Um país dentro de um país com nostalgia de um país que já não existe. Em poucas palavras se podia resumir a vida na Transnitria, uma república fictícia que o mundo conhece apenas graças às gestas do seu maior símbolo, o Sheriff Tiraspol.

O campeão de um pais que não existe

Atravessando a fronteira que separa a Moldávia da república separatista da Transnitria, ativa-se uma máquina do tempo única que nos leva trinta anos atrás no tempo, aos dias do velho império soviético. Pelas ruas de Tiraspol, a capital de este auto-proclamado país que ninguém reconhece, tudo gira em torno da velha nostalgia soviética. Há estátuas e bustos de Marx, Lenin e Estalin, bandeiras com o velho distintivo da foice e do martelo e entre a população parecemos reconhecer os rostos de tantas e tantas cassetes velhas desses dias a preto e branco. O mundo parou nesta tira de terra no leste europeu e ninguém pareceu dar-se conta. A Moldávia, ela própria uma república cobiçada historicamente por ucranianos e romenos, não consegue impor aqui a sua lei. O auto-proclamado país tem fronteiras que defende militarmente, controlo fronteiriço que obriga os visitantes a viajar debaixo de um aperto controlo e com hora de saída marcada e uma moeda própria. Nada disto seria sequer conhecido do resto do mundo se não fosse pelo futebol. O milagre da existência da Transnitria só se tornou popular quando o seu único clube, o Sheriff Tiraspol, apareceu na alta roda do futebol europeu. Em poucas ocasiões a união emocional entre o futebol e a defesa de uma noção de pátria fez tanto sentido.

A ascensão do império Sheriff

Fundado em 1997 por um antigo agente do KGB transformado em empresário de segurança privada, o Sheriff Tiraspol é historicamente um caso de estudo curioso. Joga defendendo as cores de um país que não existe dominando a liga de um país que não reconhece. A Moldávia e a Transnitria não se reconhecem politicamente mas há uma forma ortodoxa de irem sobrevivendo lado a lado. Uma delas é a presença do Sheriff na liga moldava de futebol. O clube começou a sua aventura em 1998 na segunda divisão mas desde 2001 que a sua hegemonia sobre o futebol do país é total criando um vazio emocional tremendo. Os restantes clubes e adeptos moldavos têm de suportar como um grupo abertamente separatista os humilha ano atrás de ano. Em 1999 o Sheriff – o nome vem da empresa de segurança do seu fundador, Viktor Gusan, que hoje controla quase toda a atividade económica da república da Transnitria – venceu a taça do país pela primeira vez. O que parecia ser uma anedota tornou-se dois anos depois num pesadelo quando a equipa conquistou o primeiro titulo de campeão nacional moldavo. Foi o primeiro de dez títulos conquistados de forma consecutiva, até que o Dacia Chisinau interrompeu uma série que foi, entretanto, reiniciada sem contestação.

Nos últimos quinze anos o clube apenas perdeu um titulo e cinco taças exibindo um dos melhores palmarés do futebol europeu. Tudo isso graças ao enorme investimento financeiro de Gusan no clube com a construção de infra-estruturas de primeiro nível e a contratação de vários jogadores brasileiros e africanos de tal forma que muitos debatem que o seu modelo de negócio, em muito similar ao dos vizinhos ucranianos do Shaktar Donetsk, os transforma numa das equipas mais competitivas do leste europeu. É no entanto no mundo das competições europeias que a história do Sheriff se tem escrito no palco internacional. Apesar das constantes  tentativas a equipa ainda não alcançou a fase de grupos da Champions League tendo no entanto marcado presença na mesma fase regular da Europa League, o primeiro emblema moldava a lográ-lo até hoje. É no entanto o desejo de emular vizinhos da antiga URSS como os campeões ucranianos, bielorrusos e lituanos que realmente se transformou no motor de existência do clube.

 O sonho de uma nova liga soviética

Uma das principais obsessões do governo da Transnitria é o desejo de voltar a formar parte de uma União Soviética com o reagrupamento num só estado das antigas repúblicas soviéticas. O Sheriff Tiraspol, como todos os elementos políticos da nação, tem sido utilizado como arma de propaganda e em diversas ocasiões o clube fez saber que não via nada mal a criação de um campeonato nacional que incluísse os principais emblemas da Ucrânia, Moldavia, Bielorrusia, Geórgia, Arménia, Azerbeijão e estados bálticos em conjunto com a liga russa. Muitos acreditam que a qualidade das infra-estruturas e do trabalho desenvolvido na última década permitiria ao Sheriff sobreviver com tranquilidade nesse lago de tubarões de leste. É um cenário utópico até para um clube que consegue o feito único de ganhar a liga de um país que oficialmente não é capaz de reconhecer mas lutar por ser um dos mais fortes emblemas fora do estado russo mas dentro da herança soviética é algo que alimenta a ilusão de Viktor Gusan e dos fanáticos adeptos do Sheriff.

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