Que futuro podia esperar um clube fundado debaixo de uma lâmpada intermitente por miúdos ainda adolescentes de uma das zonas mais problemáticas do Porto? O destino do Salgueiros foi, desde a sua origem, o sofrimento. Um século depois do nascimento, a alma salgueirista renasceu das cinzas para desafiar a sua própria sorte maldita.

A alma do Porto perdido

Dois pontos.

Tudo o que separou o Salgueiros da salvação no angustiante mês de Maio de 2002 foram dois pontos. Uma das vinte derrotas da temporada transformada em vitória. No último dia do campeonato a equipa salgueirista venceu o Varzim mas tinha sido a derrota com o Gil Vicente, uma semana antes, que tinha selado o seu destino. Três temporadas depois, mergulhado em dividas e um projeto imobiliário suicida, o Salgueiros caiu para sempre dos campeonatos profissionais. Para muitos era um nunca mais voltar.

Em 2007 não sobrava nada.

O velho estádio Engenheiro Vidal Pinheiro tinha dado lugar a uma sucessão de escombros que rodeavam a nova estação de metro da zona de Paranhos. O novo estádio, o sonho de tantos anos, era uma imensa poça de água em Arca D´Água, abandonada aos céus e a sua fúria. A equipa minguava à medida que o dinheiro desaparecia por todos os lados. Os adeptos, os herdeiros desses “catraios” das ruas escuras e perigosas da Paranhos dos primeiros anos da República, sentiam-se órfãos. Durante décadas tinham assumido que o seu clube não estava destinado para títulos ou feitos históricos. Partilharam com o Boavista e Leixões o título de terceiro clube do Grande Porto mas foram incapazes de coleccionar os troféus de ambos.

Mesmo sem grandes momentos para celebrar, a fama da “alma” salgueirista era larga e parte do esqueleto emocional do futebol português. Não podia cair no túnel do tempo.

Salgueiros 08, a fénix renascida

A águia tornou-se fénix.

Em 2008 o Sport Comércio e Salgueiros transformou-se no Salgueiros 08.

Nenhum adepto entende o novo nome como uma nova identidade. O clube, os adeptos, as cores, a matriz emocional é a mesma. Para fintar questões juridicas e legais – o SC Salgueiros continua a acumular uma dívida considerável à segurança social – criou-se o novo clube, forçado a começar desde a etapa mais elementar do futebol português.

Em cinco anos o Salgueiros subiu quatro vezes de divisão até voltar aos campeonatos nacionais. Depois da remodelação dos campeonatos da Federação Portuguesa de Futebol, viu-se integrado no Campeonato Nacional de Seniores, o terceiro escalão do futebol em Portugal. A mesma divisão para onde caiu por dividas à liga e parceiros em 2004.

O papel fundamental dos adeptos

Sem casa própria, com um plantel semi-profissional, baseado sobretudo entre jovens formados nos escalões da casa e veteranos de mil batalhas, o clube luta para procurar a estabilidade que este crescimento acelerado não lhe tem proporcionado.

Nos anos noventa o Salgueiros tornou-se parte fundamental da alma do futebol português. Estreou-se nas provas da UEFA no baptismo europeu de Zinedine Zidane. Contou com vários interpretes de luxo, de Abilio a Tozé passando por Edmilson, Sá Pinto e Deco, destinados a carreiras de luxo longe de Paranhos. Foi aí, no pequeno estádio salgueirista, que o Sporting acabou com 19 anos de asfixia emocional.

A sua história tem vários equivalentes no futebol europeu mas em Portugal é um caso único. É uma saga que relembra mais a criação do AFC Wimbledon do que o United of Manchester. Mas que não deixa de ser um exemplo de como um grupo de adeptos unido pode fintar as adversidades de uma gestão desportiva temerária.

Enquanto outros clubes portugueses caíram no poço e não souberam levantar-se, o Salgueiros 08 demonstrou, sem grande ruído, ser capaz de voltar a poder olhar-se no espelho com orgulho.

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  • paulo almeida

    A partir da próxima época 2015/16 temos de volta o Sport Comercio e Salgueiros