Sport Club Rio Grande, o clube mais antigo do Brasil

Para os adeptos brasileiros é o “Vovô do Rio Grande”. Fundado a 19 de Julho de 1900 é o clube de futebol mais antigo do Brasil. O ponto de partida para uma história memorável num país onde o jogo do povo é alma e lei. A magia do futebol brasileiro arrancou no mais inesperado dos cenários.

O primeiro clube brasileiro por 23 dias de diferença

Durante décadas houve uma guerra emocional entre os adeptos do futebol brasileiro. Quem tinha direito a reclamar o augusto e reverenciado título de clube mais antigo de um país que vive de e para o futebol como o Brasil?

A Confederação Brasileira de Futebol decidiu fechar o debate quando elegeu o 19 de Julho como o “Dia Nacional do Futebol”. A escolha da data era simbólica. Representava a data de nascimento do modesto Sport Club Rio Grande, o mais inesperado mas genuíno percursor do futebol canarinho. No pequeno relvado do estádio Arthur Lawson desenharam-se as origens históricas do futebol de um país que entende a linguagem simbólica do jogo como nenhum outro. A mitologia de Charles Miller e o seu São Paulo, as pretensões de Flamengo e Vasco da Gama, clubes cariocas que já existiam como tal mas que demoraram vários anos a abrir uma secção de futebol aos seus membros, esbarraram contra a parede. Nem a Ponte Preta, o clube de Campinas, conseguiu contornar os factos. Fundados apenas vinte e três dias depois do emblema gaúcho, tiveram de contentar-se com o consolo de terem tido uma vida desportiva mais prolifera que o seu rival nestas questões geneológicas.

O debate encerrou mas com ele veio a vontade de saber mais sobre os primórdios do jogo no Brasil, numa região a sul de todos os nortes, mais orientada para a mística do Mar de la Plata do que para o influente eixo político Rio-Sampa.

A epopeia de Arthur Lawson

As origens do clube remontam, obrigatoriamente, à missão quase evangelizadora dos ingleses.

Arthur Lawson, o homem que dá o nome ao estádio local há vários anos, era filho de um homem de negócios britânico instalado no Rio Grande do Sul, e de uma brasileira. Nasceu em 1880 na cidade que gere a maior praia do Mundo (231 kms de extensão), no meio de uma família da alta burguesia mercantil. Com dezoito anos foi enviado para um colégio britânico como tantos rapazes da sua idade e da sua condição na época áurea do Rule Britania. Quando voltou, no final do primeiro ano de estudos, fê-lo com uma bola de futebol. Poucas semanas depois já tinha reunido praticantes suficientes para formar uma equipa de amigos. Durante dois anos o projeto cresceu, com as inevitáveis intermitências provocadas pelo regresso de Lawton (e alguns dos seus companheiros) aos colégios britânicos. Mas a 19 de Julho de 1900, no dealbar de um novo século, o jovem aspirante a futebolista formalizou a sua criação e deu nome e cores (as da bandeira do estado) ao Sport Club Rio Grande.

O clube era inicialmente composto apenas por descendentes de europeus, essencialmente britânicos. Não havia espaço para os autóctones. Os primeiros anos foram marcados por vários jogos de exibição e pequenas tournés regionais pelo estado do Rio Grande do Sul. Começou a forjar-se o primeiro núcleo de rivalidades regionais com os vizinhos a sul (o Internacional de Pelotas) e a norte (o Grémio de Porto Alegre). O clube permaneceu o mais forte do estado até meados dos anos vinte mas com a inauguração do campeonato estadual, rapidamente ficou evidente que os emblemas de Porto Alegre levavam vantagem. Até que chegou o momento de apogeu da história do clube.

O único título do “Vovô”

Em 1936 o Rio Grande surpreendeu tudo e todos ao proclamar-se campeão estadual. Depois de uma década em que tinha falhado constantemente o acesso às meias-finais da competição, a equipa liderada pelo mítico Juvêncio bateu o Novo Hamburgo nas penúltima ronda antes de vencer o consagrado Internacional de Porto Alegre numa final disputada a dois jogos.

A alegria foi sol de pouca dura. Depois de um vice-campeonato conquistado, quase com a totalidade da equipa campeã, em 1941, o clube tornou-se numa figura menor no final dos anos quarenta e inícios dos cinquenta. O Rio Grande ganhou alguns torneios regionais, prévios aos estaduais, mas quando nasceu o Brasileirão – a primeira competição nacional – ficou claro que o seu destino estava preso às suas históricas origens. Enquanto que outros clubes históricos da sua era floresciam, o Sport Club sofria com a asfixia política e económica da capital do estado e a distância dos grandes centros de decisão. Longe de entrar na esfera nacional, o futuro do Rio Grande tem estado entre a primeira e a segunda divisão do seu próprio campeonato estadual.

Em 2000, o seu nome voltou à ribalta. Confirmado oficialmente pela CBF como o mais antigo clube do Brasil, organizaram-se vários torneios e homenagens ao histórico emblema, incluindo um duelo com o Fluminense, um dos mais antigo clubes do Rio de Janeiro. Foi uma forma de celebrar nostalgicamente um passado que nunca mais regressará. Condenado a uma esfera local, o clube tem servido de ponte para a integração social de jovens daquela que hoje caiu já para a décima posição entre as mais populosas cidades do estado. Com um olho posto no passado e a consciência tranquila em relação ao futuro, o emblema profissional mais antigo do Brasil continua a “gingar” sobre a história. Sabe que o seu papel foi cumprido e que agora é tudo um país que delira e vibra com algo que começou a ganhar forma nas suas modestas ruas.

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