Na era onde a internet era ainda para muitos um enigma custava muito mais adivinhar o futuro. Num mundo do futebol sem jogos via streaming de todo o mundo poucas referências sobre jogadores de ligas desconhecidas era tidas tão em conta como a base de dados do jogo Championship Manager. Por isso, quando o jogo praticamente anunciou que a próxima estrela goleadora era islandesa ninguém duvidou. A verdade provou ser muito diferente e Andri Sigþórsson foi mesmo o herói que a Islândia nunca teve.

O impacto da saga FM

Enquanto a Islândia se prepara para celebrar a sua primeira participação num torneio internacional muitos ainda se perguntam como um país tão pequeno com um futebol tão residual é capaz de marcar presença num torneio de elite continental. Para aqueles que cresceram a conhecer o futebol mundial através dos olhos do jogo de simulação Championship Manager, no entanto, a pergunta é outra: como não aconteceu antes?

Nos últimos vinte e cinco anos o fenómeno CM/FM (a designação Football Manager a meados dos anos 2000 por uma cisão empresarial) revolucionou como conhecemos o futebol internacional. Numa era onde raramente se podiam ver jogos de países estrangeiros salvo por quem podia apanhar sinal por satélite, só as competições europeias e torneios internacionais de seleções traziam caras novas ao adepto. Mesmo a aparição da pay-per-view trazia consigo um pack limitado de ligas continentais.

O conhecimento dos jogadores dos principais campeonato europeus aumentou mas as ligas periféricas ou o futebol de formação eram um enorme enigma reforçado pela ausência de uma internet com a difusão atual, um mundo sem Wikipédia, sem equipas de análise estatística como o grupo Opta ou sem as conexões por streaming para os derbis regionais dos Balcãs. Em suma, o adepto do futebol vivia no escuro salvo por uma base de dados que era considera como tão certeira que poucos se atreviam a questionar. Os tentáculos que davam forma ao jogo Championship Manager não eram perfeitos mas nada se aproximava tanto da realidade e tendo em conta que muitas das previsões falhavam não por culpa da database mas sim por fatores externos difíceis de quantificar, a fidelidade era absoluta. Em 1999 a empresa Sports Interactive lançou ao mercado a versão CM3 do seu jogo. Vários futebolistas míticos surgiram então na vida dos que a utilizavam por motivos lúdicos e profissionais. Muitos deles deram razão aos designers do jogo e converteram-se em estrelas mundiais. Outros fracassaram estrepitosamente. Poucos deram tanto a sensação de desencanto como Andri Sigþórsson, o génio do golo que vinha do gelo para dominar os anos 2000 do futebol.

O Odegaard dos anos noventa

Sigþórsson não era Tó Madeira ou Freddy Adu. Se o primeiro era um produto de ficção real por parte de um elemento do scouting português e o segundo um produto de marketing pre-concebido nos Estados Unidos, Sigþórsson era, realmente, um jovem referenciado por todos os clubes da elite europeia com apenas 15 anos.

Nascido a 25 de Março de 1977, começou desde muito novo a jogar na formação do modesto KR de Reikjavik, estreando-se de imediato pela seleção sub16 islandesa em 1992. Chamou de tal forma à atenção que teve em casa emissários de clubes ingleses, holandeses e alemães interessados em fazer-se com os seus serviços. Não era uma decisão fácil mas Sigþórsson parecia ser, realmente, para todas essas equipas, uma garantia de futuro inquestionável. A escolha recaiu, por indicação do pai do jogador, no Bayern Munich. Com 16 anos o islandês mudou-se para a capital bávara para seguir a sua formação com a segunda equipa dos alemães. Hoje a mudança teria tido um impacto similar à que teve a de Odegaard para o Real Madrid mas nos anos noventa ninguém ligava em absoluto às transferências de adolescentes com idade de juvenil e o nome de Sigþórsson continuou apenas debaixo do radar dos especialistas.

Foram esses que compilaram nos anos seguintes os relatórios para a equipa Championship Manager seguindo a projeção do adolescente com a sua nova equipa e os escalões de formação da Islândia. Sigþórsson demonstrava ser um prolifero goleador mas algo parecia falhar. A experiência alemã durou apenas dois anos e o jogador voltou ao futebol islandês em 1995. Aí explodiu definitivamente. Com a camisola do KR de novo ao peito, marcou quase 40 golos em três anos – 14 golos em 14 jogos na primeira temporada como profissional – e tornou-se internacional absoluto. Em 2000 foi o melhor marcador da liga local – 14 golos em 16 jogos, ajudando a equipa a revalidar o título do ano anterior – e voltou a chamar à atenção os olheiros europeus. Desta vez o destino foi o futebol austríaco e o FK Salzburg – o clube que gerou o RedBull Salzburg anos depois – apostou forte nele. Parecia ter boas razões para isso. Nessa altura toda a gente conhecia o nome de Sigþórsson graças ao êxito mundial do jogo CM3.

O jogo virtual perfeito

A versão CM3 saiu ao mercado em 1999 e transformou-se de imediato num jogo de culto, um dos maiores sucessos mundiais da industria dos videojogos de futebol. Por essa altura clubes já consultavam a base de dados e profissionais do meio – jogadores e técnicos – a utilizavam por motivos que iam desde a desconexão profissional ao estudo aprofundado de rivais. Muitos futuros treinadores, então futebolistas profissionais, começaram a sua formação com um exemplar em cd do jogo nas mãos. E nessa versão em concreto o nome a contratar era Sigþórsson.

A equipa da Sports Interactive concedeu ao jovem islandês de 21 anos a nota mais alta possível, um valor potencial de 200 (as notas eram dadas de 0 a 200) o que significava, na prática do jogo, que Sigþórsson podia converter-se no novo Pelé. Inspirado nos relatórios enviados desde os olheiros nórdicos e alemães, havia a genuína confiança de que Sigþórssonseria uma estrela. Nas classificações de habilidades – dadas de 0 a 20 – o futebolista tinha 20 em coragem, drible, estilo, ritmo, trabalho colectivo e resistência e 19 em aceleração, equilíbrio e técnica. Ironicamente, para um goleador, contava apenas com 10 a finalização mas a combinação matemática de todas as estatísticas atribuídas tornavam-no num avançado letal. O facto de estar ainda na liga islandesa – com um preço módico para um jogo onde as finanças contavam muito – fazia-o ainda mais apetecível já que todos o podiam contratar. Sigþórsson passou a ser a palavra de código para triunfar no jogo.

Cada simulação com o futebolista na equipa significava quase sempre êxito e para o futebol islandês um maná. Com Sigþórsson a seleção nacional islandesa não só abandonava o poço mediático se não que passava inclusive a vencer Europeus e Mundiais com total naturalidade. A história do jogo de simulação no entanto – como tantas vezes sucedeu com outras personagens – chocou de frente com a realidade.

Um apelido com história

Sigþórsson passou quase sem pena e glória pelo futebol austríaco e no Molde norueguês teve um pouco mais de sorte mas nada que se aproximasse à expectativa que sempre gerava. De tal forma que a certo momento o jogo parecia ter-se transformado numa maldição. Todos esperavam sempre mais. Em 2004 a situação agravou-se. Sigþórsson sofreu uma dura leão no joelho direito num jogo com o Molde. A recuperação prometia ser dura e o jogador estalou definitivamente. Nunca iria ser o que esperavam dele e agora era o corpo que lhe mandava um forte sinal. Com 26 anos, o futebolista que podia ter sido, na realidade virtual, o novo Pelé decidiu colocar um ponto final na carreira e empreender um negócio famíliar silenciosamente na cidade norueguesa. Para o futebol islandês parecia perder-se a última oportunidade glória. No entanto o destino tem as suas ironias. Se Andri Sigþórsson não foi a estrela que a Islândia necessitava para conquistar o mundo, isso não impediu que o apelido permanecesse no ativo.

Inspirado na popularidade do irmão, Kolbeinn foi escalando lugares na formação local até que foi contratado pelo AZ Alkmaar para anos depois assinar pelo Ajax de Amesterdão – um dos clubes interessados em 1994 em Andi – para a sua escola de formação. Sem nunca ter chegado ao nível mediático do herói da saga CM, Kolbeinn foi bastante mais bem sucedido em campo e depois de vários anos com os Ajaccied mudou-se para Nantes. O que no entanto torna a história de Kolbeinn singular é que ele sim tomou parte na maior gesta da história do futebol islandês, o apuramento para o Euro 2016. Quinze anos depois, afinal de contas, o apelido Sigþórsson cumpriu o sonho de tantos islandeses. O nome próprio pode ser diferente, mas a lenda mantém-se!

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