Dois gigantes sul-americanos em guerra por um spray que promete mudar o rosto da arbitragem quando o International Board decidir oficializar o seu uso em todas as competições oficiais. O spray utilizado em lances de bola parada é um dos temas de maior discussão no futebol sul-americano. Está para breve a sua chegada à Europa e enquanto isso continuamos sem saber quem realmente está por detrás desta inovadora descoberta.

A versão argentina

Os argentinos clamam que a invenção pertence a um jornalista. A imprensa che jura e perjura que a história de Pablo Silva, que se lembrou de inventar um spray para delimitar as barreiras em lances de bola parada no decurso de um jogo entre amigos. Tudo partiu de um livre que, segundo Pablo, poderia ter decidido o jogo não estivesse a barreira ligeiramente adiantada. O remate falhou o alvo, a sua equipa perdeu e Silva decidiu por mãos à obra.

Da ideia passou à prática, em 2007 chegou até aos escritórios da Association de Futbol Argentino com o projeto que agradou ao todo-poderoso chefe do futebol argentino, Julio Grondona, e em 2008 o spray já se utilizava em pequenos torneios regionais. A pouco e pouco tornou-se moda e passou a ser mais um dos utensílios da equipa de arbitragem nos jogos oficiais do país.

Em 2009 chegou ao Torneio de Clausura e aos ouvidos da FIFA que dois anos depois validou a sua utilização na Copa América que teve lugar no país.

A história de Heine

Esta podia ser a história do “vanishing spray” que tanta ajuda tem dado às equipas arbitrais argentinas não fosse por Heine Allemagne, um engenheiro industrial brasileiro que reclama a invenção para si mesmo. Remonta a sua história vários anos antes da de Pablo Silva, 2000, e diz ter provas de que o seu produto está patentado desde 2004, depois de o ter provado na escola de formação de Zico, no Rio de Janeiro, durante vários meses.

O Brasil posicionou-se em força atrás do seu “inventor” e o futebol local passou também a dar uso regular ao produto que se assemelha em tudo ao utilizado no futebol argentino. O uso da invenção na Copa João Havelange confirmou a sua popularidade e Allemagne foi contratado pela Confederação Brasileira de Futebol para trabalhar no desenvolvimento do seu protótipo, liderando um comité de pressão junto da FIFA para a utilização do produto no próximo Mundial.

Expansão assegurada

Seja uma invenção argentina ou brasileira, a verdade é que o spray tem todas as condições para se tornar num utensílio global, como o apito ou os cartões do árbitro principal.

O International Board já debateu por várias vezes a utilização do produto que garantiria assim que todas as barreiras cumprissem a distância regulamentar de 10 metros entre o marcador do livre e os homens da barreira.

A utilização na Copa América, como prova num torneio de renome mundial, foi um dos passos fundamentais para a aceitação do spray e agora é o próprio Angel Maria Villar, presidente da Federação espanhola e responsável pelo comité de arbitragem da FIFA, quem dá sinais de que é possível que no próximo ano a invenção chegue até às principais provas do continente europeu.

Mais golos de bola parada

O polémico spray surgiu, tanto na história de Pablo Silva como na de Heine Allemagne, da mesma origem: espuma de barbear.

O efeito do spray desaparece 45 segundos depois de ser utilizado e está provado cientificamente que a sua estrutura biodegradável não danifica a relva onde é utilizado podendo por isso ser usado vezes sem conta sem perder o efeito e sem danificar o terreno de jogo.

Uma pequena lata que deve ser pressionada durante 10 segundos sobre a linha de barreira e que em caso de jogos com neve pode ser acrescentada com um ligeiro pigmento colorido para manter-se visível. Para muitos árbitros, habituados a largos anos de disputas com os jogadores, esta invenção é a única forma prática de fazer respeitar a 13º lei do jogo, que garante que as distâncias nos lances de bola parada sejam mantidas em todo o momento.

Quando o mundo do futebol debate as próximas inovações tecnológicas, como o chip dentro das bolas ou a tecnologia de linha de golo, uma invenção mais modesta mas tremendamente pragmática pode ajudar a fazer do futebol um espetáculo ainda mais intenso.

Vários estudos demonstram que nas ligas brasileira e argentina dos últimos anos onde o spray foi utilizado, os números de golos apontados em lances de bola parada aumentaram e as faltas nos últimos metros diminuíram. Uma invenção polemica que até agora tem tido resultados onde importa, no terreno de jogo.

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