Durante quatro anos ingleses e italianos mediram forças num dos torneios mais originais e esquecidos do futebol europeu. A Taça Anglo-Italiana teve varias reencarnações e variantes mas na década de setenta logrou estabelecer-se como uma das provas mais interessantes e polemicas do calendário internacional.

O conturbado nascimento de um torneio histórico

Parecia que estava escrito. Memórias da Batalha de Highbury, esse mítico duelo entre ingleses e italianos em 1935 que esteve a ponto de terminar com a invencibilidade inglesa contra rivais continentais em casa voltaram à memoria. Era a tarde da primeira final da Taça Anglo-Italiana e o cenário o mítico estádio de San Paolo em Nápoles. Com uma hora de jogo e o resultado claramente desfavorável, os adeptos napolitanos fizeram o que sabiam melhor, já por então, e lançaram o caos nas bancadas. A violência desceu degrau a degrau até baixar ao relvado e o jogo foi cancelado. Assim terminava a primeira edição de um torneio pioneiro com um campeão, o Swindon Town, por coroar como o protocolo exigia.

No voo de regresso a Inglaterra os jogadores bem podiam celebrar. Não só por terem conquistado o último titulo internacional que o clube alguma vez teria nas suas vitrinas mas por terem saído com vida de uma caldeira de emoções. Entre uma histórica rivalidade desportiva e uma crescente cultura de hooliganismo em ambos países desenhou-se a curta mas intensa vida de uma competição hoje esquecida mas que á época soube fazer a delicia dos adeptos neutrais.

Taça Anglo-Italiana, o desafio à UEFA

A ideia de criar um torneio entre clubes ingleses e italianos que não tinham logrado classificar-se para as provas europeias da UEFA começou a desenhar-se na década de sessenta. Impulsionada por Gigi Peronace e apoiada pela Football Association inglesa, a taça Anglo-Italiana foi formalizada de forma definitiva em 1970.

Um ano ano antes um esboço da prova tinha sido posto em prática quando a UEFA negou ao Swindon o direito de participar na Taça das Cidades com Feiras embora a equipa londrina tivesse ganho a Taça da Liga inglesa por não se encontrar na primeira divisão, então condição obrigatória.O mesmo cenário tinha sucedido dois anos antes com o Queens Park Rangers e desta feita a FA tomou medidas para compensar o clube, acordando com a federação italiana organizar um torneio comemorativo entre o Swindon e o histórico AS Roma que também estava excluído essa época das provas da UEFA. Os ingleses venceram o torneio disputado a duas mãos depois de terem perdido a primeira em Roma, goleando na segunda mão por 4-0 os gialorossi.

A ideia parecia funcionar e foi criada de forma oficiosa a Taça da Liga Anglo-Italiana. Mas não era suficiente e rapidamente ouros clubes de ambos lados pressionaram as respectivas federações para ir mais além. No ano seguinte uma prova mais estruturada foi apresentada. Seis participantes de cada um dos dois países mediriam forças até levar para casa o titulo com os jogos a serem disputados nas semanas de duelos europeus. O Swindon voltou a conquistar o troféu depois do abandono dos jogadores do Nápoles numa final que não teve direito a segunda-mão. A história começava de uma forma atribulada e assim seguiria.

A decadência de um modelo alternativo

Apesar dos problemas entre adeptos italianos e ingleses na sua edição inaugural, a competição prosseguiu em 1971 com normalidade. Depois de uma disputada fase de grupos, Bologna e Blackpool disputaram uma final a um só jogo a 12 de Junho no estádio do clube italiano. A vantagem de pouco serviu aos italianos que perderam no prolongamento o duelo com o conjunto britânico que repetiu a final na temporada seguinte desta vez caindo aos pés da Roma. Muitos começaram a questionar o formato original utilizado – uma fase de grupos onde todos jogavam entre si atribuindo-se, inclusive, pontos por golos marcados, com as duas melhores equipas por país a disputar a final – e para a edição de 1973/74 a pontuação por golos foi abolida.

Apesar do interesse popular nas primeiras duas edições o aumento de violência entre adeptos e a crise económica que começava a fazer-se sentir na Europa Ocidental começaram a condicionar a realização dos jogos para equipas com orçamentos bastante modestos. Este acabou por ser o ano final da competição no seu modelo original com o Newcastle a conquistar o titulo batendo a Fiorentina na final, reforçando a hegemonia inglesa na prova. Abandonada por falta de interesse nos clubes participantes o torneio foi recuperado dois anos depois num modelo semi-profissional com equipas de divisões inferiores e assim se manteve até aos anos oitenta quando o desastre de Heysel e as relações cortadas entre ingleses e italianos colocou um ponto final na vida do torneio.

A memória das provas europeias esquecidas

Em 1992, com o fim da suspensão da UEFA aos clubes ingleses para participarem em torneios internacionais, a prova foi reativada entre participantes da First Division e Serie B com a final a ter lugar no imponente Wembley. Parecia que havia tempo para um renascimento emocional da competição mas uma vez mais a falta de interesse e a violência repetiram o desfecho do torneio inaugural e no ano em que Inglaterra celebrou o regresso a casa do futebol com a organização do Europeu de seleções, a prova chegou definitivamente ao seu crepúsculo.

A Taça Anglo-Italiana foi um dos torneios mais simbólicos entre as competições internacionais de clubes fora do circulo da UEFA. Os anos sessenta e setenta foram pródigos no renascimento de competições regionais ou entre países para ocupar as datas em que só os emblemas de elite participavam nas provas europeias. Á medida que as vagas para clubes foram ampliadas e a violência nos estádios se transformou em realidade, os torneios foram morrendo pouco a pouco. Sem interesse das televisões e com os adeptos locais a evitarem peregrinar a estádios onde temiam pelas vidas, torneios como a Taça Anglo-Italiana foram condenados à extinção. Com eles acabou uma era do futebol europeu.

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