É o mais pequeno campeão da história do futebol português. A saga dos operários de Alcântara transformou o humilde clube lisboeta numa das mais respeitadas equipas do final da década de vinte. Eram conhecidos como o Sparta de Alcântara em homenagem aos invenciveis checos de Praga. Eram uma equipa para a posteridade.

 O triunfo dos heróis de Carcavelos

Em 1928 o futebol português fervilha e preparava-se para mais um duelo norte-sul no popular Campeonato de Portugal. O torneio tinha sido instituído cinco anos antes e a sua primeira edição ganha pelo FC Porto. Os duelos entre azuis e brancos contra o Sporting tinham marcado os primeiros anos de história da competição que antecedeu a Taça de Portugal. Para lá do influente clube da Invicta o habitual era que fosse da capital o contingente de grandes favoritos. Os duelos entre Sporting, Benfica e Belenenses eram já seguidos por milhares de pessoas regularmente no campeonato distrital de Lisboa. À volta do trio de ases juntou-se progressivamente um grupo de emblemas mais modestos que viviam o seu pequeno apogeu futebolístico nesses primeiros anos de sonhos dourados na capital. O mais emblemático de todos era o Carcavelinhos.

Fundado em 1912, em Alcântara, o Carcavelinhos nasceu para ocupar o vazio deixado pela migração para norte dos emblemas que tinham dado origem ao que viria a ser o Sport Lisboa e Benfica. Belém e Alcântara tinham ficado sem equipa oficial e até ao nascimento do Belenenses, marcando o regresso de vários jogadores encarnados às margens do Tejo, coube ao Carcavelinhos representar honradamente o bairro nos torneios distritais da capital. As origens do clube assentavam, sobretudo,na comunidade operária da zona e por isso, com o pasar dos anos, o emblema pouco cresceu em importância dentro da Associação de Lisboa. O que não o impediu de ser um osso duro de roer para os rivais de maior prestigio. Até 1928 o Carcavelinhos não venceu nenhuma competição oficial mas manteve-se sempre no pelotão de perseguição, em conjunto que outras equipas como o Casa Pia. A sua hora de glória, no entanto, estava já ao virar da esquina.

 A magia do Campeonato de Portugal, a primeira versão da Taça

Em 1928 a Associação de Porto e Lisboa chegaram a um acordo tácito para inscreverem seis das suas equipas no Campeonato de Portugal. O torneio que antecipou a Taça de Portugal – e não a 1 Divisão, como alguns defendem – tinha ainda um sistema variado de participação, natural para o modelo quase amador em que ainda se geriam as competições em Portugal. Nalguns anos os participantes eram, exclusivamente, campeões regionais enquanto que noutros as inscrições abriam-se a vários clubes por associação, ampliando as rondas a eliminar. Com os campeonatos distritais terminados a principio de 1928 depois de terem arrancado no Outono do ano anterior, dava-se inicio ao Campeonato de Portugal.

O Carcavelinhos estava entre os representantes da capital, acompanhando a Benfica, União Lisboa, Sporting, Casa Pia, Império e Belenenses (que como campeão em titulo tinha assegurada a entrada directa). A norte a Associação do Porto inscrevera a FC Porto, Boavista, Sport Progresso, Salgueiros e Leça. Somaram-se vários representantes (nalguns casos, dois por associação, do resto do país). Parecia claro que o titulo seria disputado pelas equipas do costume, particularmente tendo em conta a forma autoritária como os favoritos bateram os mais modestos emblemas com que se cruzaram nas primeiras rondas. Não seria assim.

O Alcântara estreou-se na competição contra o Beira-Mar, campeão distrital de Aveiro, vencendo por 3-0 os locais, nos oitavos-de-final do torneio. Orientados por Carlos Canuto – que também alinhava no ataque e que se destacaria na década seguinte como árbitro de 1 Divisão – os homens de Belém contavam com uma equipa sem estrelas mas perfeitamente organizada no habitual 2-3-5 em que a linha ofensiva era composta por Manuel Abrantes ,Armando Silva, José e Manuel Rodrigues e o próprio Canuto. Ao triunfo sobre os aveirense seguiu-se um duelo histórico nos quartos-de-final. Em frente estava a sensação do torneio, o modestíssimo SC Salgueiros que tinha eliminado, para surpresa geral, na ronda anterior ao todo poderoso FC Porto com um triunfo no Ameal por 2-1. Os salgueiristas chegavam com o cartel de tomba-gigantes mas no campo do Covelo foram humilhados pelos lisboetas que saíram da Invicta com uma categórica vitória por 8-1. Foi o golpe de efeito moral que o Carcavelinhos necessitava. A equipa chegava mais longe do que alguma vez tinha conseguido na primeira competição nacional do futebol português. O titulo estava a apenas dois jogos de distancia.

 A saga do Sparta de Alcântara

Numas meias-finais dominadas pelas equipas a sul, o Sporting bateu o Vitória de Setúbal (finalista vencido do ano anterior e carrasco do campeão Belenenses) enquanto que ao Carcavelinhos tocava medir-se com o favorito Sport Lisboa e Benfica. O jogo estava marcado para o campo das Amoreiras num quente 24 de Julho. Contra todas as expectativas, o Benfica foi engolido pelo vendaval de ataque dos homens de Alcântara que se passearam sobre o terreno de jogo antes de assinar uma categórica vitória por 3-0. Os tentos de José Domingos (2) e Carlos Canuto entusiasmaram a legião de adeptos do modesto emblema e começaram a levar a imprensa da capital a procurar um rótulo digno à campanha memorável dos homens de Belém. Pela similaridade do jogo ofensivo, o Carcavelinhos começou a ser conhecido como o Sparta de Alcântara. Era uma homenagem digna ao clube mais forte do futebol centro-europeu da época, o Sparta de Praga.

A equipa checa tinha emergido da I Guerra Mundial como a grande potencia de um dos países onde o jogo se encontrava mais desenvolvido até então. Filhos dignos da escola danubiana, influenciados pelas lições do maestro escocês John Dick, os homens de Praga venceram varias ligas checas sucessivas antes de começar a deitar cartas na primeira grande competição da história do futebol europeu, a Taça Mitropa, conquistada nesse ano de 1928. Conhecidos como “Iron Sparta” pela ferocidade da sua linha atacante e frieza do sector defensivo, eram a equipa a que todos se queriam parecer. Em Alcântara a comparação podia parecer excessiva mas a gesta merecia algo assim. Faltava apenas a cereja no topo do bolo e um duelo apaixonante com o Sporting pelo titulo nacional.

 O mais inesperado campeão de Portugal

A final ficou agendada para o dia 30 de Julho, uma semana depois dos duelos das meias-finais. Devido ao facto de ambas equipas finalistas serem da capital, acordou-se que o jogo seria disputado na zona para evitar os constrangimentos de uma deslocação. O cenário escolhido foi o campo da Palhavã. O Sporting entrou em campo sentindo-se já campeão. Tinham batido o Carcavelinhos com solvência nos duelos disputados no campeonato distrital e no porto de Lisboa esperava-os já o barco que os levaria em digressão pelo Brasil durante o mês de Agosto onde a equipa participaria numa tour a convite do mítico Fluminense, a mais forte equipa carioca à época.

Um replay era impensável para os leões que queriam decidir o jogo cedo. Estavam decididos a por à prova Gabriel Santos, o guarda-redes do Carcavelinhos e um dos principais responsáveis pela memorável campanha na prova. Tiveram as melhores oportunidades na primeira parte mas a sorte – e o talento de Santos – não queria nada com os leões. Foi um ritmo endiabrado com um objectivo concreto, o de resolver cedo o jogo, que teve a sua factura. As pernas começaram a fraquejar cedo o Carcavelinhos começou a impor o seu jogo, abrindo o marcador aos vinte minutos.

O golo de Miguel Rodrigues podia ter deitado abaixo as aspirações dos verde e brancos mas o segundo tempo começou outra vez com maior pressão dos favoritos e depois do empate de Abrantes Mendes, o público começou a suspeitar que, tarde ou cedo, o Sporting resolveria o duelo. Estavam enganados. A tensão competitiva aumentou. Os jogadores do Sporting, nervosos pela necessidade de um eventual jogo de replay, aumentaram a agressividade nas bolas disputadas e os do Carcavelinhos não ficaram atrás. Houve golpes trocados entre jogadores e por momentos o encontro esteve suspenso. Foi o momento em que o Sporting perdeu a final. No reatar dos acontecimentos o Carcavelinhos marcou dois golos quase de rajada, falhando ainda um penalti que podía ter deixado o marcador ainda mais desnivelado. Para espanto geral, o Carcavelinhos era o novo campeão de Portugal.

 A aventura do Atlético de Portugal

A vitória no Campeonato de Portugal de 1928 foi o ponto alto na história do clube.

Nesse mesmo ano o emblema emprestou à comitiva lusa que viajou até Amesterdão para disputar os Jogos Olímpicos o seu primeiro internacional, o defesa Carlos Alves. Foi um torneio memorável para o ainda amador futebol português que marcou o inicio de uma década mágica para o futebolista que se fez popular utilizando luvas pretas, segundo contam, a pedido de uma admiradora. Alves passaria quase incógnito durante largas décadas até que a sua memoria foi resgatada pelo seu neto, o médio João Alves que recuperou a tradição de jogar com luvas negras na década de setenta. Por essa altura o clube que tinha levado à ribalta o seu avô já não existia.

O clube continuou a sua carreira como um dos emblemas mais simpáticos do futebol da capital. Em 1935, com o aparecimento do Campeonato de Liga – o antecessor do torneio da 1 Divisão Nacional – o Carcavelinhos foi enquadrado na segunda divisão, competição que venceu no seu primeiro ano, depois de ter ganho a Poule da zona Sul e de bater o Boavista na final. garantindo a promoção ao campeonato principal onde terminou, sucessivamente, em sétimo, sexto e quarto, a melhor posição da sua história.  Em 1939 voltou a disputar o Campeonato da II Divisão, repetindo triunfo e voltando ao já novo Campeonato da 1´Divisão, competição onde se manteve duas épocas até que o emblema deu lugar, em fusão com União de Lisboa, ao Atlético Clube de Portugal. A herança futebolística de Alcântara e as tardes de futebol na Tapadinha seriam preservadas. A memoria do ano dourado do “Sparta de Alcântara” permaneceria estampada no tempo como a maior gesta de um clube português numa competição nacional.

 

3.210 / Por
  • Um reparo. A expressão “Homens de Belém” que é atribuída ao Carcavelinhos está errada. E mesmo se fosse ao União estaria errada. O campo estava situado nas imediações do que hoje é a Escola Francisco de Arruda. Tem a particularidade de o União ter sido fundado fora de Lisboa (na altura os limites da cidade acabavam na Ribeira de Alcântara).

    O Carcavelinhos sempre foi de Alcântara, o Campo da Tapadinha sempre esteve situado em Alcântara.

    De Santa Maria de Belém é o Belenenses. Ou do Restelo, ou o que quiserem chamar.

    O Carcavelinhos é alcantarense. Chamar-lhes homens de Belém é errado.

    O artigo está bom, pese alguns erros ortográficos (que me parecem de digitação Alcãntara/Alcantâra p. e.) e esse erro. Mas no geral está muito bem conseguido.

    Apenas a título de curiosidade, aqui fica uma foto do Campo da Tapadinha, com o Tejo ao fundo (sem a ponte). Aquele terreno é hoje o Estádio da Tapadinha. http://souatletico.net/blog/wp-content/uploads/campo-da-tapadinha.jpg