Shearer e Le Tissier, dois leões em Southampton

O The Dell brilhava com luz própria. Num dos estádios mais icónicos do velho futebol inglês, duas futuras lendas do jogo deram os primeiros passos lado a lado criando uma dupla adolescente letal que antecipava o que ambos seriam capazes de fazer ao longo da primeira década da Premier League. Crias de leão em Southampton, por uns anos Alan Shearer e Mathew Le Tissier foram uma das duplas mais letais do futebol inglês.

A dupla mais improvável do futebol inglês

A 26 de Março de 1988 Stanford Bridge foi testemunha da estreia daquele que é, provavelmente, o último grande avançado de uma larga linhagem de dianteiros goleadores britânicos. Nem Robbie Fowler, Michael Owen, Wayne Rooney ou Harry Kane, os seus mais mediáticos e ilustres sucessores, podem reclamar estar ao mesmo nível que um jovem do norte de Inglaterra que foi forçado muito cedo a rumar ao sul para ser alguém no mundo do futebol, no que na relação com o golo diz respeito. Shearer, Alan de nome próprio, subiu ao relvado do Chelsea nessa tarde num jogo onde pouco havia mais do que fazer do que lamber feridas.

Quinze dias depois, no entanto, as coisas foram diferentes. O Southampton recebia em casa, no velho e mítico The Dell, o todo poderoso Arsenal, um dos mais sérios candidatos a lutar contra os dois grandes de Liverpool pelo título da antiga First Division. O campeonato mergulhava na recta final e a antecipação do encontro era tremenda. Wallace, o avançado habitualmente titular, estava descartado por lesão e o treinador Chris Nicoll sabia que para acompanhar a sua jovem estrela apenas podia contar com um adolescente que estava a dar os seus primeiros passos no futebol profissional, ainda com um contrato mensal de formação. Era um risco, um risco que tinha de correr. Do nada, sem avisar, Shearer rompeu todos os esquemas e deu-lhe razão. O público dos Saints tinha vindo ao seu templo para ver a jovem e cintilante estrela que se tinha estreado dois anos antes e que muitos começavam já a chamar de “Maradona do Dell”, um tal Le Tissier, de nome Mathew, mas nessa tarde depararam-se com outro cometa, nada fugaz.

Em cinquenta minutos Alan Shearer anotou três dos quatro golos que deram a vitória aos locais por um enfático 4-2. Com 17 anos e 240 dias converteu-se num dos mais precoces goleadores da história do futebol inglês, um dos primeiros a anotar um hat-trick sem ter sequer alcançado a maioridade. Le Tissier, autor de dois passos de golo e apenas com dois anos mais no bilhete de identidade, era testemunha privilegiada de um momento histórico. O mais talentoso e o mais letal futebolista inglês da mesma geração tinham finalmente cruzado os seus caminhos. Nesse 9 de Abril não nasceu uma estrela. Nesse 9 de Abril juntos, brilharam, por primeira vez, duas estrelas que tiveram vidas paralelas mas que durante breves momentos pareceram caminhar juntos.

Le Tissier e Shearer, reis no The Dell

Le Tissier tinha chegado à primeira equipa do Southampton apenas dois anos antes, em 1986. O clube do sul de Inglaterra tinha sido uma das grandes referências mediáticas na primeira metade dos anos oitenta por contratar vários veteranos célebres para atacar um título que nunca chegou, com Kevin Keegan à cabeça. A depressão depois da aposta falhada foi tremenda e fez-se sobretudo sentir nas contas do clube que de pagar salários milionários foi forçado a recorrer à sua formação, uma tradição que tem mantido até hoje.

Nessa primeira geração de jovens promessas formadas localmente estavam o guarda-redes Tim Flowers – mais tarde internacional inglês – e também Neil Madisson, Jeff Kenna, Frank Benati e os irmãos Wallace. Mas era um jovem da vizinha ilha de Guernsey que realmente chamava à atenção. O talento técnico absoluto de Le Tissier era uma dádiva dos céus e rapidamente o clube se entregou ao seu génio intermitente. Durante dois anos, ainda um adolescente, Le Tiss converteu-se na referência emocional de um renascido Southampton, mas a sua cabeça nunca seguiu verdadeiramente o seu talento e a falta de força de vontade acabou por custar-lhe caro. Shearer era, nesse sentido, exactamente o oposto. Filho de Newcastle, foi dispensado do clube do seu coração e com apenas 16 anos decidiu cruzar toda a Inglaterra para provar sorte com os Saints. Dez anos depois o seu clube de sempre iria quebrar o recorde inglês para o ter de volta, quando Shearer era já indiscutivelmente o maior goleador do futebol britânico. Fisicamente possante, com um apetite voraz pelo golo, Shearer era o profissionalismo encarnado. Em campo o seu espírito completava perfeitamente o de Le Tissier. Onde um colocava o engenho o outro aplicava a força. Onde um sacava passes e remates tecnicamente impossíveis o outro aplicava a fórmula mais letal de superar os rivais, fossem defesas ou guarda-redes.

A ascensão meteórica de Shearer, acompanhada do amadurecimento de Le Tissier, transformaram o The Dell num dos estádios de moda do final dos anos oitenta e o Southampton num clube a seguir. Foi assim durante quatro anos em que os títulos nunca chegaram mas as exibições lendários ficaram para a história e a parceria entre os dois dianteiros fez escola, criando, juntamente com Wallace, um tridente de ataque temido e brilhante. Era no entanto a inconstância goleadora dos três – que pareciam combinar como poucos mas a quem faltava ainda a maturidade das grandes noites – que acabava sempre por deixar uma sensação agridoce. Le Tissier era capaz de marcar o golo do ano mas as suas cifras totais eram escassas. Shearer ia crescendo como goleador mas a sua idade convidava mais à paciência. Mas a dupla parecia encaixar. Em 1990 Le Tissier foi o melhor marcador da First Division com 20 golos levando os Saints ao seu melhor resultado – o sétimo lugar – num lustro.

No ano seguinte foi Shearer o avançado destacado da dupla, com 15 golos a seu nome e ambos foram votados, consecutivamente, Jovem Jogador do Ano. Ao mesmo tempo ambos progressavam na sua carreira internacional como membros da equipa sub 21 britânica e depois de brilhar em 1991 no célebre torneio de Toulon, Shearer foi pela primeira vez convocado, com 21 anos, para a selecção principal por Graham Taylor. Le Tissier teve de esperar três anos pela sua primeira convocatória. Nesse hiato de tempo as opções de cada um revelaram ser a chave do seu futuro profissional.

As vidas paralelas de dois leões

A afecção de Le Tiss pela vida nocturna dos pubs de Southampton era conhecida por todos e o seu desleixo físico também. O talento genuíno que o acompanhava não encontrava eco na sua dedicação. No The Dell era já uma divindade, “Le God”, mas fora desse circuito os restantes clubes ingleses olhavam para ele com suspeita e os sucessivos seleccionador britânicos, ao testemunhar as suas rotinas diárias e gestos, entendiam que jogava a outra coisa. Ao contrário Shearer vivia de e para o futebol, uma vida regrada, doméstica e focada absolutamente ao treino e à preparação física e só assim conseguiu sobreviver em 1994 a uma terrível lesão de ligamentos que podia ter acabado com a sua carreira e surgir mais forte do que nunca.

Em 1992, dois anos antes, os caminhos de Mathew e Alan finalmente se separaram. O Southampton, clube historicamente vendedor, resistiu durante dois anos ao acosso de Manchester United e Liverpool pelos serviços do jovem avançado mas quando o milionário Jack Walker decidiu fazer do seu Blackburn Rovers uma versão doméstica do que seria, uma década depois, o Chelsea de Roman Abramovich, não havia forma de dizer que não e após participar no Europeu de 1992, sem pena nem glória, Shearer mudou-se para Ewood Road onde foi fundamental para a conquista do título dos Rovers em 1994/95, com Kenny Dalglish ao comando. Foi o primeiro e também o único título logrado por um avançado lendário que tinha recusado assinar pelo Manchester United para acabar nos Rovers. A sua decisão teve efeitos colaterais históricos não só porque Old Trafford não disfrutou do mito goleador que foi Shearer se não porque o seu substituto nos planos de Alex Ferguson, Dion Dublin, rapidamente se lesionou o que fez o escocês avançar para a contratação de um tal…Eric Cantona. As voltas que a vida dá.

Shearer acabou mais tarde por abraçar outro projecto ambicioso e desta vez com um toque emocional, o regresso a casa, a Newcastle, o clube que aos 15 anos não o quis fazendo com que fosse forçado a tentar a sua sorte a sul. Nunca mais saiu de St. Jame´s Park mas viveu mais momentos agoniantes que celebrações, tal como as suas experiências com a camisola inglesa, tanto nos Europeus de 1996 e 2000 como no Mundial de França. Torneios a que Le Tissier não assistiu apesar de ser precisamente esse período de tempo o que o consagrou como Lenda da Premier League, superando em 1994 o seu melhor registo goleador e logrando tanto em 1996, 1998 e 2000 alguns dos melhores golos da história do futebol, dignos de figuras em museus de todo o mundo. Nem a sua tocante devoção ás cores do clube que o viu nascer nem as suas brilhantes – ainda que pontuais – exibições serviram para Terry Venables, Glenn Hoddle e Keevin Keegan confiarem nele mais do que num par de jogos pontuais. O mais talentoso jogador britânico da sua geração não alcançou a dezena de jogos internacionais por oposição ao seu grande amigo que chegou a levar ao ombro a braçadeira de capitão dos Pross. O destino tinha-os enviado por vias distintas e se Shearer foi aclamado como poucos no seu tempo como profissional a Le Tissier parece que lhe estava guardado um reconhecimento posterior à sua emocional retirada dos campos. O certo é que ambos fazem parte da história do futebol e os primeiros passos que deram juntos, nesses quatro anos inesquecíveis, foram fundamentais para as suas vidas, carreiras e para aqueles que puderam ser testemunhas de como duas jovens crias de leão davam os primeiros passos para converter-se em mitos vivos do beautiful game.

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