San Felipe, o clube fantasma do Chile

Se fossemos a analisar apenas o nome dos jogadores que já passaram pelas suas filas, o Union San Felipe tinha tudo para ser um grande do futebol sul-americano. Mas não o é. O clube chileno transformou-se na última década na ponte preferencial para os negócios mais obscuros do futebol latino. Um clube fantasma que serve de ponte entre as ligas americanas e europeias sem sair da mediocridade na liga chilena.

A conexão chilena

A princípios do passado mês de Setembro a justiça desportiva argentina anunciou que iria investigar dezenas de transferências realizadas nos últimos anos por alguns dos principais clubes do país. Transferências polemicas pelos números envolvidos, pelas comissões entre agentes, clubes e jogadores. Mas, sobretudo, porque todas elas tinham um denominador comum: o Club Deportivo Unión San Felipe.

Um clube onde os jogadores, entenda-se, nunca chegam a jogar.

As investigações das autoridades argentinas, que inicialmente exploravam as suspeitas de que muitos dos negócios realizados para a Europa utilizavam passaportes falsos, levaram à suspensão de quatro dezenas de jogadores e mais de uma centena de directivos e agentes. Transferências por valores fictícios que nunca se ajustavam aos que realmente entravam e saiam dos clubes e sobretudo, negócios com clubes pontes que figuravam como detentores dos direitos desportivos de vários jogadores do futebol argentino, como Ignacio Piatti, Victor Meza e Jonathan Botinelli.

O defesa do River Plate foi o atleta que despoletou as investigações para a chamada “conexão chilena”. Dispensado pelo Hurácan, passados uns meses o jogador assinou pelo River Plate. Mas não como um jogador livre e sim como parte de um negócio que envolvia um clube chileno, o Unión San Felipe, que reclamava dos “Milionarios” os direitos desportivos do jogador. O clube da capital argentina pagou, Botinelli preparou-se para jogar quando as autoridades procuraram saber toda a verdade e descobriram uma rede de tráfico de jogadores através de agentes e directivos que os persuadiam a rescindir com os seus clubes originais, assinar com o clube chileno que depois trataria de colocá-los num grande da Argentina ou num clube europeu.

As acusações à volta do clube centram-se sobretudo em fraude fiscal, já que os valores dos negócios que envolvem o San Felipe não se ajustam com os declarados oficialmente pelos clubes argentinos com quem realiza negócios habitualmente, principalmente o River Plate. Ao assinar os jogadores como agentes livres para depois vendê-los ou emprestá-los a outros clubes argentinos, o San Felipe garante que os impostos das transações são pagos no Chile e não na Argentina, abrindo assim a porta à escalada de comissões entre as três partes. Tudo isto sem que o jogador se imute. E isso que plantel não falta ao clube, pelo menos em teoria. Atualmente o Unión San Felipe tem registado 89 jogadores apesar de que, diariamente, só 23 se apresentam para treinar com a equipa principal.

Os exemplos do Locarno e Corinthians Alagoano

Na essência legal, o que realmente faz o Unión San Felipe é considerado legal pela FIFA. O clube existe como entidade profissional, apesar de ter um historial quase nulo no futebol chileno, e nada o impede de contratar jogadores a custo zero e vendê-los posteriormente sem nunca os ter alinhado pela sua equipa principal.

É o tipo de clube com quem trabalham os grandes fundos de investimento que dominam o mercado sul-americano. Clubes ponte que são utilizados para manter as transferências dentro de um âmbito legal, mas que também servem para lavar dinheiro, esconder comissões pagas a terceiros e, sobretudo, a manter as aparências. Clubes como o Corinthians Alagoano no Brasil ou como o Locarno na Suiça.

No caso do clube brasileiro, a sua relação com o futebol português é antiga. O Corinthians Alagoano dedica-se a pesquisar o mercado jovem brasileiro e a lançar jovens jogadores na primeira equipa para depois vendê-los para o futebol europeu. Pepe, que passou do clube para o Marítimo antes de se transferir para o FC Porto, e Luiz Gustavo, médio do Bayern Munchen, são os grandes casos de sucesso da gestão do clube. Entre isso e jogadores colocados especialmente por empresários está a politica desportiva de uma instituição que há muito que deixou claro que o seu futuro não passa por ganhar títulos mas sim por gerir o dinheiro que move o mercado juvenil brasileiro, um país onde a idade média dos jogadores exportados para fora do país diminuiu a cada ano que passa.

O Locarno é um caso particular.

Dentro da liga suíça sempre foi um clube humilde mas a partir de 2002 tornou-se célebre por tornar-se num dos clubes ponte mais célebres do mercado. O dono do clube é o empresário israelita Pini Zahavi, um dos mais célebres agentes do mercado internacional. Graças à sua intermediação por lá passaram sem jogar Gonzalo Higuain, a caminho do Real Madrid, mas também Fernando Belluschi ou Augusto Fernández. Mais uma vez repete-se o mesmo método. O fundo de Zahavi, para não surgir como dono do passe do jogador – o que levantaria restrições, por exemplo na Premier League – inscreve o jogador como pertencente a um clube que controla totalmente, manobrando a partir daí o seu futuro desportivo. E as suas mais valias económicas.

O futuro do clube fantasma

Raul Delgado é o homem por detrás do San Felipe.

Empresário argentino, um dos homens fortes da gestão presidencial de Carlos Meném, Delgado esteve envolvido com o modesto Almirante Brown da segunda divisão argentina em 2003 mas o projeto desportivo que tinha para o clube não deu frutos e no mesmo ano vendeu as suas ações e desapareceu do radar futebolístico. Reapareceu meia década depois como dono da maioria das ações do Unión à frente de um grupo de investidores ligado a fundos de jogadores que se movem sobretudo pelo mercado sul-americano.

Nos últimos anos especializou-se em fazer a ponte entre clubes argentinos, que assim utilizam este tipo de negócios para variar os valores das transferências e assim modificar os registos contabilísticos do clube. Os clubes compram e vendem os jogadores a estes fundos disfarçados de clubes para regularizar as contas e os valores das transferências ajustam-se menos ao mercado e mais às necessidades de cada instituição.

O futuro do San Felipe não parece estar em causa já que o clube começa já a negociar diretamente com clubes uruguaios e brasileiros, dando a entender que o o próximo passo é a exportação directa para clubes asiáticos e europeus.

2.518 / Por
  • Tiago Cardoso

    Bom artigo (como os demais neste sítio da Internet), mas atenção ao seguinte erro ortográfico: «a idade média dos jogadores exportados para fora do país diminuiu a cada nao que passa.» = «a idade média dos jogadores exportados para fora do país diminuiu a cada ano que passa.»