Robert Schlienz, o herói de um só braço

Robert Schlienz não era um jogador como os outros. O seu espírito de liderança e capacidade goleadora tinham feito dele um dos mais completos futebolistas alemães do pós-guerra. Quando um acidente o obrigou a amputar o braço esquerdo, em lugar de desistir, Schlienz conquistou o coração dos alemães continuando a brilhar nos relvados contra todas as expectativas.

O braço perdido depois de sobreviver à guerra

A 14 de Agosto de 1948, um acidente de viação perto de Aelen, provocou um ferido grave. As autoridades chegaram ao local e encontraram o condutor do carro preso na viatura. Durante horas temeu-se pela sua vida. Evacuado para o hospital de Estugarda, o paciente foi confrontado com a decisão mais difícil da sua vida, uma decisão que lhe ia custar o braço esquerdo. E provavelmente a sua carreira desportiva.

Poucos acreditavam que um homem só com um braço pudesse jogar futebol de alta competição com a mesma capacidade que tinha demonstrado com dois. Mas Robert Schlienz não era um jogador qualquer. Tinha sobrevivido à guerra, como oficial da Wehrmacht, nos mais difíceis campos de batalha. O conflito armado tinha colocado um parêntesis na sua carreira futebolística  Antes da guerra começar, o jovem de 15 anos tinha-se tornado na grande sensação do futebol juvenil alemão. Em 1942 levou o seu clube do coração, o FC Zuffenhausen, ao título nacional de juniores. Depois, como muitos dos seus companheiros de equipa, em lugar de se incorporar à primeira equipa do Estufarda, o clube onde habitualmente jogavam as melhores promessas do Zuffenhausen, foi enviado para o campo de batalha. Poucos jovens dessa equipa voltaram com vida. Schlienz foi um deles, mas só depois de ter sido baleado no queixo e dado de baixa em 1944. Quando a guerra chegou ao fim, o jogador voltou aos relvados mas o ambiente na Alemanha, não permitia sonhar muito alto, nem ao mais optimista dos homens. Mas Schlienz era feito de outra matéria.

Com apenas 21 anos, conquistou rapidamente o lugar de avançado centro titular na equipa do Estugarda, a disputar a primeira edição da recém-criada Oberliga, o campeonato dos clubes do sul do país. Em trinta jogos, marcou quarenta e cinco golos, um recorde que permaneceria durante largos anos e transformou-se no ídolo da cidade, que graças ao seu génio tenha um título para celebrar no meio de tanta fome, miséria e sofrimento. Durante dois anos foi o mais importante jogador da Oberliga do sul, e em 1948 voltou a vencer o prémio ao melhor marcador da prova. Depois chegou o Verão, a viagem de carro a caminho de um amigável de pré-temporada, o acidente, a amputação. Ninguém acreditava que havia futuro no futebol para Schlienz. Só ele.

O campeão renascido

Depois da operação, os próprios médicos do Estugarda foram os primeiros a declarar que Schlienz não voltaria a jogar futebol profissional. Estavam enganados.

Com a ajuda do treinador da equipa, George Wurzer, o avançado voltou aos treinos meses depois do acidente para recuperar a forma física. O contacto com os rivais na área dificultava a sua utilização como dianteiro, levando Wurzer a posicioná-lo no meio-campo, onde tinha liberdade total de movimentos para pautar o jogo da sua equipa. A 5 de Dezembro de 1948, menos de quatro meses depois de ter estado às portas da morte, o jogador voltou a pisar um relvado para euforia dos adeptos que presenciaram o derby do sul com o Bayern Munchen. Com a braçadeira de capitão, Schlienz representava tudo aquilo que a nova República Federal da Alemanha queria ser, contra todos os prognósticos, com todas as feridas no corpo, uma nova nação próspera no concerto europeu. O seu regresso produziu uma profunda simbologia em todo o país e durante a década seguinte, o médio ofensivo do Estugarda não foi só um dos jogadores mais influentes do futebol alemão mas também um dos mais populares.

Com a reorganização das competições a uma escala nacional, Schlienz conseguiu liderar o Estugarda a dois títulos nacionais, em 1950 e 1952, bem como a duas vitórias na recém-criada Taça da Alemanha, em 1954 e 1958. A estes quatro troféus, os primeiros da história do clube, somou golos, assistências e acrescentou o seu toque de classe especial ao jogo colectivo dos suábios. Durante meses especulou-se com a sua chamada à seleção nacional, para disputar o Mundial de 1954 mas o selecionador Sepp Herberger preferiu manter a sua confiança no seu protegido, Fritz Walter. Quando o torneio terminou, e Walter anunciou uma breve retirada do futebol internacional, Schlienz tornou-se no primeiro jogador com uma deficiência física a representar a seleção da RF Alemanha. Em 1960, com 36 anos cumpridos, decidiu abandonar definitivamente os relvados. Tinha passado mais de uma década desde o pavoroso acidente que sofrera e a sua carreira tinha atingido um nível que dificilmente o próprio jogador poderia sequer imaginar nas horas que passou no hospital.

Trinta e cinco anos depois, quando faleceu com 71 anos, o seu nome foi dado ao campo de treinos do clube que representou em mais de 400 ocasiões. A Alemanha, agora reencontrada, tinha novos heróis a que glorificar e o nome de Schlienz, de certa forma, perdera-se entre o grande público. Numa era de politicamente correctos, perfeições físicas e dirigentes de ferro, já ninguém queria ser associado a um herói capaz de jogar futebol tão bem como qualquer outro jogador só com a ajuda de um braço. Mas a imagem do dianteiro do Estugarda a mover-se pelo histórico Nekerstadion permanece, guardada no tempo, como um dos feitos mais extraordinários da história de algo que é muito mais do que um desporto.

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  • João Coelho

    Um artigo à altura da personagem. Brilhante.