Antes de cada Mundial começar todos os avançados sonham com suceder-lhe. Guillermo Stabile foi o primeiro jogador a vencer a Bota de Ouro na competição rainha do futebol. A sua carreira internacional resumiu-se aos jogos disputados no Mundial de 1930. O primeiro rei dos golos dos Mundiais é também o mais eficaz “matador” da história da Albiceleste.

A melhor média goleadora da história da Argentina

Não é qualquer jogador que pode reclamar ter uma carreira internacional com uma média de dois golos por jogos disputados. Se todos esses golos foram marcados num Mundial de Futebol, o mérito é ainda maior. Mas a carreira de Stabile foi tudo menos normal. O primeiro Bota de Ouro de um Campeonato do Mundo só jogou quatro vezes pela seleção da Argentina. Todos os encontros foram disputados no Uruguai 1930. Não jogara pela Albiceleste antes do torneio nem o voltaria a fazer. Oito golos, quatro jogos e uma história para a posteridade de um futebolista a quem todos os avançados do Mundo querem suceder de quatro em quatro anos.

Guillermo Stabile não estava destinado a ser mais do que uma figura secundária no primeiro Mundial de Futebol. A estrela do Huracan, com quem tinha ganho três títulos em seis temporadas, nunca tinha jogado pelo seu país. Ao futebol argentino não faltavam jogadores de excelência. Medalhistas de prata nos Jogos Olimpicos de Amesterdão, vencedores de três das cinco edições da Copa América anteriores ao primeiro Mundial, eram a única equipa do Mundo que podia desafiar seriamente a hegemonia uruguaia. E eram uma equipa sem espaço para um avançado como Stabile. Com o Huracan, em 119 jogos disputados apontou 102 golos durante a década de vinte. Mas ainda assim o combinado argentino começou o Mundial sem ele. Contra o México a sua sorte mudou. Roberto Cherro, a estrela goleadora do Boca Juniores, protagonista azarado do jogo inaugural contra a França, sofreu um ataque de pânico horas antes do jogo. Stabile foi chamado já no balneário a vestir-se para começar de inicio. Marcou um hat-trick. Nunca mais parou.

O primeiro Bota de Ouro da história dos Mundiais

A carreira de Stabile no Mundial de 1930 entrou nos anais da história.

Os seus três golos contra os aztecas podem não ter significado o primeiro hat-trick da história da competição – pertença do americano Bert Patenaude, depois de anos de polemica – mas marcou o arranque brilhante na competição que prosseguiu no jogo seguinte com dois golos apontados à seleção do Chile que serviram para desbloquear o empate e que carimbaram o passaporte para as meias-finais da competição. Frente aos americanos de Patenaude os argentinos foram eficazes e Stabile voltou a bisar no marcador ampliando o seu pecúnio goleador para sete tentos. No dia seguinte o uruguaio Pedro Cea marcou o seu primeiro hat-trick na competição e colocou os dois jogadores separados por apenas dois golos na luta pela primeira Bota de Ouro. A final de Montevideo iria separar os dois dianteiros de forma inversa à que coroaria os respectivos países.

Stabile assistiu Peucelle para o golo inaugural e ao minuto 37 cumpriu o sonho de qualquer jogador, o de marcar na final de um Mundial. Este era especial. O primeiro. Era o seu oitavo golo em quatro jogos pela Argentina. Seria o último. Golo. E jogo também. Cea ainda marcou, na segunda parte, carimbando o título mundial dos argentinos mas a Bota de Ouro era o único prémio de consolo que os argentinos levavam de volta a casa. Para Guillermo foi o passaporte para a glória. Com vinte e cinco anos tinha-se tornado numa celebridade internacional e como muitos dos seus compatriotas rumou à liga italiana onde Mussolini e Pozzo receberam estes filhos da emigração, os “rimpatriati” ou “oriundi” de braços abertos. No entanto, ao contrário de Guaita ou Monti, o avançado recusou representar a seleção italiana. Durante seis anos foi uma das estrelas da Serie A, primeiro com o Genoa e depois com o Napoli. O seu apetite goleador continuou a manifestar-se nos campos italianos e quando a sua carreira chegou ao fim, Stabile somava mais de 150 golos em 180 encontros disputados. Com a seleção o seu recorde era imbatível. Uma média de dois golos por jogo que está, até hoje, por igualar.

O mais longevo selecionador da Albiceleste

Finda a carreira de jogador, Stabile transformou-se num dos mais importantes treinadores da história do futebol sul-americano. Foi tricampeão argentino de clubes com o Racing de Avellaneda e selecionador nacional durante vinte anos consecutivos, um recorde também ele por igualar na história do futebol sul-americano. No banco da seleção argentina Stabile esteve presente em 123 jogos, conquistando pelo caminho um recorde de seis Copa Americas e um troféu Pan-Americano. É o mais laureado de todos os selecionadores argentinos mas, uma vez mais, o Mundial foi o seu calcanhar de Aquiles. Tal como lhe tinha sucedido como jogador, Stabile falhou alcançar a glória eterna no Suécia 58.

A Argentina chegava ao torneio no lote de favoritos. Tinha perdido quatro dos seus melhores jogadores para o futebol (e para a seleção) italiano mas ainda assim muitos pensavam que o torneio disputado na Suécia seria o ajuste de contas da Albiceleste com a competição. Ironicamente, os argentinos caíram na fase de grupos e voltaram a casa humilhados. Foi o fim da carreira de treinador de Stabile ao leme da seleção. Com cinquenta e cinco anos o primeiro Bota de Ouro dos Mundiais retirou-se para um posto directivo onde se manteve até 1966. Morreu sem ter visto a Argentina vencer o seu Mundial e Kempes tornar-se no segundo, e até hoje único, argentino a erguer a Bota de Ouro da competição.

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