Poucas tragédias resumem tão bem o drama humano que se pode viver no continente africano como a vivida a meados dos anos 90 no Ruanda. O autentico genocídio da minoria Tutsi pelo governo da maioria étnica Hutsi escandalizou o mundo e ameaçou com fragmentar em dois o país. Uma década depois as duas etnias juntaram-se sobre a mesma bandeira para lograr um dos maiores milagres da história do futebol.

O maior desastre humano no coração de África

O dia era de festa em Tunes.
A Taça das Nações Africanas arrancava e a seleção anfitriã era uma das grandes favoritas a levantar o troféu. 2004 arrancava debaixo de um sinal de esperança. Ninguém a encarnava melhor do que os rivais dos tunisinos nessa tarde. Contra todas as expectativas tinham eliminado os claros favoritos, o Gana, na fase de apuramento para conseguirem o seu primeiro bilhete para a fase final de uma grande competição. Nunca antes tinham sido uma das nações que via a sua bandeira desfraldar na cerimonia de abertura de nenhuma competição. Esperança num futuro melhor, sem dúvida. Um futuro de unidade. Debaixo da mesma bandeira, cantando o mesmo hino, os jogadores subiram ao relvado de mãos dadas num gesto mais do que simbólico.

Uma década antes aquelas mesmas mãos – e a de tantos milhares como eles – tinham segurado katanas, machados e metralhadoras para disparar sobre o seu semelhante. Uma pequena diferença étnica separava milhões e parecia ditar os seus destinos. Uns tinham de morrer para que os outros governassem em paz mas com os mortos na consciência.

A guerra civil do Ruanda foi um dos maiores dramas humanitários da história de África. Morreram mais de um milhão de cidadãos de etnia tutsi. Mulheres, crianças, idosos e homens, muitos homens. Amputados nas mãos, nas pernas e na alma outros tantos. A maioria hutsi decretou a ordem de massacre do mesmo modo que os católicos abriram as hostilidades no dia de São Bartolomeu, em Paris, contra os protestantes. Foi um rio de sangue sem fim.

Quando terminou o Ruanda praticamente não existia como nação. Tinha-se estripado a sua essência humana. No meio desse drama impossível de imaginar sem sentir o peso do momento, o futebol surgiu como o único sinal de esperança. Alguns anos depois, os filhos desses soldados, dessas vitimas, vestiram as mesmas cores para defender, unidos, uma vez mais, a mesma bandeira. O Ruanda que subiu ao relvado para disputar o seu primeiro jogo oficial numa CAN era uma nação salva pelo futebol.

Uma seleção para todos os ruandeses

Sem qualquer tipo de historial para apresentar como credencial, o Ruanda foi renascendo como equipa a pouco e pouco depois de ter estado afastado de todos os torneios oficiais durante os anos do conflito. Um processo lento e patrocinado pelo governo que entendia que o jogo era um dos poucos elementos unificadores que restavam num país despedaçado. Sem nenhum grande jogador individual como bandeira, o processo fez-se, sobretudo, a pensar na melhor forma de integrar os mais capazes jogadores de cada etnia num conjunto sólido.

O arranque foi difícil. As memorias da guerra estavam demasiado vivas. Em 2003, quase com dez anos cumprido do genocídio, finalmente o país encontrou a fórmula certa. Debaixo da liderança do sérvio Ramotir Dujkovic, os ruandeses arrancaram a fase de apuramento longe do estatuto de favoritos. Mediram forças contra o Uganda e o todo-poderoso Gana. Um pulso em que todos antecipavam que seriam esmagados. Venceram o jogo decisivo em Kigali contra os Black Stars por 1-0 levando as ruas da capital a encherem-se de jubilo pela primeira vez em larguíssimos anos.

O triunfo em campo de uma equipa unida e multi-étnica era também o triunfo de Paul Kagame, o presidente tutsi que tinha apontado vários elementos hutsis para o seu governo, contrariando todas as dúvidas relativamente á sua eleição, dando um claro sinal de unidade nacional. Para o presidente, um fanático do futebol britânico, todas as esperanças para reunificar o coração dos seus concidadãos estavam depositadas num jogo de noventa minutos. Olivia Karakezi e Desire Mbonabucya eram as principais armas dos quase-desconhecidos ruandeses. Duas flechas no meio-campo apontadas para um objectivo concreto, dignificar o país num torneio de elite internacional. Um país desesperadamente á procura de ser noticia pelos motivos certos. Um país a viver um milagre.

O milagre de 2004

O milagre ruandês esteve perto de atingir proporções bíblicas.
A seleção das “Vespas” esteve a ponto de conseguir um histórico apuramento para os quartos-de-final. Depois de terem sido previsivelmente derrotados no jogo de abertura pelos tunisinos, lograram um importante empate contra os guineenses na segunda jornada. No último dia da fase regular, os jogadores do Ruanda necessitavam de uma vitória sobre o Congo e de um triunfo dos tunisinos para alcançarem o segundo lugar. Era um jogo de importantes conotações políticas.

Os congolenhos, vizinhos a ocidente, tinham tido um papel mais do que dúbio durante o genocídio. Havia feridas que sarar também ai. Em campo o Ruanda cumpriu o seu papel mas não tive, desta vez, a sorte do seu lado. Ao golo de Said Abed Makasi que permitiu ao país celebrar o seu primeiro triunfo num torneio oficial seguiu-se a noticia de que a Tunísia – que jogava com nove estreantes na prova – também vencia o seu duelo. Foi sol de pouca dura. Titi Camara, avançado da Guiné, empatou nos instantes finais o jogo contra a Tunísia e com esse golo dourado fez correr a cortina sobre a participação ruandesa no torneio.
Apesar do fracasso do último dia, a seleção foi recebida em festa nas ruas de Kigali por uma população desejosa de sentir na pele o bálsamo da reintegração depois do pesadelo. O patrocinador pessoal do projeto, o presidente Kagame, lembrou o papel fundamental da seleção como luz de esperança para todos os que sobreviveram aos anos negros do país. Podia ter sido o principio de algo mas acabou por ser apenas um cometa no céu.

O Ruanda falhou a classificação para o Mundial 2006, disputado na Alemanha, e desde então não voltou a lograr classificar-se para nenhum torneio oficial, nem sequer para a CAN. No entanto, a memorável participação no torneio continental de 2004 permitiu dar vida aqueles que ainda olham para o futebol como a última esperança de unidade num mundo em permanente conflito.

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