Durante meses especulou-se sobre a possibilidade dos mais brilhantes jogadores da história recente do Manchester United apresentarem aos Glazer uma proposta para fazerem-se com os destinos do clube. A realidade foi bem diferente. Os ilustres membros da Class of 92 realmente adquiriram um clube em Manchester mas não foi o United. Sua é também agora a história do Salford City, uma equipa que os seguidores dos Red Devils estão a aprender a amar.

A idade de ouro do futebol em Manchester

Na linha de fundo, vestidos de forma relaxada e com os olhos postos na bola, cinco homens parecem absorvidos pelo que passa no terreno de jogo. Não são olheiros profissionais mas os seus rostos são conhecidos de todos, os que nas bancadas parecem contemplá-los mais a eles do que ao que se passa em campo. As camisolas vermelhas e brancas movem-se com rapidez com algum desacerto, superado por um ocasional grito de entusiasmo. Não há glamour em campo nem nada que se pareça. Estas são as divisões secundárias do futebol inglês, os campeonatos regionais da zona da grande Manchester, lar para dois dos mais importantes clubes do país e berço do desenvolvimento industrial do futebol. Mas em campo nada dessa história importa. Os jogadores comportam-se, como seria de esperar, sem o rigor táctico e os atisbos de genialidade que fizeram do futebol um desporto amado e admirado nos quatro cantos do mundo. Todos os que lá estão, no entanto, sabem ao que vão.

Ninguém espera outra coisa. O resultado conta mais do que tudo salvo pelo prazer de passar uma tarde diferente. Manchester parece estar a viver uma segunda era dourada depois dos anos sessenta que coroaram sucessivamente os Busby Babes do United e os rebeldes celestes do City como as equipas mais importantes do país. Agora a tradição cimentada pelos anos de glória de Alex Ferguson partilha protagonismo com os milhões injetados no seu rival pelos gigantes do petróleo oriental.  Old Trafford e o City of Manchester estão cheios, semana sim, semana também, mas cada vez mais de turistas ou adeptos deslocados a outras zonas do país que aproveitam o futebol como pretexto para voltar a casa. Os fãs locais procuram os pequenos clubes de bairro para sentir na pele a mesma adrenalina que os fez um dia amar o futebol sobre todas as coisas. O caso de sucesso do FC United of Manchester, uma cisão de adeptos descontentes com o rumo do Manchester United aquando da aquisição do clube pela família Glazer, abriu um precedente relevante e extremamente mediático. Mas o FC United já não está só na competição pelos fãs desencantados do Manchester United. No Moor Lane, muitos mitómanos fazem a viagem para reencontrar-se com o futebol de rua. Outros para admirar aos cinco homens que olham para o terreno de jogo talvez com vontade de calçar as chuteiras e demonstrar que ainda são os melhores. Em Salford o futebol de Manchester vive na nostalgia que só a chegada de uma nova gerência, coordenada pelos rostos mais reconhecidos da Class of 92, podia alguma vez oferecer.

Ser o terceiro clube de Manchester

No dia em que David Beckham, em pleno desafio ao clube que o formou, se sentou em Old Trafford com um cachecol amarelo e verde a lembrar as cores originais do Newton Heath, o clube original de onde saiu o Manchester United, muitos pensaram que eram os milionários futebolistas que tinham dado cor à expressão “Teatro dos Sonhos” em relação ao Old Trafford que iam salvar o clube das garras dos seus donos americanos. Muito se especulou sobre essa cooperativa de jogadores mas os rumores eram em vão. Beckham partiu para os Estados Unidos com a ideia de abrir uma franchise em Miami, onde vive comodamente, e os seus velhos e menos glamourosos amigos de infância tiveram de se contentar com um osso muito menor.

Em Março de 2014, cinco jogadores da Class of 92 – o nome dado à geração dos Fergie Fieldlings que marcou a idade de ouro do clube – apresentaram uma proposta pelo quase desconhecido Salford City. Nicky Butt, os irmãos Phil e Gary Neville, Ryan Giggs e Paul Scholes davam o passo que muitos tinham sonhado mas em direção oposta. O clube escolhido tinha pouco do glamour ou da história do United. Um histórico das divisões amadoras do futebol regional do Lancashire, chegou a participar na FA Cup em algumas edições – a primeira apenas em 1990 – mas a crescente popularidade do FC United of Manchester, um genuíno clube de adeptos, tinha causado algo de mossa no seu perfil. Eliminados pelo FC numa ronda prévia da FA Cup, o Salford parecia estar condenado ao esquecimento. Até que apareceram os cinco magníficos.

O plano da Class of 92 era simples. Investir dinheiro no clube, reformular infra-estruturas, trabalhar a formação e apontar a tomar parte da segunda divisão do futebol inglês – o Championship – num prazo de quinze anos. Esse era o compromisso original, o de transformar o Salford no terceiro grande de Manchester. Para reforçar ainda o potencial de investimento futuro, poucos meses depois de assumirem o comando do clube, os cinco jogadores acordaram em vender metade das ações da instituição a Peter Lim, o braço direito nos negócios desportivos de Jorge Mendes e atual dono do Valência.

Uma associação que muitos viram como importante para garantir a sustentabilidade financeira do projeto e o reforço dessa ambição mas que tantos outros, como não podia deixar de ser, observaram com desencanto. Aqueles que tinham deixado antever, um dia não muito distante, que trariam uma abordagem diferente à gestão desportiva terminavam por associar-se, aos poucos meses de entrar nesse mundo, com o escuro e turvo universo dos fundos de investimento e os seus cabeças de cartaz. Salford podia ser um futuro potentado de Manchester mas o caminho a seguir ia ser muito mais parecido ao já tomado pelos grandes da cidade do que aquele que os seus fãs hardcore e os que tinham aplaudido o arrojo do FC United of Manchester desejavam.

A polemica união de Peter Lim e a Class of 92

A chegada de Scholes, Giggs, Butt e os Neville à liderança do Salford City catapultou inevitavelmente o clube para a ribalta. De forma cerimonial a apresentação aos adeptos na nova temporada de 2014-15 começou com um jogo contra os veteranos da Class of 92 – salvo pelo sempre ausente Beckham – com os novos donos a medirem em campo o potencial dos seus comandados.

O Salford ganhou comodamente o encontro aos veteranos jogadores do United, dois deles recém-retirados da elite apresentando também as suas novas camisolas vermelhas, a lembrar as do seu vizinho, deixando para sempre atrás o seu laranja histórico. Poucos pareciam sequer importar-se com a mudança. No terreno de jogo os resultados acompanharam, ainda que de modo titubeante. Os primeiros treze jogos foram pautados por sucessivas vitórias e empates que isolaram o clube na liderança da Premier League Division North, o campeonato regional do Lancashire.

A situação piorou com o final do ano, a liderança foi perdida depois de quatro derrotas consecutivas que acabaram com uma surpreendente chicotada psicológica – para um grupo habituado aos valores de uma liderança estável – e com Giggs e Scholes a assumir mesmo o comando técnico por umas semanas. A situação reverteu-se a tempo e o clube foi promovido para a Northern Premier League Premier Division, o campeonato regional do norte de Inglaterra e também o primeiro passo a caminho das ligas nacionais.  Ainda uma divisão atrás do mais humilde FC United – que começou umas divisões abaixo de onde o Salford se encontrava – o objectivo do projeto é sobreviver aos caprichos dos seus novos donos sem perder parte da sua identidade, reforçada com a entrada de capital estrangeiro.

Poucos duvidam que uma gestão pausada e bem medida pode transformar o Salford City, a meio prazo, num clube relevante a nível regional. Mas com uma pequena base de apoio próprio, altamente dependente daqueles atraídos pelas memorias dos seus atuais donos como jogadores, parece cada vez mais que este projeto não é outra coisa que uma bolha artificial alimentada desde a raiz e que, de um dia para o outro pode, pura e simplesmente, desaparecer.

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