Nos anos 90 tornou-se numa das figuras mais emblemáticas da nova escola de pensamento futebolístico em Inglaterra. O seu livro, Football Agains the Enemy, foi pioneiro em olhar para o “beautiful game” da perspectiva de fenómeno global. Mas foi em 2009 que Simon Kuper se tornou uma referência a nível global através do seu  “Soccernomics“, que entre outros, ganhou o prémio de “Financial Times, Book of the Year“. O Futebol Magazine foi falar com ele.

Entrevista com Simon Kuper

Simon, habitualmente utiliza o futebol para ler as entrelinhas da sociedade. Como o mais popular desporto no Mundo é o futebol o espelho certo para captar o reflexo de cada sociedade?

Não é o único espelho mas é um bom espelho. Muitas vezes o futebol é o maior fenómeno colectivo num país. Na esmagadora maioria dos países europeus os programas televisivos de maior audiência são jogos da sua seleção. Portanto, quando Portugal joga um grande desafio, há mais portugueses que se juntam para ver o encontro e sentir a sua nacionalidade do que em qualquer outra circunstância do seu dia a dia. Por isso é muito provável que esse momento diga algo sobre Portugal e os portugueses.

Países mediterrâneos como Portugal, Espanha ou Itália têm uma industria particular à volta das suas ligas. Vários diários desportivos, programas televisivos, uma cobertura mediática grande e com os clubes como eixo central do jogo. No entanto, no norte e centro da Europa, parece haver mais interesse no jogo em si do que propriamente nos fenómenos paralelos do futebol não lhe parece?

Qualquer potência futebolística – e isso inclui a Alemanha, Holanda ou Inglaterra – tem uma grande indústria à volta da sua liga. Mas é verdade que no norte da Europa, num movimento que começou em Inglaterra há cerca de 20 anos, há uma tentativa clara de analisar o jogo à distância e explorar outros aspectos que não apenas os casos mais mediáticos. Provavelmente essa perspectiva começou com All Played Out, um livro de Peter Davis sobre o Mundial de 1990, e logo com o Fever Pitch de Nick Hornby. Esses livros procuram ir mais longe do que um jornal que se limite a perguntar se o Benfica será capaz de bater o Sporting este domingo.

As inovações tácticas foram sempre produto das escolas do centro e norte da Europa. Por outro lado, os “artistas” sempre se encontraram mais facilmente nas ligas do sul. O futebol europeu continua a dividir-se da mesma forma ou a globalização mudou a perspectiva da natureza do jogo?

Naturalmente a globalização do futebol levou a uma estandardização um pouco por todo o lado. Provavelmente em Portugal hoje há menos dribles e mais disciplinas táctica do que há 20 anos. Mas ainda há uma clara divisão. Sociedades mais organizadas como a Europa Ocidental e também o Japão e Estados Unidos tendem a desenvolver um estilo de jogo disciplinado e colectivo enquanto que sociedades menos organizadas como a africana, sul-americana e do sul da Europa prefere um estilo de jogo mais livre. No entanto isso também quer dizer que a maioria dos futebolistas nas sociedades organizadas aprendem o jogo nas escolas dos seus clubes com técnicos formados, enquanto que os das restantes sociedades desenvolvem o seu estilo livro nas ruas.

No seu livro “Soccernomics”, defende que poucos Managers tiveram um efeito real nas performances das suas equipas. Apesar da sociedade em geral os considerar ainda “milagreiros”, para si eles não são realmente relevantes. No entanto a mais significativa figura desportiva dos últimos anos foi um técnico, Pep Guardiola. É uma excepção ou apenas o seu sucesso é apenas produto de um clube com todas as condições para ganhar independentemente de quem o dirige?

Pep é provavelmente um dos poucos treinadores capazes de fazer a diferença. Eu acho que os melhores Managers – como Wenger e Guardiola – conseguem fazer a diferença porque apostam pouco nas transferências. Isso ajuda porque quanto mais se gasta numa transferência menos se tem para pagar os salários do plantel. E o que defendemos no nosso livro é que o verdadeiro critério para determinar o sucesso de um clube é quanto é capaz de gastar com os salários dos jogadores. Por outro lado clubes com poucas incursões no mercado têm sempre equipas estáveis, onde os jogadores se entendem muito melhor no terreno de jogo. O Arsenal e o Barcelona são exemplo disso. O Real Madrid é precisamente o oposto.

No livro que escreve em parceria com Stefan Szymanski, estudam a importância dos salários na classificação final de uma equipa. Equipas mais bem pagas ficam sempre nos primeiros lugares. O futebol é assim tão previsível?

A longo prazo, é. Analisamos 20 anos em Inglaterra e para a ediçao italiana 14 anos de Serie A. Em ambos os casos, se analisamos a média de salários pagos pelas equipas e a média da classificação final de cada um, a correlação entre salários e sucesso é superior a 90%. Ou seja, se a Juventus termina em segundo, digamos, numa media de 14 anos, é porque durante esse período de tempo foi a segunda equipa que mais gastou em salários em Itália. Numa só época, o jogo é menos previsível. Aí a correlação baixa a 70% (o que ainda é significativo), porque num curto período de tempo há outros fatores como lesões, decisões arbitrais e a sorte pura que podem influenciar no resultado final.

Ainda há muitas vozes a defender a criação de uma Superliga Europeia inspirada no modelo da NBA. Acredita que o futuro do futebol europeu é esse ou a tradição e força das ligas nacionais se vai manter como o principal motor futebolístico na Europa?

As ligas nacionais vão existir sempre porque os adeptos adoram-nas. Agora há um equilíbrio comercial bastante grande. O FC Porto joga com o Benfica no domingo e com o Manchester United na quarta-feira. É o melhor dos dois mundos. O que se pode ver é as grandes ligas reduzirem os concorrentes para 16 clubes, para diminuir a carga de jogos. Mas nem isso é provável que suceda.

Havia ainda pessoas que acreditavam que este podia ter sido o “Mundial de África”. No entanto as fracas exibições da maioria das seleções africanas na África do Sul parecem um aviso claro de que o futebol do continente não tem evoluido como esperado

Qualquer equipa podia chegar aos Quartos de Final (como sucedeu com o Gana) mas eu não apostei em nenhuma equipa africana. No livro Football Against the Enemy, em 1993, previ que o futebol africano iria entrar em declínio. O rendimento per capita de um pais prediz, infelizmente, o seu sucesso futebolístico. E o centro do futebol é a Europa ocidental e África está-se a afastar cada vez mais desse eixo e isso vai-se reflectir no jogo das suas equipas.

O futebol sempre foi uma das principais formas dos africanos reforçarem a sua identidade nacional. Mas na sua coluna habitual no Financial Times declara que as pessoas em África estão a desligar-se do seu próprio futebol. Depois de um feito histórico para o futebol africano como é possível que se verifique essa tendência?

Muitos africanos não são tão nacionalistas como nos querem fazer crer. Sofreram também com o processo de globalização. Se estamos na Nigéria e a nossa liga nacional é fraca e a nossa seleção medíocre, e o melhor futebol está na Premier League, é natural que desviemos a nossa atenção para lá. Não acredito que o facto do Mundial ser em África irá mudar algo na forma de vida ou de pensar dos africanos. Se vivêssemos na Nigéria, por exemplo, estaríamos emocionalmente mais ligados aos ingleses ou americanos do que à África do Sul.

Hoje em dia os estádios de futebol tornaram-se grande centros comerciais, repletos de anúncios, com bancadas com nomes de empresas e várias lojas dentro a vender de tudo menos futebol. Com o preço dos bilhetes pelas nuvens, os lugares anuais reservados à classe média-alta, como é que ainda se pode acreditar na história de um adepto que nasce e morre defendendo à morte um clube que muitas vezes nunca viu sequer jogar ao vivo?

Essa é uma ideia que defendemos no nosso último livro. O mito do adepto e do seu amor eterno a um clube foi exagerado. A maioria dos adeptos de futebol sempre foi menos leal do que se diz. Mais consumidores do que a retórica futebolística nos quer vender. Não é só que os adeptos sigam o sucesso. É que procuram clubes onde ir ao estádio é seguro, onde se joga bem, e o mais provável é que sigam mais de um clube. Essa é a verdade. A noção do adepto indefectível de classe operaria não é real. Além do mais é preciso recordar que nos últimos 50 anos a Europa cresceu economicamente e hoje há cada vez mais classe média e cada vez menos classes operárias. E o futebol muda também porque a sociedade está em constante mutação.

Atualmente o futebol pertence aos adeptos ou às empresas?

A ambos!

Quando a FIFA tem vários acordos de longa duração com grandes multinacionais, muitas delas promovendo produtos que não têm nada a ver com o jogo, e com milhões em questão, como se pode ainda acreditar piamente no conceito de “verdade desportiva”. Casos como o da Nike em 1998 são apenas teorias da conspiração ou parte do sub mundo do jogo?

Não sou adepto de teorias da conspiração. No meu ponto de vista, Ronaldo teve um ataque de pânico na véspera da final de 98. Não acho que exista uma conspiração por parte da Nike. Mas o futebol não é “verdade”. É tudo, desde miúdos a jogar no bairro ao Cristiano Ronaldo a marcar em Moscovo para um reclame da Nike. Tudo faz parte do jogo e tudo encontra forma de coexistir.

Noutro do seus livros, Football Agains the Enemy, desenvolve um estudo antropológico da forma como o jogo evoluiu no ultimo século e não relação entre o futebol e a sociedade. As pessoas ainda se lembram de imagem como a da Junta argentina no Mundial de 78. Aceitaria a sociedade, a dia de hoje, organizar provas da importância de um Mundial num país que vivesse uma situação similar?

Claro, basta olhar para as últimas Olimpíadas em Pequim.

Temos por um lado a seleção da Holanda ou da França e vemos o espelho de um mundo globalizado, um verdadeiro melting pot. No entanto, são dois países onde existem mais movimentos sociais contra as minorias étnicas. Como pode um adepto gritar uma vitória da França com um golo de Henry e depois associar-se a esse tipo de movimentos?

As pessoas conseguem sempre diferenciar. Zidane é quase sempre eleito como o homem mais popular de França, e muitos dos que votam nele também são apoiantes de Le Pen. Eu acho que é um truque psicológico. As pessoas pensam “Eu odeio Árabes em geral, mas o árabe que tem uma loja na minha rua e o Zidane parecem ser bons rapazes”. Isso é uma realidade também porque os estereótipos dos europeus em relação aos imigrantes costumam ser as suas apetências naturais para música e desportos, por isso quando têm sucesso nessas áreas não contradizem o que pensam deles. Reforçam a sua ideia pura e simplesmente.

Hoje em dia o jogo é mais táctico do que nunca. Jogadores como Mathews, Garrincha ou os “Registas” italianos estão quase extintos. Os treinadores preferem jogadores musculados capazes de correr quilómetros. Está o jogo a perder a sua magia ou tudo isto é apenas uma evolução natural como foi o WM para os adeptos dos anos 30 e o Futebol Total para os dos anos 70?

Ainda temos Messi, Ronaldinho, Cristiano Ronaldo não? Sim, o jogo está a ficar mais rápido e táctico, mas ao mesmo tempo também se tornou mais técnico.

Valery Lobanovsky disse, poucos anos antes de morrer, que já não havia nada de novo no futebol desde o Futebol Total. Concorda ou acha que o jogo se vai refrescando regularmente?

Refresca-se mas de forma muito lenta. Em 1974 a Holanda surpreendeu o mundo com o Futebol Total. Hoje todos vêm jogos na televisão assim que as inovações tácticas são copiadas muito depressa. Por isso hoje há mais evoluções que revoluções.

Se tiver de explicar aos seus filhos as mudanças da sociedade nas últimas décadas através do futebol, que exemplos escolheria?

Uma pergunta imensa. Dir-lhes-ia que o futebol é o perfeito exemplo da globalização. A grande tendência do futebol da última década é afirmar-se em zonas onde ainda não domina como o Japão, Austrália, Estados Unidos, Canada, China e até mais lentamente, na Índia. A TV por cabo e a Internet juntam as pessoas e estas encontram o futebol. Quando o fazem têm tendência a abraça-lo e fazer dele seu. É esse o futuro.

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