Foi uma das primeiras estrelas genuínas do futebol português, astro e galã dos estádios. Melhor marcador histórico das finais da Taça de Portugal, figura máxima do Benfica pré-Eusebio, Rogério “Pipi” foi também o primeiro emigrante de luxo da história do futebol português.

O dandy que quis fazer escola no Brasil

Em Julho de 1947 atracou no porto do Rio de Janeiro um navio proveniente de Portugal. A bordo, entre os passageiros, seguia Rogério de Carvalho, acompanhado da esposa, Maria Isabel, e de dois dirigentes do Botafogo. O clube brasileiro tinha ficado prendado do talento do avançado português e logrou obter junto do seu clube, o SL Benfica, a cessão temporal do futebolista durante o ano. Foi um negócio inédito no futebol português, pelo valor de 18 contos e um apartamento em plena avenida de Copacabana. Rogério, conhecido no futebol luso como “Pipi” pelo seu ar de galã e estilo dandy, teve muitas dúvidas. Não sabia bem como seria a experiência num país estrangeiro, ainda que irmão, e num futebol radicalmente diferente do disputado em Portugal. Mas aceitou o desafio, o de ser a primeira estrela lusa a aventurar-se longe de casa.

Na verdade, Rogério não foi o pioneiro entre os “emigrantes” do futebol português. Em 1913 o avançado Vieira ficou no Brasil depois de uma digressão da seleção lusa a convite do Botafogo. Jogou no clube carioca e anotou três golos na sua curta instância. Foi um caso isolado. Nas quase quatro décadas seguintes os jogadores portugueses, fieis ao seu amadorismo, continuaram a jogar exclusivamente em território nacional. Á medida que algumas das principais ligas europeias iam incorporando os primeiros futebolistas estrangeiros, os portugueses continuavam em casa. Até que Rogério tomou a decisão de romper com os estereótipos e provar fortuna fora. A sua decisão – e o resultado da experiência – ajudou também a explicar o porquê de tão poucos casos similares ao seu nos trinta anos seguintes.

A sombra de Heleno

Rogério era já uma estrela em Lisboa. Não houve, antes de Eusébio da Silva Ferreira, um avançado como ele a envergar a camisola encarnada. Em 1947 tinha 25 anos e estava na flor da idade. O seu apetite goleador tinham-no convertido na grande referência ofensiva para além do concerto mágico dos Cinco Violinos de Alvalade. Tinha conquistado em 1944 a Taça de Portugal numa tarde de sonho com goleada ao Estoril (8 vs 0) incluída. O seu talento não passou desapercebido e uma delegação do celebre clube brasileiro veio a propósito a Lisboa para levá-lo a vestir a camisola de um clube tão mítico como maldito, o Botafogo.

Rogério chegou em Julho à cidade carioca mas a experiência fracassou desde o primeiro momento. Naqueles anos o clube era governado, quase ditatorialmente, pela grande estrela individual da equipa, provavelmente o melhor jogador do futebol brasileiro anterior a Pelé. Heleno de Freitas era um mito vivo no Rio de Janeiro, um artista nos relvados mas, também, um pesadelo no balneário. O seu estilo de liderança era ditatorial. Jogava quem ele queria e como ele queria e o objectivo do colectivo devia ser sempre o de fazer a bola chegar-lhe aos pés para o momento da glória. Um avançado rival – e estrangeiro – era o último que Heleno estava disposto a suportar.
Rogério padeceu de imediato do efeito Heleno. O avançado local foi impiedoso nos treinos, provocando o novo colega a cada falhanço e sacando no balneário com sorna as tipicas anedotas que se contavam sobre a comunidade lusa no Brasil e a sua “terrinha”. Apesar da oposição evidente do capitão do Botafogo, Rogério ainda jogou em cinco ocasiões ao longo do ano. Todos os encontros terminaram com vitórias mas nem isso lhe garantiu a titularidade. Não marcou qualquer golo. O seu destino estava traçado. No final de 1947 a situação tornou-se insustentável. O próprio Heleno, no ano seguinte, seria vitima do seu poder e acabaria também ele emprestado ao Boca Juniores argentino mas antes disso já Rogério tinha decidido voltar a casa. O motivo dado, oficialmente, foi o estado de saúde débil da sua mulher, que não se tinha sabido adaptar ao Rio de Janeiro mas estava claro que a sua situação desportiva não ajudava em nada.

A 17 de Fevereiro, em pleno período carnavalesco, Rogério e a mulher apanharam um navio de regresso a Lisboa de onde já não sairiam. O insucesso da experiência de Rogério foi fundamental para servir de aviso aos jogadores portugueses, ainda profundamente arreigados a um modelo amador. Aliado à intransigência do regime, jogadores como Travassos, Patalino ou José Águas rejeitaram ofertas de clubes espanhóis para provar outros campeonatos. Apenas Mendonça aceitou fazer carreira em Espanha – acabando por isso mesmo por ser relegado para um papel secundário na história do futebol luso – e até à saída de Coluna, já em final de carreira, para o Lyon, a emigração de futebolistas lusos tornou-se num tema tabu.

O regresso do emigrante

Rogério provou, ao seu regresso, que continuava a ser um talento à altura do futebol português. Até 1954 – data da chegada de outro brasileiro maldito na sua carreira, Otto Gloria, ao Benfica – transformou-se no maior goleador da história das finais da Taça de Portugal com quinze golos, recorde que ostenta ainda hoje. Foi fundamental para os triunfos encarnados do final dos anos quarenta e inicio dos cinquenta, em particular a conquista da Taça Latina, o primeiro torneio europeu levantado por um clube português, dez anos antes da final de Berna. Depois de abandonar o Benfica por divergências com Gloria sobre a sua politica de profissionalismo, assinou ainda pelo Oriental onde disputou vários encontros até colocar um ponto final na sua carreira.

Hoje a esmagadora maioria dos futebolistas portugueses de elite joga no estrangeiro, uma situação que começou a normalizar-se nos anos noventa depois de várias experiências com sucesso questionável nas décadas de setenta e oitenta, que, tal como Rogério, voltaram a Portugal para viver melhores dias como António Oliveira, Fernando Gomes, Humberto Coelho, Vitor Damas ou João Alves. Poucos no entanto imaginam que estão apenas a seguir os passos de Rogério, o goleador tranquilo que não encontrou no Rio de Janeiro o lugar ao sol que sempre teve nas margens do Tejo.

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