Taça das Cidades com Feiras, os rebeldes da UEFA Criada para rivalizar com a Taça dos Campeões Europeus acabou por ser banida dos registos da UEFA e relegada a torneio não oficial

Nenhum dos seus vencedores é reconhecido oficialmente mas durante década e meia a Taça das Cidades com Feiras foi um dos torneios mais respeitados do futebol europeu. Uma competição que pagou o preço de desafiar a emergente UEFA e que caiu no esquecimento apesar de ter assentado as bases do êxito da sua sucessora, a taça que a UEFA baptizou com o seu próprio nome.

Leeds, os últimos rebeldes

A 3 de Junho de 1971 mais de 40 mil pessoas encheram Elland Road para testemunhar um jogo histórico. O Leeds United, uma das grandes potências da época recebia a toda-poderosa Juventus italiana, trazendo um empate a dois golos de Turim. Anastasi, o certeiro avançado italiano, anotou ao minuto vinte para empatar o encontro após o golo inaugural de Clarke mas o marcador não se voltou a mexer na hora seguinte e com o apito final, sem ter vencido nenhum dos dois jogos e meio disputados – um temporal forçou a primeira mão a ser disputada em dois encontros – o Leeds arrecadou o troféu, pela segunda vez na sua história. Troféu que não consta actualmente no registo oficial do clube. Semanas depois do triunfo em casa, a 14 de Setembro, uma nova competição arrancava com um anónimo Dundee contra o Aab dinamarquês.

Tudo parecia igual mas tudo estava diferente. A dinâmica da competição era a mesma, o modelo organizativo de disputa e até a nacionalidade do vencedor – o Tottenham Hotspurs superaria o Wolverampton Wanderers – mas uma pequena e súbtil alterção fazia toda a diferença. O torneio agora chamado Taça UEFA tinha condição de competição oficialmente reconhecida pelo organismo continental ao contrário do seu antecessor, a até hoje negligenciada Taça das Cidades com Feiras.

Os rivais da Taça dos Campeões Europeus

O nascimento da Taça das Cidades com Feiras é paralelo à aparição da Taça dos Clubes Campeões Europeus. Em 1954 três personalidades fundamentais na gestão do jogo na Europa reuniram-se para assentar as bases de um torneio que deveria servir como estimulo para a emergente económica europeia. No pos-guerra a politica de aproximação dos países ocidentais da Europa fez-se em muitos sentidos e um dos principais foi a reactivação da cultura de feiras comerciais e industriais, elemento fundamental da afirmação económica europeia desde a Idade Média. Durante o ano várias feiras temáticas eram organizadas em cidades reconhecidas pela sua importância industrial e financeira e associar a esses evento um torneio de futebol parecia ser uma forma perfeita de estreitar ainda mais os laços. Atrás dessa ideia estavam Ernesst Thommen, um suiço que era também o homem forte por detrás da cultura emergente das apostas desportivas, e os dirigentes Stanley Rous – presidente da Football Association e futuro presidente da FIFA – e Ottorino Barassi, o seu homónimo na federação italiana. O objectivo era criar a primeira competição de natureza continental inspirada nos exemplos da Taça Latina e Mitropa, torneios regionais ao fim e ao cabo. Seria disputado não por clubes mas por cidades – o que podia permitir fazer um XI com jogadores de distintos clubes debaixo de uma mesma bandeira e escudo – e com o calendário de jogos a seguir o do circuito de feiras o que, na prática, forçava a competição a alargar-se no tempo até dois ou até três anos por edição. No fundo os seus dinamizadores procuravam antecipar uma especie de Europeu de clubes espaçado no tempo mas a emergência, ao mesmo tempo, de uma ideia rival inspirada pelo francês Gabriel Hanot sob forma de torneio anual, começou a desenhar as primeiras fricções que acabariam por mudar por completo a natureza da competição. Durante meses o comité da organização foi abordando as federações e os clubes e recebeu apoio encorajador de vários, incluindo do FC Barcelona, o grande clube espanhol á época e que preferiu apostar todas as fichas no êxito do torneio declinando a abordagem de Hanot, que via os espanhóis como figura de proa do seu projecto europeu. A decisão dos catalães abriu a porta ao Real Madrid, que desde o primeiro momento apoiou incondicionalmente Hanot, e marcou para sempre a história do jogo no velho continente. No final o clube catalão acabou por se revelar o grande impulsionador e campeão da nova Taça das Cidades com Feiras. como assim foi baptizada.

Passeio espanhol entre polémicas

A primeira edição do torneio foi disputada ao largo de dois anos e contando com um formato inspirado pelo Campeonato do Mundo de seleções com uma fase de grupos seguido de uma ronda a eliminar e com os jogos a coincidir com os eventos feriais. A Barcelona – a equipa alinhava um jogador do Espanyol com dez do FC Barcelona – juntaram-se as cidades de Zagreb, Leipzig (únicos representantes do leste Europeu), Lausanne, Colónia, Milão, Copenhague, Viena, Frankfurt, Basileia, Birmingham e Londres. A final foi disputada entre a equipa representativa da capital inglesa – que alinhava um jogador por clube – e da cidade catalã e foram esses que sairam vencedores depois de um empate a duas bolas em Stanford Bridge seguido de uma goleada por 6-0 no Camp Nou. Seguiu-se uma nova edição bianual de novo conquistada pelos catalães – superando agora o Birmingham – mas que levantou uma série de problemas e que forçou a intervenção da UEFA, por primeira vez.

O organismo europeu tinha dado autorização aos organizadores para realizar o torneio mas todas as suas fichas estavam postas na sua própria competição, a Taça dos Clubes Campeões Europeus. Quando em 1959/60 o FC Barcelona tomou por primeira vez parte no seu torneio – alcançando as meias-finais – ao  mesmo tempo que os seus jogadores, sob a bandeira da cidade de Barcelona, participavam na Taça das Cidades com Feira, os dirigentes da UEFA mostraram o seu claro desagrado. Não era viável que o mesmo clube estivesse activo em dois torneios continentais paralelos – de tal forma que a própria UEFA tinha convidado os organizadores da Taça Latina a abandonar o torneio – e por primeira vez na sua curta história de vida (o organismo datava apenas de 1954) colocou um ultimatum aos organizadores da Cidades com Feiras. Ou alteravam o formato da competição ou iriam ter problemas.

Desse modo, a partir de 1960, a Taça das Cidades com Feiras passou a ser uma competição anual e paralela ás restantes competições europeias – nesse ano nasceu também a Taça dos Vencedores das Taças, outra ideia de Rous e Barrassi apoiada na equipa organizadora da Taça Mitropa – e os seus participantes vetados de entrar noutro torneio da UEFA o que, na prática, acabava com o modelo de um clube por cidade. A cidade de Barcelona ainda assim voltou a participar, com alguma aparição de jogadores do Barça não convocados para jogar na prova-rainha, mas a natureza do torneio tinha mudado definitivamente e no ano seguinte quebrou-se a regra original do torneio de um clube por cidade. Passavam a tomar parte três clubes por país e sem limite de cidades o que permitiu a Inter e Milão, Hearts e Hibernian ou Espanyol e Barcelona, de tomar parte no torneio. Se a decisão de abrir os representantes por cidade acabou com um conceito base na concepção do torneio, o de ampliar as vagas a mais do que um clube por país (alcançando as 48 equipas participantes em 1965) – ao contrário tanto da Taça dos Campeões Europeus como a Taça das Taças – transformou a Taça das Cidades com Feiras e, mais tarde a sua sucessora, numa competição peculiar e avançada em décadas ao que mais tarde seria a Champions League. Também permitiu a afirmação de uma dinastia hegemónica dos clubes espanhóis, na sua primeira etapa, com vitórias de Valência e Zaragoza além dos títulos conquistados por Barcelona, e mais tarde dos clubes ingleses.

A era inglesa dos rebeldes da UEFA

Os anos sessenta foram dificieis para os organizadores da Taça das Cidades com Feiras. Desaparecido o objectivo inaugural do torneio – manter os jogos no calendário das feiras – a concorrência directa com os outros dois torneios europeus foi-se agravando. Para além do tratamento preferencial dado á Taça dos Campeões Europeus, em 1964 a UEFA decidiu reconhecer a título oficial a Taça das Taças como torneio reservado para os vencedores das Taças nacionais. A decisão, impulsionada por Barrassi para apoiar os clubes italianos vencedores do torneio, acabou por dar ao torneio condição de segunda competição continental em importância e, igualmente, a dar oficialidade a todos os seus campeões, incluindo aqueles nos anos prévios à absorção do torneio por parte do comité organizativo da UEFA. Essa desvantagem continuava a marcar profundamente a diferência com a Taça das Cidades com Feiras.

Por um lado não ajudava que o torneio não fosse reconhecido pela UEFA o que colocava problemas aos clubes á hora de ajustar o calendário de jogos já que não existia uma coordenação oficial com os compromissos domésticos. Por outro lado cada país podia eleger os seus representantes como bem entendia e não havia um conceito agregador o que transformava o torneio numa competição algo anárquica. Desse modo, ao largo da década, a competição foi perdendo influência e interesse. Ao final da era hegemónica dos espanhóis – que entre 62 e 66 chegaram a ter três finais apenas com clubes da sua liga – o torneio foi tomado surpreendentemente de assalto por modestos clubes da Europa de Leste, como o Ferencvaros e Ujpest Dosza húngaros ou o Dinamo de Zagreb jugoslavo. De certo modo parecia que os grandes escudos europeus não pareciam demasiado interessados em investir na competição – com todos os problemas logisticos que implicava e pouca garantia de lucro – até que surgiram em cena as equipas inglesas. Incapazes de competir de igual para igual na Taça dos Campeões Europeus – nos seus primeiros vinte anos de história apenas um clube inglês ganhou o torneio, o Manchester United em 1968 – os britânicos decidiram tomar de assalto tanto a Taça das Taças como a Taça das Cidades com Feiras de forma a obter o reconhecimento continental que italianos, portugueses e espanhóis obtiam anualmente na competição principal da UEFA.

Ao titulo perdido pelo Leeds United em 1967 seguiu-se uma sequência de quatro vitórias consecutivas com o próprio Leeds a vencer duas edições, seguido pelo Newcastle United em 1969 e o Arsenal em 1970, batendo respectivamente o Ujpest e o Anderlecht na final. Os triunfos britânicos contra rivais de menor prestigio continental foram, no entanto, também o canto do cisne para o torneio. A UEFA tinha decidido acabar com a anarquia na organização e tomar cartas no assunto.

A reconversão em Taça UEFA

A ausência de um critério comum começou a desaparecer em 1968 quando a Taça das Cidades com Feiras adoptou finalmente o critério da classificação no campeonato para tomar ordem dos participantes, passando a ser jocosamente conhecida nalguns meios como o “torneios dos segundos” mas como havia países que ainda na prática aplicavam a política de um clube por cidade – fazendo com que, por exemplo, se o segundo e terceiros fossem da mesma cidade, o quarto classificado, de outra cidade distinta, substituiria o terceiro na competição – não havia forma certa de saber quem ou não poderia participar.

Em 1970 a UEFA anunciou a intenção de fazer com a Cidades com Feiras o que tinha feito com a Taça das Taças. Passariam a organizar a competição directamente sob pena de instigarem as respectivas federações a convidarem os seus clubes a não tomar parte no torneio de forma paralela aos seus desejos. Sem grandes incentivos económicos e depois de quase quinze anos, os organizadores da competição claudicaram e anunciaram que a temporada de 1970/71 seria a última baixo os seus auspicios. No ano seguinte tudo parecia igual mas tudo seria diferente. A UEFA renomeou o torneio com o seu nome, declarou-o como terceira competição europeia em relevância e oficializou a classificação nos campeonatos nacionais como único critério de acesso ao torneio, apesar da inicial resistência de alguns países. Manteve a mesma estrutura de competição incluindo a final a dois jogos – um elemento diferencial com os outros dois torneios e que se manteve até 1997 – mas recusou-se a aplicar o mesmo critério que tinha tido anos antes com a Taça das Taças. A Cidades com Feiras seria, para todo o sempre, um torneio pária, não oficialmente reconhecido e pelo tanto, apesar de continental, teria o mesmo tratamento que a Taça Latina, Mitropa ou tantas outras competições europeias que tinham nascido antes da própria UEFA. A decisão acabou por custar a vários clubes alguns títulos oficiais tendo o Barcelona acabado por ser o mais prejudicado de todos, precisamente aquele que tinha virado as costas à UEFA e ao seu torneio oficial, em 1955 para embarcar nesta aventura.

Com o passar dos anos a Taça UEFA foi superando em prestigio a Taça das Taças, principalmente por ser o único torneio com mais do que um representante por país o que mantinha o interesse vivo em cada nação durante mais tempo e permitia muitas vezes servir de plataforma a futuros campeões europeus nos torneios europeus já que o facto de apenas o campeão nacional participar na Taça dos Campeões Europeus fechava a porta ao grande torneio continental. A competição foi conquistada por clubes quase anónimos e por alguns dos grandes emblemas da Europa e nos anos de apogeu da Bundesliga ou da Serie A serviu igualmente de reconhecimento oficial para a importância das respectivas ligas. O nascimento e expansão da Champions League marcou o ponto final na sua era dourada mas a competição que ainda hoje sobrevive como Liga Europa continua a dever tudo aos rebeldes pioneiros da Taça das Cidades com Feiras, o torneio que a UEFA decidiu esquecer propositadamente.

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