Na era dos jogos de consola e realidades virtuais é difícil aos adeptos de futebol prestar atenção aos velhos jogos de tabuleiro. Mas há um desses jogos que teima em resistir à passagem do tempo. 65 anos depois do seu aparecimento, o Subbuteo continua a ser um dos jogos mais populares do mundo e no seu estilo simples, quase artesanal, uma resposta de resistência ao poder crescente das novas tecnologias. Quem consegue resistir a um desafio parado no tempo?

O jogo de mesa mais popular

Para os que pensam que o Subbuteo é um jogo antiquado, pensem outra vez. A empresa Hasbro pode ter desistido de vender o seu produto em lojas mas a página web oficial do jogo tem preparada a versão Euro 2012 do mais popular jogo de mesa dedicado ao futebol. Não só uma versão atualizada das bancadas, balizas, bandeiras de fundo, bolas ou até um melhorado troféu como também as dezasseis equipas finalistas com o seu equipamento principal atualizado. Cristiano Ronaldo contra Robbie van Persie? É só escolher de que lado jogar e colocar as peças sobre o tabuleiro.

Até ao aparecimento dos primeiros jogos de consola, a finais dos anos 80, a hegemonia do Subbuteo sobre os seus rivais era absoluta. O jogo inventado em 1947 por Peter Adolph marcou profundamente gerações de jovens jogadores britânicos. Da mesma forma que as coleções de cromos e as fanzines fizeram parte do abcedário da infância e adolescência de sucessivas gerações, tardes passadas com os amigos em torneios de Subbuteo eram obrigatórias na vida de qualquer rapaz inglês. A popularidade do jogo estendeu-se a partir dos anos 60 ao resto da Europa e rapidamente o crescimento da empresa possibilitou um enorme salto qualitativo na oferta de material. Num ano chegaram a vender-se mais de 300 mil unidades da colecção. Das habituais equipas com equipamentos típicos e anónimos, passou a encontrar-se disponível, de país para país, os equipamentos reais de cada clube e seleção que importava. Já não era preciso puxar pela imaginação para simular um Inglaterra-França ou um Brasil-Argentina quando Zico, Platini, Keegan e Maradona estavam à distância de um golpe de dedos.

 Campeões com sabor português

O fenómeno cultural Subbuteo foi tal que em 1970 começaram a organizar-se torneios internacionais de jogadores que de amadores tinham muito pouco. A mecânica do jogo, toques sucessivos entre os vários elementos das equipas, apoiados numa superfície redonda e difícil de controlar, tornava o jogo num desafio seductor a quem poucos resistiam. Os guarda-redes movidos com um controlo especial defrontavam sem piedade o remate directo dos rivais sobre bolas de tamanho gigante. O sucesso histórico do jogo nunca se entenderia sem essa metamorfose constante e adaptação aos novos tempos oferecendo novas equipas, bolas, estádios e extras que renovavam regularmente o prazer de jogar. Luis Filipe Horta, fundador do núcleo de praticantes português e atual secretário-geral da FISTSF, contou ao FM que desde a década de 80 que os torneios amadores de Subbuteo eram uma realidade em Portugal. “Em 1980 tive conhecimento do primeiro campeonato nacional de Subbuteo em Portugal por um jornal desportivo”, conta, “mas não cheguei a tempo de me inscrever. Acompanhei os jogos até ao final. No final tive conhecimento conhecimento de uma organização chamada Federação Portuguesa de Subbuteo e afiliei-me de imediato”. Seria preciso uma década até que essa organização não oficial se tivesse transformado numa federação inserida dentro do contexto da FISTSF.

A partir dos anos 90 apareceram os primeiros sucessos mundiais em consolas e computadores e o papel dos jogos de mesa foi relegado para um inevitável segundo plano. Muitos dos jogos mais populares foram desaparecendo mas, em contra-corrente, o Subbutteo permaneceu, apesar do abandono do comercio tradicional pela sua distribuidora, com um fortíssimo grupo de praticantes que reivindicavam de forma contestatária a herança cultural do jogo. O peso da nostalgia serviu de íman para relançar o jogo no novo século, aumentar as vendas junto de adultos e crianças, e relançar a paixão pelos duelos de prateleira. Os campeonatos mundiais de jogadores, que nos anos 80 chegaram a ter direito a transmissão televisiva em Inglaterra, voltaram a ser uma realidade e não é complicado perder horas pelo arquivo do You Tube vendo jogos de proporções quase épicas.

A 20 de Julho de 2012 arranca o próximo Mundial, em Manchester, competição onde os portugueses têm um mais do que interessante historial. Paulo Sobral foi a Hamburgo, em 1992, sagrar-se campeão da Europa. Na edição seguinte, em 1996 o triunfo voltou a ser português graças a Filipe Maia. Em ambas as edições o finalista vencido do torneio juvenil também foi lusitano. A nível Mundial o único troféu português foi logrado precisamente na prova juvenil, em 1990 por Vasco Guimarães, num torneio disputado em Itália na mesma altura do Mundial de Futebol da  FIFA.

Vasco Guimarães seria também o dominador nos anos 90 nos torneios oficiais de jogos de mesa a que a Subbuteo aderiu quando a marca deu por terminado os seus campeonatos exclusivos. O português venceu a edição sub-20 em 1995 e nos dois anos seguintes foi o máximo campeão do Mundo. Em 2001 o certame foi organizado no Porto e nos anos seguintes outros lusos foram conquistando troféus e medalhas. A herança do Subbuteo é forte em Portugal. O secretário-geral da Federação Internacional de Desportos de Mesa  viveu de perto a entrada do Subbuteo na vida social dos praticantes portugueses e agora é um dos grandes responsáveis para manter ativa a prática do jogo, utilizando a internet como elemento de união. “Há adeptos em todo o mundo determinados a não deixar esquecer o jogo. Uma pesquisa no google dá-nos mais de 10 milhões de resultados à palavra Subutteo”. Consciente do impacto social dos jogos das novas plataformas multimedias, para Luis Horta o poder da nostalgia é, atualmente, a grande arma de sobrevivência do jogo, comentando ao FM que “se por um lado os simuladores podem ser atrativos para os mais novos, por outro lado no futebol de mesa o jovem praticante pode retirar da sua prática maior satisfação porque tudo aquilo que logra é resultado directo do seu talento individual, sem o auxilio de softwares externos”. Como secretário-geral da FISTF, parte do seu trabalho está intimamente ligado com a organização da prática do jogo de forma ativa nos distintos países. Luis Horta será um dos homens fortes por detrás da organização do próximo Mundial, torneio realizado “de forma totalmente amadora, sem nenhuma remuneração para os organizadores”. Um Mundial que se inspira na paixão dos praticantes para manter-se numa relação de amor que passa de pais para filhos.

O peso da nostalgia

Para qualquer um nascido antes dos anos 90 o nome Subbuteo soa famíliar.

Em muitos casos pode até ter sido parte fundamental de uma infância marcada pelos longos e chuvosos invernos que impediam sair à rua com uma bola de verdade. Muitos artesãos amadores dedicaram horas a pintar os jogadores, a atualizar equipamentos e a imaginar-se como um dos protagonistas no tapete verde que tantas rugas ganhava com o passar do tempo. Se é verdade que a tentativa de fazer do Subbuteo um desporto olímpico não funcionou, também é inquestionável a herança cultural que este jogo deixou. Um sucesso que ultrapassa gerações, países e que prevalece graças ao poder da nostalgia e a necessidade humana de relembrar sempre aquele momento mágico em que a bola sai disparada e só acaba agarrada ás redes, transformando-nos em campeões do mundo…mesmo que seja só na mesa lá de casa.

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  • Excelente artigo!

    • Miguel Lourenço Pereira

      André,

      Obrigado pelas palavras, sobretudo porque entendemos que aprecia perfeitamente o valor do fenómeno do jogo Subbuteo e da magia que o rodeia.

      um abraço