Hoje em dia um videojogo de futebol para conquistar o público tem de ser perfeito até ao último detalhe do equipamento. Há vinte anos triunfava o jogo mais divertido. O fenómeno de culto criado à volta de Sensible Soccer, uma das mais bem-sucedidas simulações de futebol, é também uma das formas de homenagear a filosofia da simplicidade.

O universo Sensi

Televisão ligada, consola conectada, horas perdidas, horas de diversão absoluta.

A chuva lá fora podia ser driblada para os que tinham em casa uma Amiga, Atari ou MegaDrive. Bastava juntar ao aparato o jogo de moda, e a tarde estava decidida. Não havia concorrência à altura de corridas sem fim, passes impossíveis, remates de cabeça acrobáticos e equipas editadas e reeditadas para dar um toque de realismo à fantasia. Uma geração viveu à sombra deste sucesso omnipresente do universo dos videojogos que foi a saga Sensible Soccer.

Um jogo de culto que ainda hoje persiste, no seu formato para PC e na versão Arcade, disponível na consola da Microsoft, e que desafia todas as convenções que hoje definem um grande jogo dedicado ao futebol. Onde a saga FIFA é realismo em nomes, equipamentos, emblemas e estádios, onde o modelo Pro Evolution procura levar ao extremo o conceito de jogabilidade, aqueles que perdiam (ganhavam) horas desfrutando do Sensible Soccer original e dos seus sucessores, sabiam que não iam encontrar nada mais do que um simples mas viciante divertimento.

Se a série Sensi não sobreviveu ao apetite das novas gerações pela perfeição absoluta, pelos gráficos ousados, permaneceu como um objecto de culto para muitos, incluindo uma banda musical, que viveu o prazer de desafiar todos os amigos do bairro com um comando ou joystick nas mãos.

O triunfo do minimalismo

Em 1992 a Sensible Software lançou ao mercado a saga Sensible Soccer.

Há mais de uma década que os jogos de futebol existiam tanto para utilização em consolas como em computadores. O jogo saiu nos dois formatos, mas as versões de maior sucesso estavam optimizadas para as populares Amiga e MegaDrive.

Entre as vantagens do jogo face aos seus (muitos) concorrentes da época, estava a possibilidade de edição de todos os dados armazenados. O jogo partia com equipas e jogadores falsos mas algumas horas dedicadas a corrigir a ficção em realidade podiam proporcionar jogos perfeitamente atualizados. Começou como um projeto de 8 bit (a partir do sucesso Microprose Soccer, da mesma produtora) e passou progressivamente aos 16-bit,  mas a sua mais valia partia sobretudo da utilização de uma visão de pássaro (o jogo visto desde o céu), contrariando o esquema habitual do jogo lateral comum a outros videojogos como Matchday ou European Club Soccer, evitando assim a utilização do habitual radar.

Isso provocava, praticamente, que todos os gráficos fossem apenas uma soma perceptível de pixels, sem tempo para adivinhar as especificidades dos equipamentos, rostos e penteados, mas capaz de oferecer um maior espaço de visão do terreno de jogo fundamental para a sua dinâmica jogabilidade, sempre com o mesmo botão, tanto para rematar e passar como para cortar a bola. O minimalismo e a simplicidade gráfica nunca voltaram a estar tão na moda.

A forma de jogar era a sua grande arma face à concorrência.

Até ao aparecimento de Sensible Soccer, a maioria dos jogos de computador ou consola dedicados ao futebol inspiravam-se praticamente no kick-and-rush. Pontapés largos entre jogadores, bola sempre em linha vertical, procura imediata do golo e assim, num ciclo interminável. Com Sensi o futebol passou a ser mais horizontal, o passe no meio-campo tornou-se tão importante como o lançamento longo e para além de marcar, o jogador tinha de saber manter a posse de bola o máximo de tempo possível, utilizando o complexo sistema de controlo, uma novidade incrível para a época. O tiki-taka dos videojogos.

O regresso nostálgico

O sucesso do jogo não se ficava por aí. Cânticos inovadores, celebrações originais, cartões (algo que poucos jogos utilizavam até à época), e até versão repletas de momentos de inesperado humor como explosões no relvado. O sucesso do jogo inaugural foi seguido por novas atualizações, mudando o nome para Sensible World Soccer, mas quando a meio da década o aparecimento de novas consolas como a Playstation e Sega Saturn deixaram claro que o caminho escolhido para a indústria seguia uma linha de aperfeiçoamento de gráficos e maior detalhe, o jogo foi perdendo importância e o seu lugar no mercado. O final da era 2D, e com ela o mercado dos 16bit, que o jogo tinha liderado comodamente, significou uma difícil passagem para a era 3D que acabou por provocar o fim da marca e de consolas como a Amiga, talvez aquela que melhor soube explorar as potencialidades da saga.

Durante quase uma década Sensible Soccer seguiu no anonimato, enquanto a indústria dos videojogos, outrora a fervilhar de distintos concorrentes, se concentrava na luta entre Fifa e Pro Evolution Soccer. No entanto, como tem sido habitual, a chegada da jovem geração que cresceu com o jogo nos anos 90 à idade adulta, permitiu um regresso nostálgico do mundo Sensi à primeira página.

Sites criados especificamente para torneios online, versões do jogo que ainda podem ser utilizadas tanto em PC como na Xbox, garantem que o modelo Sensible Soccer pode não ser o mais atual e o mais perfeito, mas a sua simplicidade continua a ser a principal razão porque é um dos maiores jogos de culto da história dos videojogos.

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