Aos 29 anos pode dizer-se que Tonton Zola-Moukoko passou ao lado de uma carreira histórica. Mas o jogador zairense pode, pelo menos, dormir com a consciência tranquila. Se no relvado não conseguiu brilhar ao nível que muitos imaginavam, no universo virtual ele é provavelmente o maior futebolista africano da história.

O maior jogador africano de sempre?

Que seria da história do futebol africano se todos os sonhos virtuais se tornassem realidade. Hoje, talvez, em vez da comunidade internacional discutir os méritos de Lionel Messi ou Cristiano Ronaldo, falar-se-ia do génio superlativo de um futebolista que redefiniu a natureza do jogador africano. Melhor do que Weah, melhor do que Madjer, melhor do que Keita, melhor do que Mekhloufi, melhor até mesmo que Eusébio. Um futebolista capaz de marcar uma era, vencer Champions Leagues com clubes de segundo nível e de vencer, ano sim ano também, os mais prestigiosos prémios individuais internacionais, leia-se, Ballon D´Or.

Se os sonhos virtuais tivessem sentido, Tonton Zoula-Moukoko estaria para o futebol africano como Nelson Mandela está para os seus políticos. Um exemplo único e absolutamente inimitável. Mas a realidade é, habitualmente, mais dura que a ficção. Não houve finais de Champions League, não houve prémios individuais e não houve sequer essa odiosa comparação com os heróis do passado. O maior futebolista africano de todos os tempos nunca esteve perto de o ser e os homens que realizaram a audácia previsão sobre o futuro de Zoula-Moukoko enganaram-se tanto que acabaram por fazer dela uma estrela involuntária dos nossos tempos.

Estrela antes do tempo

Claro que a história de Zoula-Moukoko é um sinal dos tempos, uma era onde o virtual ganha cada vez mais importância na vida quotidiana.

O jovem jogador do Zaire hoje é um veterano consagrado do futebol escandinavo.

Aliás, apesar de ser fisicamente um exemplo do futebolista do continente negro, como tantos emigrantes, Moukoko viveu muito pouco na sua terra natal. Aos sete anos seguiu com a família para a Suécia onde cresceu e viveu a maioria da sua etapa como futebolista profissional. Ao contrário de outros casos mediáticos, como Tó Madeira ou Maxym Tsigalko, o avançado formado nas escolas do Djurdgarden era visto por uma larga maioria de observadores de futebol nórdico como uma imensa promessa.

Tinha talento, tinha conceitos tácticos assimilados a uma idade bastante precoce e parecia ter também o fundamental, a cabeça no sítio, para enfrentar as exigências do futebol profissional. Em 1998, quando cumpriu 15 anos, foi-lhe outorgada a nacionalidade sueca e no dia seguinte foi convocado pelo selecionador sub-16 do país. A sua popularidade era tal que Moukoko foi convidado a treinar com vários clubes italianos no Verão de 1999. Acabou por preferir viajar até Inglaterra e assinou pelo Derby County. E começou a dar nas vistas ao serviço da formação sub-19 da equipa a tal ponto que muitos viam nele o sucessor de Henrik Larsson, então uma das grandes estrelas do futebol sueco e também de ascendência africana.

Foi rodeado de todo esse ruído mediático que saiu, em 2001, a nova versão do popular jogo Championship Manager. Naturalmente a equipa de olheiros contratada pela Sports Interactive seguiu o jogador durante o seu primeiro ano em Inglaterra e pareceu chegar à conclusão de que o potencial para ser uma estrela mundial era real. Não era um relatório de um observador na Europa de Leste nem uma invenção de um estudante português. Era algo fácil de observar, semanalmente, por quem geria o jogo. E automaticamente Zoula-Moukoko tornou-se numa estrela.

Na edição desse jogo surgiu como uma referência mundial. Começava com 17 anos a temporada e aos três anos já ombreava com os melhores do Mundo em cifras goleadoras e em valor monetário. Estivesse o jogador no Brasil, na Coreia do Sul, no Canadá ou em Portugal, o resultado era mesmo. Comprar o avançado do Derby era comprar um passaporte para a fama.

A insustentável pressão mediática

O seu caso acabou por ser o outro lado do espelho da realidade virtual dos jogos de simulação. Zoula-Moukoko podia ter sido tudo aquilo que os gestores da saga acreditavam que ia ser. Mas não foi.

A pressão, talvez, tornou-se no seu pior inimigo. Quando era ainda um adolescente, a actuar pela equipa de reservas do Derby, as bancadas do Baseball Ground enchiam-se com cartazes da sua imensa legião de admiradores. Nos princípios da era mais global da internet, o seu nome tornou-se popular nos motores de busca, em fóruns. Tudo isso sem que o sueco tivesse sequer feito o seu primeiro jogo oficial com os Rams. A situação tornou-se descontrolada. Começaram a surgir rumores de problemas pessoais, de adições difíceis de controlar, de uma profunda incapacidade do jovem em lidar com uma realidade que o ultrapassava.

O Derby contratou um psicólogo para o acompanhar, tentou focá-lo nos estudos e pediu ajuda à família que voou até à cidade para se hospedar com o jogador numa casa do clube. Nada disso pareceu funcionar. Sem ter feito um só encontro como profissional, Moukoko partiu de Inglaterra envolto numa aura de mistério. Enquanto isso, o seu alter-ego virtual, preenchia os sonhos da maioria dos adolescentes do Mundo.

A partir desse momento a carreira de Moukoko caiu em picado. Ou talvez é melhor dizer que nunca começou realmente. O jogador voltou primeiro à Suécia, provou o futebol escocês, mas tudo sem sucesso. Com 20 anos, ainda com tempo para provar o seu real valor, assinou com o Carlstad, um clube da segunda divisão sueca com ligações ao selecionador inglês Sven-Goren Eriksson. Seria como começar do zero.

Vitima de uma era de imediatismo mediático

A evolução mediática do jogo Championship Manager tinha significado que nos anos seguintes outros “Zoula-Moukoko” tinham aparecido nas suas sucessivas bases de dados, mas por algum motivo concreto, o seu valor continuava em alta e havia sempre quem acreditasse que, tarde ou cedo, o seu talento iria explodir. Isso nunca sucedeu.

Passagens por outros clubes secundários do futebol sueco levaram-no à liga da Finlândia, onde ainda hoje joga. Nunca voltou a representar a seleção da Suécia, nunca foi chamado pelo Zaire para jogar pela terra dos seus pais e nunca mais voltou a ser noticia de jornal. O esquecimento seria o seu destino se não fosse a popularidade imensa de um jogo que se tornou em objecto de culto dentro de uma saga extremamente popular.

Zoula-Moukoko continua a ser um dos exemplos mais crus de como a expectação à volta de um jogador juvenil pode condicionar o seu futuro como futebolista. Ninguém pode dizer que aqueles que previram o seu futuro como maior futebolista africano da história estavam errados. Mas também nunca ninguém pensou que viver com esse peso antes de ser, realmente, um jogador de excelência, fosse a melhor forma de o condenar a um final precipitado e angustioso.

3.749 / Por
  • Joao

    Como este, que desconhecia, houve muitos, sáo assim para ver em Portugal lembro-me do Fabio Paim e do Zé Mário, foi craques que aos 17 anos eram titulares em praticamente todos os clubes.
    Um andou perdido por inúmeros clubes nacionais e estrangeiros (Paim) o outro nunca sequer ouvi falar fora do jogo.

    Mas existiram outros, quem não se lembra do famoso Orri Freyr Óskarsson, o super goleador do CM 03/04, o homem marcava 5 golos por jogo, com a famosa táctica “Diablo”.

    Ou o “extreminador Bulgaro” Anatoli Todorov, super máquina de fazer golos.

    Ou do super polivalente Niclás Alexandersson que era capaz de jogar em todas as posições do campo (assim como Luis Enrique, mas este foi mesmo craque).

    O FM/CM está rodeado de estrelas que nunca chegaram a brilhar mas que no jogo eram capazes de levar o Tondela a vencer a Champions ao fim de meia dúzia de anos.

    • Miguel Lourenço Pereira

      João,

      É verdade, há sempre um risco em prever o futuro. Se no caso do Tó Madeira há uma invenção e no de Tsigalko (e alguns jogadores da Europa de Leste) uma excessiva dependência de “olheiros” que não acabaram por ser muito imparciais, o Moloko era um jogador realmente referenciado pelos grandes da Europa e o problema não esteve com o seu talento mas sim com a sua cabeça, como acabou por passar com o Fábio Paim e tantos, tantos outros.