Stanley Matthews, o lado escuro do primeiro Sir do futebol A história de como o primeiro Ballon D´Or destruiu a possibilidade de transformar o Stoke City numa potência nacional

Quando se retirou, aos 50 anos, Stanley Matthews era considerado por todos como a primeira grande lenda inglesa do futebol moderno, um título honorifico coroado com o primeiro Balon D´Or e uma série de homenagens que recebeu muitos anos depois do seu apogeu como futebolista. No entanto Matthews também foi uma das primeiras “divas” do futebol mundial e o seu caracter individualista e polémica provocou a queda em desgraça do clube que o lançou para a fama, o Stoke City.

A glória tardia de Wembley

Em 1953 Stanley Matthews venceu o seu primeiro e único título como futebolista profissional. Tinha já 38 anos e poucos podiam sequer adivinhar que jogaria uma década mais profissionalmente, ainda que, de novo, sem direito a prémios colectivos. Numa das mais inesquecíveis finais da Taça de Inglaterra, Matthews ajudou o Blackpool a vencer o Bolton Wanderers e a levantar assim o troféu mais apreciado do futebol mundial. Uma tarde inesquecível e irrepressível no relvado de Wembley que coroou assim um dos seus maiores interpretes individuais.

Meses depois, Matthews voltaria ao estádio do Império para ser testemunha privilegiada da mudança de guarda no futebol, com os visitantes húngaros a humilhar os anfitriões no jogo que marcou para sempre um antes e um depois do futebol. Ainda assim, a sua carreira prosseguiu e de forma quase simbólica, foi-lhe atribuído o primeiro Ballon D´Or pela revista francesa France Football, já com 43 anos e muito longe do seu melhor, uma década antes de finalmente colocar um ponto final na sua longeva carreira. Um final que chegou com a camisola do Stoke City, o clube da sua infância, o clube do seu coração e o clube que o próprio Matthews ajudou a cair no poço do futebol inglês depois de os ter estado a ponto de levar á glória. Dias antes da final de Wembley que o coroou finalmente, o Stoke City foi despromovido apenas pela segunda vez na sua história. Cinco anos antes tinham estado a ponto de herdar o manto do Arsenal e do Everton como nova máxima potência do futebol inglês não fosse o carácter polémico e imprevisível daquele que era também o maior ídolo do Victoria Ground.

O estatuto de “diva” da estrela adolescente

Matthews estreou-se em 1932 com a camisola do Stoke. Tinha 17 anos, era nascido na localidade de Stoke on Trent, e desde cedo tinha deixado mostrar de ser um jogador excepcional. Extremo á antiga, habilidoso em espaços curtos, veloz na mudança de velocidade, Matthews fazia da vida do seu marcador um autêntico inferno em cada encontro. Era pouco goleador mas sabia assistir os colegas como poucos e desde as suas primeiras exibições ficou claro que os “Potters” tinham nas suas mãos um dos futebolistas mais sensacionais das ilhas britânicas. Aos 15 anos já era um dos adolescentes mais pretendidos pelos clubes do norte de Inglaterra mas a sua devoção ao clube vermelho e branco levaram-no a assinar o primeiro contrato como amador antes de, dois anos depois, formalizar-se como futebolista profissional ganhando o máximo permitido á época – 5 libras – o mesmo que os jogadores mais veteranos do plantel.

A sua chegada provocou alguma tensão no balneário – que não diminuiu quando o jovem recusou acudir ás concentrações de grupo para jogar golf preferindo treinar em solitário – mas cedo Matthews provou que valia a pena o investimento e em 1932-33 ajudou o Stoke a subir á First Division, garantindo nas temporadas seguintes que o clube se estabelecia no meio da tabela. As perspectivas de êxito do Stoke iam melhorando à medida que Matthews ia crescendo e acumulando jogos e no início da temporada de 1935-36, a direcção do clube decidiu intervir para oferecer-lhe simbolicamente a camisola número 7, agora que os números começavam a ser utilizados oficialmente com alguma regularidade. A decisão reabriu velhas feridas sobretudo com o veterano Bobby Liddle, capitão e dono habitual da camisola, que ao mesmo tempo também era intimo amigo do novo técnico, Bob McGory, o antigo lateral direito com quem tinha forjado uma relação profissional depois de tantos anos a ocupar a banda direita, e que no final dessa época tinha sido promovido a treinador principal do clube.

McGory era, por direito próprio, uma lenda do Stoke City. Tinha disputado mais de 500 jogos como atleta profissional com as cores do clube e era querido no balneário e pelos adeptos. Era também um homem de carácter e de espírito de grupo que olhava com suspeita para o tratamento preferencial que a direcção dava a Matthews em detrimento do grupo. A decisão de afastar progressivamente uma lenda do clube e amigo pessoal do próprio só serviu para aumentar o distanciamento entre ambos. Liddle passou a actuar como interior direito e ocasionalmente como extremo esquerdo até ao final da década deixando a ala direita para Matthews. Apesar do distanciamento, ambos limaram diferenças o que ajudou o Stoke a alcançar aquele que era, até então, o melhor resultado da sua história, um quarto lugar. No final do ano, Matthews exigiu um bónus ao valor pago a cada jogador pela classificação final, uma vez que pretendia contabilizar os dois anos de amateur no clube como se anos profissionais fossem. A polémica estava servida.

A primeira ameaça de adeus

Considerado como uma estrela nacional, já futebolista internacional e presença habitual em jogos oficiosos de homenagem, Matthews foi também um dos primeiros futebolistas a entender o seu papel comercial. Assinou vários contratos de anuncios publicitários, aparecia em vários programas radiofónicos, assina artigos na imprensa como convidado e dava a cara em várias galas, sempre acompanhado de um importante cachet. Fazia-se seguir aos treinos por vários amigos pessoais e jornalistas com quem, especulava-se, tinha uma relação de tal intimidade que lhes facilitava acesso a noticias internas do clube antes que essas fossem oficiais. No balneário do Victoria Ground a sua relação com os restantes colegas era sempre distante e depois de uma temporada decepcionante, no inicio de 1938, Matthews apresentou um transfer request á direcção do Stoke. Tinha exigido uma melhoria de contrato – cobrando um bónus suplementar de 650 libras – mas a instâncias de McGory, a direcção ofereceu-lhe apenas 500. Matthews sentindo-se insultado decidiu abandonar Stoke e mudar-se temporalmente para Blackpool, onde adquiriu um pequeno estabelecimento que transformou um unidade hoteleira. Aí esperou o desenrolar dos acontecimentos deixando cair a possibilidade de uma retirada precoce – uma arma habitual dos jogadores da época para abandonarem os clubes sem penalização e mais tarde assinar por outras equipas como atletas livres.

Nas ruas de Stoke-on-Trent, á medida que as noticias correram, começaram as manifestações. Houve greves nas fábricas locais e os dirigentes das principais empresas locais manifestaram-se publicamente contra a possibilidade da saída do futebolista instando a direcção do clube a tomar uma decisão. Durante semanas a situação foi tensa, houve propostas e contra-propostas sobre a mesa e apesar de Matthews ter aceite uma delas no dia seguinte, em declarações a um amigo jornalistas, voltou a dar o pé atrás, antes que uma manifestação de vários adeptos do clube à porta de sua casa o fizessem de novo mudar de ideias. Matthews ficava no clube mas todos sabiam que o fazia contra a sua verdadeira vontade e também a de vários colegas e, principalmente, do seu técnico.

McGrory tinha a genuína ambição de liderar o Stoke na corrida ao título da temporada de 1938-39 e durante várias jornadas parecia que o clube ia fazer história mas Matthews pareceu pouco disposto a contribuir. Agora a viver regularmente em Blackpool, em várias ocasiões declarou não estar fisicamente bem para jogar, sendo visto a praticar golf á hora a que os colegas subiam ao relvado. Ao mesmo tempo parecia encontrar-se sempre disponível para os jogos internacionais pela selecção inglesa dos quais voltava sempre com mazelas que obrigavam a semanas de repouso. Sem o seu contributo, sempre ocasional, o Stoke acabou por perder no último terço do ano a possibilidade de igualar o seu melhor registo de sempre ficando em sétimo lugar, a quatro pontos do terceiro posto numa liga ganha pelo Everton. A ambição era máxima para a seguinte temporada mas apesar de liderarem o campeonato, á terceira ronda o mesmo foi cancelado. A II Guerra Mundial tinha começado e com ela chegariam seis anos sem futebol profissional em Inglaterra.

Os anos de guerra em Blackpool

Durante a guerra os clubes mantiveram a sua actividade, uma exigência das autoridades para ajudar a moral colectiva, e nesse periodo o Stoke demonstrou que tinha tudo para converter-se numa potência nacional, vencendo em várias ocasiões a Liga Oeste – os torneios foram reduzidos geograficamente por problemas evidentes de custos – apesar de raramente contar com o contributo de Matthews. O extremo ofereceu-se para alistar-se na RAF mas devido ao seu prestigio foi colocado a trabalhar numa fábrica em Blackpool o que o impedia de jogar pelo Stoke em duelos que fossem longe da sua área de residência. Por isso mesmo durante os seis anos seguintes Matthews acabou por disputar oficiosamente tantos encontros com a camisola do Stoke como com a do Blackpool, clube ao qual se foi afeiçoando cada vez mais. A sua relação com McGory, essa, ia em pior. Muitas vezes o jogador deixava até ao último momento em dúvida a sua participação nos jogos pelo Stoke o que levava o técnico a anunciar a sua titularidade – para garantir casa cheia – apenas para depois o deixar no banco de suplentes quando este chegava no limite ás instalações do clube. A situação chegou a tal ponto que entre 1941 e 1944 Matthews disputou cerca de cinquenta jogos amigáveis e nenhum deles com a camisola do seu próprio clube, forçando a cada ano uma transferência que nunca tinha lugar.

Em 1945, ainda sem liga, a FA Cup foi reiniciada a modo experimental e com  a camisola do Stoke Matthews viveu um dos momentos mais trágicos da história do futebol inglês num duelo contra o Derby County que provocou a morte de 33 adeptos por asfixia e manchou para sempre a edição desse ano do prestigioso torneio.

De estrela a reserva

1946-47 marcava o reinicio da First Division e com ela das aspirações do Stoke. Muitos colocavam os Potter ao lado do Everton e Wolverampton como principais favoritos e na imprensa havia já quem os baptizava de “Arsenal do Norte”, pela associação ao clube mais bem sucedido da década anterior. Todos acreditavam que o clube era o grande candidato ao título e apesar de não vencer nenhum dos primeiros quatro jogos, seis triunfos seguidos depois  o Stoke pareceu demonstrar todo os eu favoritismo. No entanto, a finais de Outubro, Matthews lesionou-se num jogo com a camisola inglesa e McGrory, uma vez recuperado o extremo, e tendo em conta como este tinha mostrado em várias ocasiões pouca vontade de acudir ás sessões de treino colectivas a meio da semana – a viver já definitivamente em Blackpool, Mathews desculpava-se por problemas de transporte – decidiu então publicamente anunciar que o jogador tinha primeiro de recuperar a sua forma física plena na equipa de reservas antes de recuperar o seu lugar na equipa, falhando assim a viagem a Londres para defrontar o Arsenal. Fê-lo sem avisar o jogador e para Matthews, habituado a controlar a sua relação com a imprensa, não havia insulto maior. McGrory, esse, parecia ver a sua decisão reforçar ainda mais a sua liderança e o espirito de grupo no balneário que, com a ausência da estrela internacional, arrancou para o melhor momento da época, com particular destaque para o seu substituto no onze, George Mountford.

Chegou o mês de Novembro e estalou de novo a polémica. A direcção do clube e vários adeptos insistiam na inclusão de Matthews no onze e vários dos jogadores – fartos da atitude de Matthews que, durante os jogos, se não recebia o esférico regularmente para os seus slaloms solitários se dedicava a gritar pelo esférico constantemente – mostraram-se contra o seu regresso. Finalmente McGrory cedeu, aceitou tomar algumas fotos com o jogador para satisfazer a imprensa local, e a forma do Stoke caiu em picado. Em Janeiro parecia que os Potters estavam fora da corrida pelo título e nos dois meses seguintes, oscilava entre os jogos em que o extremo jogava ou não, consoante a sua disponibilidade. Foi então quando o futebolista voltou então a mostrar a sua pior versão.

A ausência que custou um título

No final de Março de 1947, e depois de ter voltado à titularidade da equipa, Stanley Matthews voltou a solicitar o transfer request que vinha insistindo nos anos anteriores.  Tudo aconteceu depois de que o técnico o deixasse de fora de um duelo contra o Grismby Town. Muitos pensavam que o objectivo não era outro que descansar o jogador que tinha previsto representar a selecção num jogo contra a Escócia, na semana seguinte, antes de uma sequência de seis jogos em quatro semanas para os Potters. A realidade é que já ninguém no balneário suportava o jogador e a tensão era palpável em todos os sentidos. Quando Matthews anunciou que não poderia viajar a Stoke porque tinha assuntos pessoais que gerir no seu hotel, McGrory decidiu tomar cartas no assunto. A equipa venceu 5-2 nessa tarde e no jogo seguinte Matthews ficou fora da convocatória por decisão técnica. Soube-o apenas no balneário, diante dos colegas, minutos antes da equipa entrar em campo. Os jogadores vitoriaram o técnico pela sua decisão e saíram ao campo dispostos a dar tudo por tudo. Venceram por 3-0 o Charlton e arrancaram para uma nova sequência de cinco vitórias seguidas que os voltava a colocar no primeiro lugar. Seguiram-se outras cinco jornadas onde a equipa coleccionou duas derrotas, um empate e duas vitórias. No último desses jogos, frente ao Leeds, Matthews jogou mas apenas por lesão de um colega. No final do encontro deixou claro à direcção do clube que não pensaria voltar e solicitou a transferência para o…Blackpool.

Vários clubes ingleses, conhecedores da situação, ofereceram mais do que os Seasiders pelo passe do extremo mas este manteve-se inflexível. Ou era transferido para o clube da cidade onde vivia ou abandonaria o futebol. Finalmente McGrory aceitou a oferta do Blackpool. O triunfo frente ao Leeds parecia ter selado a questão do título mas a realidade era diferente. Inglaterra tinha vivido o seu pior inverno em décadas e vários jogos tinham sido adiados á custa do mau tempo e portanto os três candidatos ao título – Liverpool, Wolverampton e Stoke City – tinham ainda jogos por disputar em Maio. Os dois primeiros jogos do Stoke coincidiam também com encontros da selecção inglesa, pelo que Matthews nunca estaria disponível, mas este deixou bem claro que ainda assim não voltaria ao Victoria Ground para jogar contra o Sheffield United. Confiante que não necessitaria a estrela da companhia, McGrory acedeu.

A equipa precisava de somar um total de quatro pontos nos três encontros. A 17 de Maio empatou em casa contra o Sunderland e nove dias depois venceu em Villa Park o Aston Villa, com novo golo do substituto de Matthews, Mountford, pelo que um empate contra o Sheffield, em Bramall Lane, selava o título. A derrota do Wolverampton contra o Liverpool, no último jogo dos dois rivais, tinha colocado os Reds no primeiro lugar á condição. Mas poucos pareciam festejar o triunfo já que davam por assumido que o Stoke venceria. Não foi assim. Uma derrota por 2-1 ao cair do pano selou o destino do clube. Matthews, no hotel em Blackpool, ouviu o jogo pela rádio. Dias antes tinha incumprido a sua última promessa ao clube. A sua venda ao Blackpool estava acertada mas a direcção do Stoke tinha pedido ao jogador e ao clube que mantivessem o negócio em segredo até ao final da temporada. Uma chamada a um jornalista amigo de Matthews no entanto levou a noticia á primeira página dos jornais apenas três dias antes do jogo em Sheffield. No final, a sua relutância em ajudar a equipa tinha talvez custado ao Stoke City a possibilidade de vencer o único título da sua história e o génio inglês saía do seu clube de sempre pela porta pequena. Voltaria.

O regresso do primeiro Sir do Futebol

Depois de ter ficado ás portas da glória, nada voltou a ser o mesmo para o Stoke. McGrory ficou no clube mais quatro anos mas nunca mais logrou colocar a equipa nos primeiros lugares e em 1953, ao mesmo tempo que Matthews finalmente triunfava individualmente numa grande competição, o clube acabou despromovido. Em 1962, já com 47 anos cumpridos, Matthews voltou ao seu clube de infância. Depois de quinze anos com a camisola do Blackpool, e ocultando uma lesão no joelho, o mítico extremo transformou-se no jogador mais caro da história da Second Division, onde os Potters militavam então, cobrando 50 libras á semana, o que na prática duplicava o que recebia no Blackpool e fazia dele um dos jogadores mais bem pagos do futebol. Apesar do seu escasso contributo – nos seus dois primeiros anos anotou apenas quatro golos – Matthews não obstante ajudou o Stoke a subir de divisão, tal como tinha feito quando ainda era uma promessa adolescente, em 1963 iniciou a sua última sequência de jogos profissionais na elite. Entre lesão e lesão, em Fevereiro de 1965 – já coroado Cavaleiro, o primeiro futebolista a receber tal honra – pendurou definitivamente as botas com a camisola Potter, a mesma que tinha usado no seu primeiro jogo como profissional. O mesmo clube que tinha abandonado a dias do seu jogo mais importante. Victoria Ground despediu Matthews como a lenda que foi mas a memória dessa tarde em Sheffield e da sua ausência nunca partiu.

 

 

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