma competição oficial desde o primeiro dia, altura em que dirigentes das respectivas federações – alentados por alguns influentes periodistas onde se encontrava o português Ribeiro dos Reis – colocaram mãos á obra. A ideia era, precisamente, a de emular a Mitropa, um torneio fundado em 1927 e que se prolongou até ao inicio da II Guerra Mundial. A Taça Mitropa – com a Taça Dr. Gero – deu profissionalismo e consistência a uma ideia de um torneio continental ainda que tenha sido iminentemente uma competição regional. O mesmo passaria com a Taça Latina com a diferença de que se uma tinha potenciado a grande linha desportiva que se desenvolvia á volta da bacia do Danúbio, a segunda fazia-o com a emergência do poder do futebol mediterrânico. As semelhanças acabavam aí.

A Taça Latina seria disputada com os Mundiais, com sede fixa, durante uma semana, e com quatro participantes que deveriam ser os campeões nacionais. No caso destes recusarem as federações deveriam convidar os segundos classificados e assim sucessivamente. Nem sempre participaram os campeões mas estes receberam sempre o convite oficial em primeiro lugar. Os jogos seriam disputados num pais sede que se alternaria anualmente e a organização ficaria á cabo da federação anfitriã. As regras foram redigidas pela federação espanhola, a responsável por receber a primeira edição, depois de um sorteio com a congenere italiana. Foi criado um troféu próprio e anunciou-se a competição como um duelo entre a nata do futebol europeu. Á época, salvo pelo futebol inglês, essa era efetivamente a realidade. A Taça Mitropa seria recuperada mas longe do seu historial inicial, por culpa da Guerra-fria. Nenhum outro torneio regional teve eco e foi a Taça Latina que devolveu aos europeus, uma década depois, o desejo de ver as grandes equipas do continente a medirem-se umas contras as outras.

Os reis da Taça Latina

A primeira edição da competição iria colocar frente a frente o grande Barcelona de finais dos anos quarenta, o Sporting dos “Cinco Violinos”, os franceses do Stade Reims e o Torino de Mazzola e companhia. Lamentavelmente, semanas antes do arranque da competição – agendada para Madrid – a equipa italiana pereceu ao completo no acidente de Superga. O campeão português eliminou as reservas italianas e deu luta ao Barcelona até ao fim. Os catalães foram o primeiro vencedor do torneio. Ainda hoje o incluem no seu currículo de títulos oficiais, ao contrário das competições amigáveis e torneios de verão em que participam. Uma tendência transversal que nenhum outro país, salvo Portugal, questiona. Tudo, talvez, porque no ano seguinte, na edição organizada em Lisboa, o Benfica saiu vencedor.

Foi um triunfo polémico. Nas meias-finais a Lazio italiano utilizou uma equipa repleta de baixas por culpa de uma intoxicação alimentar. O Benfica apurou-se sem apuros mas precisou de duas finais – e três prolongamentos, um recorde histórico – para vencer com um tento polémico, aparentemente da autoria de Julinho, ainda que ninguém o possa confirmar. Essa vitória, a primeira de uma equipa portuguesa a nível internacional, foi exaltada pelo regime politica e ninguém a questionou á época. Foi também a única das equipas lusas que acabariam por ocupar o ultima lugar no ranking final do torneio.

Seguiram-se triunfos italianos (AC Milan, em 1951), espanhóis (Barcelona, 1952) e franceses (Reims, 1953, na segunda edição disputada em Portugal com uma meia-final no Jamor e outra nas Antas) antes da interrupção por culpa do Mundial de 1954. Á época o torneio já era o mais popular a nível mundial, de clubes, que a própria FIFA solicitou ás federações que o cancelassem para evitar que os melhores jogadores das respectivas seleções estivessem indisponíveis para o Campeonato do Mundo. Quando foi reatado, em 1955, o Real Madrid, já com Di Stefano, saiu vencedor. Os merengues venceriam a última edição, em 1957, depois de um interregno em que o AC Milan saiu triunfante, somando o segundo titulo – os mesmos que Barcelona e Real – mas nessa altura a importância do troféu tinha sido relegada para um inevitável segundo plano. A UEFA tinha nascido – em Março de 1955 – e com ela uma nova competição que, a principio, a confederações europeia não queria organizar: a Taça dos Campeões Europeus.

A polemica decisão da UEFA

A principio as federações organizadoras da Taça Latina pensaram em manter o troféu. A Mitropa estaria vigente até aos anos noventa, por exemplo. Mas foi a própria UEFA quem colocou o prego no caixão da Taça Latina. Em 1955 o arranque da Taça dos Campeões Europeus foi visto por alguns com suspeita, a começar pelo Barcelona que não quis sequer candidatar-se á vaga espanhola que era, como todas, por convite. Mas o êxito das duas primeiras edições convenceu o mundo do futebol de que a nova competição era, realmente, o futuro. E que qualquer torneio regional perdia relevância. A UEFA, que a principio desdenhara a ideia de Hanot, abraçou o novo torneio e preparou o seu próprio de seleções. Anunciou igualmente a todas as federações que qualquer competição regional não seria oficialmente homologada por eles. Sabedores da situação – e também porque eram os dominadores do novo torneio – espanhóis, franceses e italianos decidiram abortar a Taça Latina quando esta se preparava para a sua nona edição.

Os portugueses pouco tiveram a dizer sobre o assunto. A UEFA negou-se a dar oficialidade ao torneio dentro dos seus quadros, reclamando que a mesma tinha sido criada fora do seu âmbito, algo inevitável, tendo em conta que nascera seis anos antes que a própria UEFA. A confederação faria o mesmo com a Taça das Cidades com Feiras – quando a adquiriu em 1971 e transformou em UEFA – e esteve a ponto de o fazer com a Taça das Taças, outro torneio que não inventou, sendo que os dois primeiros vencedores foram apenas oficializados á posteriori por intermediação de Otorino Barassi, federativo italiano.

A Taça Latina ficou, portanto, fora do livro de honra da UEFA mas não perdeu a oficialidade para as quatro federações e todos os clubes que a ganharam continuam a reivindicar a mesma no seu currículo. Em Espanha, França ou Itália essa realidade não gera qualquer tipo de debate. Em Portugal a situação é radicalmente diferente. Se por um lado é certo que a dificuldade e valia da Taça Latina é incomparável com qualquer torneio da UEFA posterior não menos verdadeiro é que este foi o torneio que despoletou a revolução das competições continentais sendo, á época da sua fundação, a mais importante competição continental de clubes. A sua oficialidade é inquestionável bem como a sua relevância a todos os sentidos. Sem a Taça Latina o futebol mundial teria sido, seguramente, mais pobre e talvez o sonho de conquistar a Taça dos Campeões Europeus tivesse tido que esperar uns bons anos.

3.257 / Por