Roligans, os adeptos mais bem comportados do Mundo

Ao som da canção de moda do futebol nórdico dos anos oitenta “We are Red, we are White, we are Danish Dynamite“, os Roligans demonstraram no pico do “hooliganismo” que era possível ser-se adepto de futebol e bem comportado. Estabeleceram até hoje as bases do fair-play nas bancadas. E fizeram-no saboreando a era de ouro do futebol dinamarquês!

Roligans, os vikings pacíficos

Pintados da cabeça aos pés. Gritos de entusiasmo, bandeiras e camisolas temáticas. Homens e mulheres quase por igual. E tudo sob o signo da tranquilidade e harmonia. Numa era em que o futebol mundial vivia os dias mais quentes e sangrentos do fenómeno “hooligan”, eles eram o sinal de esperança. A prova de que era possível transformar o apoio incondicional a um clube ou nação numa festa nas bancadas e não numa batalha campal.

Conquistaram o coração da Europa e estabeleceram os códigos de conduta exigidos no futuro pelas organizações do jogo. Abriram as bancadas ao público feminino e à utilização de pintura corporal sem abdicar de cachecóis, bandeiras e jarras de cerveja. Se o hooliganismo era a transformação da cultura skinhead e punk em adeptos de futebol, alimentada socialmente nos escalões mais humildes mas fomentada por jovens yuppies à procura de adrenalina, eles eram os descendentes futebolisticos do movimento hippie. E como não podia deixar de ser, vinham de uma Europa mais a norte, habituada a outra cultura social. O movimento Roling, nascido nas entranhas da Dinamarca mais democrática, marcou um antes e um depois da cultura de adeptos na Europa. Desde então os membros do movimento são unanimemente considerados como os adeptos mais bem comportados do Mundo.

A era dourada do futebol dinamarquês

Em 1984 a seleção da Dinamarca surpreendeu o mundo do futebol ao alcançar as meias-finais do Europeu de França.

Foi uma campanha histórica de um país cuja liga profissional existia apenas há pouco mais de uma década. Além da estrela internacional Allan Simonsen, a equipa contava com uma série de desconhecidos mas talentosos jogadores que rapidamente foram contratados pelos grandes clubes europeus. Michael Laudrup, Preben Elkjaer-Larsen, Soren Lerby, os irmãos Morten e Jesper Olsen, Frank Arnesen eram os protagonistas desta epopeia viking. Com eles nascia a cultura da “Danish Dynamite”.

A seleção orientada por Sepp Piontek era reconhecida pela sua qualidade futebolistica, pela cultura ofensiva e pelo fair-play em campo. Os seus adeptos não queriam ser diferentes. Dois anos depois os dinamarqueses chegaram ao Mundial do México com cartel de outsiders e realizaram uma primeira fase memorável. Nas bancadas os locais surpreendiam-se com a fanfarra e colorido dos seus seguidores. Com as caras e os corpos pintados com as cores do país, o público cantava apaixonadamente durante todo o jogo mas em clima de festa e euforia, bastante distinta do modelo britânico que tanto assustava o mundo. O tema “Danish Dynamite” tornou-se num dos mais populares durante o torneio e apesar da eliminação nos oitavos-de-final, a memória dos Roligans permaneceu.

O termo Roligan nasceu precisamente como contraste com o de “Holigan”. Significa, literalmente, em dinamarquês, “calma” e foi aplicado desde o principio a este grupo de adeptos. Endinheirados em comparação com os adeptos habituais, eram grupos que se moviam em conjunto mas sempre de forma pacifica. Pela primeira vez na história existia praticamente paridade entre homens e mulheres já que viajavam desde a pequena Dinamarca para seguir a seleção famílias inteiras. Elas difundiram a cultura de pinturas faciais e corporais. Eles mantiveram viva a velha cultura da cerveja e objectos temáticos de apoio. Entre ambos criaram um movimento cultural.

Em 1988, depois de se apresentarem ao mundo, desfilaram pela vizinha Alemanha durante o Europeu, estabelecendo as bases do comportamento do novo adepto. O seu impacto e sucesso foi tal que foram louvados pelos media e pelas organizações do jogo e imitados. Na Escócia, pelo Tartan Army, um grupo de seguidores vestidos com kilts que também procuravam um distanciamento da cultura de violência do adepto britânico. E na Holanda, também a viver um novo apogeu desportivo, pelos adeptos Oranje, que desde então transformaram para sempre o aspecto visual dos jogos da seleção holandesa com o colorido laranja omnipresente em todos os sentidos.

A coroação do movimento Roligan aconteceu em 1992 quando, contra toda a expectativa, a Dinamarca sagrou-se campeã europeia na vizinha Suécia. Milhares de roligans dinamarqueses atravessaram o estreito para apoiar a sua equipa e no final, apesar da histórica rivalidade, celebraram pacificamente em Estocolmo e Gotemburgo o triunfo histórico.

Uma nova cultura de adeptos

Vencedores de um prémio internacional atribuido pela UNESCO, como recompensa para a redifinição da cultura de adeptos, os Roligans permanecem no ativo e sempre que se organiza um torneio em que participa a seleção da Dinamarca a sua presença faz-se notar.

Desde o seu aparecimento, na década de oitenta, a cultura de adeptos evoluiu. Hoje a presença de mulheres e crianças nas bancadas já não é uma novidade, o uso de pinturas corporais passou a ser a nota dominante, especialmente em torneios de seleções, e a criação de músicas temáticas de apoio às equipas deixou de ser uma iniciativa quase infantil e amadora para transformar-se numa arma de marketing agressivo. No entanto, a essência permanece.

Na Dinamarca, como na esmagadora maioria dos países nórdicos, a cultura do hooliganismo – ainda que presente – foi relegada para um segundo plano com o aparecimento do movimento Roligan. Com o passar dos anos o mesmo sucedeu no resto do continente europeu. Os seus valores principais, de celebração, anti-violência e paridade nas bancadas tornaram-se globais. E o fenómeno, ainda que tenha permanecido fortemente regional, abriu-se ao mundo e permitiu acreditar numa cultura de adeptos distante da cultura de violência que chegou a dominar as bancadas dos estádios europeus durante mais de duas décadas.

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