Nunca a vida de um jogador de futebol se poderia resumir tão bem como numa sequência de imagem icónicas ao som de um tema composto exclusivamente para ele. Robin Friday foi um dos mais talentosos jogadores da história do futebol e quase ninguém se lembra de o ter visto jogar. A lenda superou a realidade para um homem que, como cantavam os Super Furry Animals, “didn´t give a fuck”!

O mito do jogador maldito

Quando se anunciou, um 22 de Dezembro de 1990, que Robin Friday tinha morrido de ataque cardíaco, provocado por uma overdose, a maior parte das pessoas seguramente perguntaram “Robin quem”?

A fama maldita de um dos futebolistas mais icónicos e contra-correntes da história do futebol era tal que muitos nem sequer sabiam quem ele era. Sem nunca ter vestido a camisola de um clube de primeiro nível, a carreira de Friday passou quase sempre pelas categorias inferiores e malditas do futebol inglês, quase sempre mais entre os pubs do que propriamente nos relvados repletos de lamas e memórias perdidas. Friday era a epitome do jogador maldito mas mesmo nessa categoria era dificil poder dizer que realmente se tinha visto jogar a este esteta de cerveja na mão. Dizer aos amigos e filhos que, um dia, se tinha assistido a uma exibição de Robin era motivo de orgulho pessoal nas “terraces” britânicas. No resto da Europa o nome ecoava a distante e mitológico porque na prática nunca ninguém o viu. Literalmente.

Tudo na vida de Friday respirava a revolta. Contra a família. Contra a sociedade. Contra ele próprio. Vestia-se como uma mistura de estrela rock decadente e cliente de barra de bar de madrugada. Consumia abertamente todo o tipo de drogas imagináveis, começando nos anos sessenta pela marijuana e o LSD e acabando anos mais tarde envolvido com o crack e as pastilhas de speed. Bebia como poucos. Aos quinze anos já tinha abandonado a escola. Um ano depois, contra a vontade da família, decidiu casar-se com uma namorada que vivia no bairro de Acton, um dos subúrbios mais sujos e perigosos de Londres onde o racismo e a violência estavam na ordem do dia. Uma namorada que era negra, algo impensável nos anos sessenta onde a separação racial era ainda uma realidade indiscutível nos sectores mais humildes da sociedade. Como sempre, Friday não se importou do que dissessem de ele. Sem estudos, sem profissão, começou a roubar e foi regularmente preso. Só o futebol o podia salvar. Ou talvez nem isso.

Friday, o mais duro dos génios da bola

Apesar de ser um exemplo perfeito do retrato marginal da Londres dos anos sessenta, Friday era também um verdadeiro portento físico que triunfava em qualquer desporto. A sua paixão, no entanto, era o futebol e o seu maior sonho triunfar em Wembley. Aos 15 anos impressionou tanto os vizinhos que entre todos convenceram o pai de Robin a levá-lo ao Chelsea para fazer umas provas de selecção.  Convenceu de imediato os técnicos mas com a mesma rapidez aborreceu-se das rotinas e dos formalismos do jogo do clube londrino e desistiu antes de assinar por um clube da quarta divisão, o Hayes, onde conseguia dinheiro suficiente para gastá-lo no pub da esquina onde passava o resto do dia. Foi aí que a sua celebridade se fez eco na zona sul de Londres. Depois de eliminar o Bristol numa eliminatória da FA Cup, o Hayes foi sorteado para medir-se contra os vizinhos de Reading. Friday brilhou e ajudou os seus a forçar um jogo de replay que perderam pela mínima. O Reading tomou boa nota. Dias depois procuraram assinar contrato com ele. O técnico do clube da cidade ao sudoeste de Londres sabia tudo sobre a vida de Friday fora de campo mas ainda assim decidiu oferecer 700 libras pelo passe. Era o preço para tentar salvar o Reading da despromoção assinando com um futebolista que tinha quase uma média de golo por jogo na sua equipa anterior ainda que a maior parte das vezes que subia ao terreno de jogo estava ou bêbado ou drogado. O contrato era amateur e paralelamente Friday trabalhava como asfaltador mas este não se importava. Começou rapidamente a brilhar em Reading ao mesmo tempo que revolucionava o balneário com a sua atitude e estilo de vida.

Em Reading Robin Friday é uma autêntica lenda viva.

Todos se recordam de algum episódio e o mais provável é que todos sejam certos desde lesionar colegas nos treinos a treinadores a irem buscá-lo ao pub ao lado do estádio antes do jogo porque este se esquecera de estar a tempo no balneário para equipar-se. Aí passou os dois anos seguintes. Fez mais de 120 jogos pelo clube e anotou cerca de cinquenta golos. De uma equipa habituada a lutar para não descer, levou o Reading a subir de divisão e transformou-se num mito vivo do futebol modesto inglês pelo caminho, deixando detalhes de tanta classe que vários jornalistas habituados a seguir a First Division iam de propósito vê-lo para depois afirmar que entre os principais clubes ingleses não existia um jogador do seu nível.

Isso sim, sem televisão, poucos eram os que podiam realmente reclamar tê-lo visto jogar e de certa forma isso apenas serviu para alimentar a sua lenda maldita. Não ajudava que, paralelamente á sua carreira, a sua fama como enfant terrible, homem violento e profundo dependente do álcool e das drogas fosse crescendo a cada fim-de-semana. Num universo onde se criava já o embrião do hooliganismo, Friday era não só o jogador mais talentosos em campo como também o mais violento. Se os defesas centrais entravam a matar, Friday respondia com golpes ainda mais duros. Foi expulso várias vezes mas quem o viu jogar afirmou sempre que em condições normais provavelmente nunca teria terminado um só jogo da sua carreira tal eram os golpes que distribuía, muitas vezes com o jogo parado, aos seus rivais. A sua era a escola da rua onde tinha crescido como boxeur. Adeptos de cidades das redondezas viajavam regularmente a Reading para vê-lo jogar e não era raro no final do encontro terminarem no bar pagando-lhe cervejas para ouvi-lo falar. De quê era o que menos importava, era Robin Friday afinal de contas.

Em Cardiff para secar Bobby Moore

Em 1976 Friday abandonou o Reading. Tinha levado o clube da quase obscuridade á terceira divisão, sido eleito duas vezes o melhor jogador da liga e transformado os jogos em casa do Reading em eventos sociais. Pelo meio já se tinha divorciado, casado de novo – numa cerimónia onde em lugar de arroz muitos dos presentes atiraram charros de marijuana sobre os noivos – e passado dois defesos em comunidades hyppies em lugar de treinar com os colegas para desespero da maioria dos adeptos que pensavam que Friday ia deixar o futebol para converter-se em hyppie a tempo interior. Tal não sucedeu mas depois desse verão de 76 a sua situação pessoal começou a descontrolar-se ainda mais e Hurley, o técnico do Reading, aproveitou que poucos sabiam o verdadeiro estado em que se encontrava para vendê-lo ao Cardiff por 30 mil libras. Os adeptos não lhe perdoaram mas poucos sabiam realmente quão mal estava Friday entre tanto alcool e droga no corpo. Em Cardiff nunca mais foi o mesmo apesar de que o seu jogo de estreia, em véspera de ano novo, foi espectacular. Frente ao Fulham, onde jogava Bobby Moore – e um ausente George Best – anotou dois golos e fez do histórico campeão inglês o que quis. Lamentavelmente para os adeptos do clube galês tardes como essa foram raras. Um ano e uns meses depois disputou o seu último jogo frente ao Brighton. Pelo caminho tinham ficado alguns golos e, sobretudo, celebrações, icónicas que o transformaram num ícone cultural na cidade e levaram a banda local, os Super Furry Animals, a dedicar-lhe um dos seus temas mais populares.

O fim do melhor jogador que nunca viram jogar

A sua carreira acabou literalmente aí, na segunda divisão, com 25 anos sem nunca ter jogado em Wembley ou contra um rival de First Division. Desistiu de comportar-se e de tentar uma nova oportunidade e dedicou-se cada vez mais a viver à margem da lei. Vivia entre roubos, tráfico de droga e trabalhos esporádicos sendo recorrentemente detido e muitas vezes libertado graças à intervenção de admiradores locais. Em 1990, abandonado, morreu em silêncio e apesar de terem aparecido centenas de pessoas ao seu funeral, a maior parte dos ingleses nem sequer sabiam realmente quem ele era. A lenda foi crescendo com o passar dos anos, á medida que aqueles poucos eleitos que o viram jogar foram passando as histórias dos seus golos, das suas jogadas e dos seus desatinos. Sem imagens de registo ou vídeos para rastrear na internet, a lenda de Robin Friday é um teste ao tempo. Como um desses jogadores malditos do mundo anterior ao aparecimento da televisão, viveu intensamente e jogou como viveu. Pode nunca ter alcançado a celebridade de futebolistas menos talentosos mas entre cerveja e cerveja nunca pareceu importar-se demasiado. Ele pode perfeitamente ter sido o melhor jogador que quase ninguém viu jogar mas nem sequer isso lhe importava uma merda. Por isso era Robin Friday e por isso nunca ninguém será como ele nunca mais.

1.762 / Por