Da mesma forma que nos últimos 55 anos os campeões de clubes da Europa e da América do Sul se têm medido na Taça Intercontinental, também nos anos oitenta cresceu o sonho de reproduzir o torneio ao mundo de seleções. O projeto foi um fracasso, com apenas duas edições, mas durante uma década sonhou-se com uma Intercontinental de Seleções.

A inspiração da Taça Intercontinental

Em 1960 o Real Madrid e o Peñarol disputaram a primeira edição da Taça Intercontinental, um duelo a duas mãos que seria o modelo utilizado até final dos anos setenta quando o troféu se transferiu a Tóquio – instaurando-se igualmente a entrega da Toyota Cup, complementar à Intercontinental – para coroar o melhor clube do mundo. Esse modelo persistiu até finais do século XX quando a FIFA tentou, pela primeira vez, organizar um Mundial de Clubes, no Brasil. A edição inaugural fracassou mas a ideia não morreu. Cinco anos depois retomou-se o projeto, num modelo distinto e a Taça Intercontinental desapareceu de vez no mapa. Parte da inspiração para o Mundial de Clubes foi resgatada da ideia por detrás da Taça das Confederações, um torneio que começou por ser organizar na Arábia Saudita, de forma oficiosa, e que duas edições depois passou ao controlo da FIFA. Esse torneio media, no ano anterior ao Mundial, todos os campeões das confederações continentais e passou a servir com o passar do tempo como ante-sala de preparação logística para os Campeonatos do Mundo.

A ironia é que se foi de facto a Confederações que proporcionou as bases do Mundial de Clubes que, por sua vez, enterrou 45 anos de edições da Taça Intercontinental, não menos certo é que antes da existência desse mesmo torneio a ideia original tenha sido, precisamente, criar uma Interncontinental de Seleções inspirada pelos grandes nomes atrás da UEFA e da CONMEBOL. Chamaram-lhe a Taça Artemio Franchi, em honra ao recentemente falecido presidente da UEFA e controverso dirigente italiano, e durante duas edições os campeões da Copa América e do Europeu de seleções lutaram pelo ceptro mundial.

O rei alternativo do mundo

Tudo começou em 1984, pouco depois da seleção francesa se consagrar campeã europeia em casa. Os gauleses, uma das seleções a nível mundial mais aplaudidas da sua geração, aspiravam a ser campeões do mundo mas 1986 e o Mundial do México – que antes esteve para ser da Colômbia – parecia tão distante que ainda que o mundo reconhecesse a primazia dos franceses sobre os seus rivais mundiais, não havia forma de o confirmar.  A UEFA começou a manejar a possibilidade de sufragar essa pretensão. A ideia passaria por uma série de jogos contra os campeões dos restantes confederações mas a mesma foi rapidamente deixada de parte por se entender que ninguém fora do eixo Europa-América, tinha nível suficiente para competir a esse nível. O exemplo de êxito da Intercontinental, já disputada a partido único, sentou as bases de um dialogo com a CONMEBOL que teve eco positivo. Se os vencedores da Libertadores e da Taça dos Campeões se podiam medir, porque não fazer o mesmo com os da Copa América e do Europeu?

Começaram-se a sentar as bases do troféu, patrocinado pela própria FIFA – que anos antes também tinha dado o seu ok ao Mundialito de Clubes disputado no Uruguai para celebrar os 50 anos do primeiro Campeonato do Mundo – e sem grande dificuldade decidiu-se homenagear a Artemio Franchi, falecido um ano antes num acidente de viação, com o nome do troféu. Ficou igualmente decidido que o partido seria disputado de forma rotativa entre os dois continentes. A edição original seria em Paris, para reconhecer o trabalho impulsionador da UEFA, e frente aos homens de Platini, Giresse e Tigana mediam-se os uruguaios, vencedores indiscutidos da Copa America 1983.

Entre campeões oficiais e oficiosos

O jogo disputado a 21 de Agosto de 1985 no Parque dos Principes foi um passeio para os franceses que estavam no ponto máximo das suas capacidades mas metade das bancadas acabaram por ficar vazias. Rocheteau, aos cinco minutos, e Touré, aos 56, anotaram os golos que separaram as duas equipas mas o verdadeiro espetáculo foi o duelo entre o jovem Francescoli, a emergente estrela uruguaia, e Platini, o capitão francês. Apesar do escasso apego popular, confirmou-se a seguinte edição para 1989 a medir o vencedor da Copa América 1987 e do Euro 88. Tudo mudou quando a CONMEBOL decidiu transformar o seu torneio continental em bi-anual, o que criava um problema de legitimidade para medir-se ao rival europeu nessa edição. A isso unia-se igualmente os problemas económicos já que ninguém parecia estar interessado em patrocinar o torneio como tinha feito a Toyota, resgatando a Intercontinental de um futuro incerto.

Por tudo isso a edição de 1989 disputou-se, sim, mas sem o selo oficial da competição dado pela FIFA. O duelo entre o Brasil, campeão nesse ano a nível continental, e a Holanda – que não podia contar nem com van Basten, Rijkaard ou Gullit, impedidos de viajar pelo Milan – acabou com o triunfo dos canarinhos mas sem o mais relevante eco internacional. Quatro anos depois a situação mudou. A FIFA voltou a conceder a sua benção e a Taça Artemio Franchi teve, oficialmente, a sua segunda edição num jogo disputado entre os dinamarqueses e os argentinos em Mar de la Plata. Foi um jogo emocionante e tenso. Terminou empate a um e decidido a favor dos locais desde a marca de grandes penalidades. Maradona, a tentar recuperar desportivamente do seu ano negro atuando no Sevilla, foi uma das grandes figuras de uma equipa que começava a incluir futuras estrelas como Batistuta ou Simeone, que se uniam assim a vários vice-campeões mundiais do Mundial de 1990. Tudo parecia estar  normalizado a nível institucional para repetir-se o torneio em 1997 mas a FIFA decidiu intervir e mudar as regras do jogo.

A ascensão da Taça das Confederações

Paralelamente à segunda edição da Artemio Franchi, a federação saudita decidiu instaurar um torneio similar mas com os campeões de todas as confederações, uma espécie de Mini-Mundial. Chamaram-lhe a King Fadh Cup em honra ao monarca saudita. A primeira edição tinha sido disputada em 1992 – com os argentinos a vencer na final, em Riade, os organizadores – e a segunda em 1995 com a Dinamarca a bater a Argentina no que foi a desforra da derrota em la Plata, dois anos antes. O modelo interessou de imediato à FIFA sobretudo porque agradava igualmente às confederações excluídas pelo modelo centralista da Artemio Franchi e em vésperas de eleições presidenciais – que consagrariam a ascensão de Sepp Blatter – era importante ter todos os membros da “família FIFA”, contentes.

A organização do seguinte torneio de confederações foi agendado para 1997, coincidindo com o calendário da Taça Artemio Franchi. Iam disputar a primeira Confederações oficial o Brasil (campeão mundial e sul-americano), a Alemanha (campeã europeia), os sul-africanos (campeões africanos), o México (campeão da América do Norte), os Emirados Árabes Unidos (campeões asiáticos), os australianos (campeões da Oceania) e os organizadores sauditas. Os alemães abdicaram de tomar parte no torneio, substituídos pelos checos, mas esse percalço não alterou a dinâmica do torneio que foi um sucesso e estabeleceu a base para o que seria a Taça das Confederações de aí em diante. Um torneio que custou a existência à Taça Artemio Franchi. Os alemães e brasileiros ainda disputaram um jogo oficioso em honra do torneio, em 1997, e um golo de Ronaldo decidiu a contenda, mas já nada parecia interessado num modelo que era visto como demasiado antiquado. Foi o ponto final da aventura.

Nunca mais se voltou a resgatar do esquecimento a herança da Taça Artemio Franchi e ainda que se tenham disputado amigáveis entre os campeões continentais europeus e sul-americanos, nunca o foram reclamando a herança da competição. Até agora. Numa jogada de nostalgia, ficou estabelecido que os campeões e vice-campeões europeus – da edição 2016 – e sul-americanos – Chile e Argentina – disputarão um torneio amigável em 2018, de preparação para o Mundial desse ano. O nome da Taça Artemio Franchi foi resgatado do esquecimento e voltará à ribalta. Um regresso inesperado mas justo de um projeto que podia ter sido revolucionário mas que acabou por chocar com a democratização institucional do futebol mundial.

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