Em terra de feiticeiros, Robert Mensah fazia magia como nenhum outro. O histórico guarda-redes ganês marcou um antes e um depois na história do continente africano. Foi a sua particular versão de Lev Yashin. Um mito desenhado entre tardes de glória e uma noite trágica.

O simbolo do novo futebol africano

A vida de Mensah acabou numa noite de Novembro de 1971. A sua memória, ecoou para a posteridade.

O mais brilhante guarda-redes de um século de futebol africano, Mensah foi o símbolo do renascimento do beautiful game num continente que começava a redescobrir a sua identidade. Foi uma estrela consensual numa etapa de conflitos tribais e regionais onde nada nem ninguém era suficientemente grande para ser respeitado por todos. As suas defesas entraram para a épica das grandes competições africanas e o seu estilo debaixo dos postes criou escola nos países vizinhos ao seu Gana natal.

Durante cinco anos não houve talvez no Mundo um guarda-redes tão imenso como Mensah. Antes de que Sepp Meier e Dino Zoff tivessem restaurado a hegemonia do guarda-redes europeus, hiper-profissional, houve uma etapa de transição da era dourada dos anos cinquenta. A era de mitos como Lev Yashin. Robert ocupou esse vazio como nenhum outro. Autoritário, rápido e decisivo nos momentos chave, fez-se famoso para lá das fronteiras africanas. O seu boné e traje negro em homenagem à “Aranha Negra” valeram-lhe a alcunha de “Yashin africano”. Mas Mensah era muito mais similar ao grande número um soviético do que as aparências podiam supor. Era um mito por direito próprio.

A “Aranha Negra” do Asante-Kotoko

A carreira de Mensah começou num modesto clube local de uma cidade costeira do Gana a principios dos anos sessenta. Durante três anos, o jovem guarda-redes foi-se curtindo nos relvados ganeses até que foi contratado pelo clube com o fascinante nome de Mysterious Dwarfs. Foi aí que a jovem promessa se transformou em certeza e chegou à titularidade da baliza dos Black Stars, por então a mais poderosa seleção do futebol africano. A retirada em massa das seleções africanas da fase de apuramento para o Mundial de 1966 por protesto com a ausência de uma vaga directa para o continente impediu Mensah de disputar lado a lado com o seu ídolo a maior competição internacional de futebol. Dois anos depois, o guarda-redes desforrou-se sendo eleito o melhor jogador da CAN, a taça das nações africanas, mesmo tendo a seleção ganesa caído na final por um solitário golo a favor do Congo.

A popularidade de Mensah estava no seu apogeu e o jogador foi rapidamente contratado pelo mais importante clube do país, o Asante-Kotoko. Com a sua nova equipa chegaram os ansiados títulos. Campeão ganês durante três temporadas consecutivas, Mensah ajudou em 1970 o clube a conquistar o seu primeiro troféu continental, batendo na final o TP Engelbert. Fruto das brilhantes exibições na competição, o guarda-redes foi eleito pela France Football o nono melhor jogador africano do ano. Na temporada seguinte venceu a Bola de Prata para os jogadores do continente superado apenas pelo seu colega e amigo Ibrahim Sunday.

Mensah era uma estrela continental mas também um jogador polémico. Gostava de provocar os rivais, ora com o seu boné, que muitos pensavam que era um amuleto maldito para o dianteiro rival, ora encostando-se a um poste lendo um jornal à medida que contava as noticias aos avançados rivais para os enervar. Na final da Taça dos Campeões africanos de 70, Mensah foi confrontado com um penalty polémico no último minuto do jogo. Podia ter sido o fim do seu sonho de vencer a competição. Sabendo bem da fama que tinha o seu boné, Robert tirou-o da cabeça, algo que nunca fazia, bateu com ele nos postes e na trave e deu um grito. O avançado do TP Engelbert, atónito pela situação, disparou para longe da baliza.

As suas tácticas provocadoras nem sempre encontravam um público apático. Na Libéria, num jogo de qualificação para a CAN de 1972 que o Gana venceu por 1-3, Mensah foi apedrejado pela multidão.  Seria um dos seus últimos jogos internacionais. Uma semana e meia depois a grande estrela do país teve uma pobre prestação contra o Togo que custou a derrota e o afastamento dos Black Stars da sua competição fetiche. A história de Mensah começava a chegar perigosamente perto do fim.

A morte do maior guarda-redes africano de sempre

Conta Jonathan Wilson no seu brilhante “The Outsider” que a principio ninguém acreditou que Mensah tinha morrido. A edição matinal do Graphic de Acra trazia a informação que o guarda-redes internacional de apenas trinta e dois anos tinha sido ferido numa discussão nocturna num bar de Tema, a sua cidade natal. Três homens foram detidos e “Bob Yashin”, internado. Quando os jornais chegaram à rua, Mensah já tinha morrido. Na madrugada, vitima de várias feridas cortantes com uma garrafa de cerveja partida.

Ninguém soube nunca o motivo real da discussão e da morte do maior mito do futebol ganês. Mas a sua morte teve um profundo eco emocional no país. Durante uma semana o seu corpo foi passeado pelas cidades onde jogou, desfilando com os respectivos representantes dos seus clubes e da seleção nacional. Foi finalmente enterrado poeticamente num cemitério ao lado do mais antigo campo de futebol da África Ocidental, uma missão britânica fundada um século antes.

Durante anos o nome de Mensah permaneceu no imaginário colectivo do continente negro. Á medida que África começava a ganhar protagonismo nos palcos internacionais, os mitos dos primeiros anos de afirmação internacional dos novos estados do continente foram substituidos pelos novos heróis. Roger Milla, Rabath Madjer, George Weah ou Abedi Pelé tornaram-se maiores aos olhos do público que Salif Keita, Rachid Meklhoufi e Hassan Sheata. Mas nunca nenhum guarda-redes conseguiu engolir a memória de Robert Mensah, nem mesmo o icónico camaronês Thomas Nkono, o rebelde nigeriano Peter Rufai ou o Essam El-Haddary. O mágico e trágico Mensah continua a ser o ponto de referência, a alma negra dos feiticeiros das balizas africanas.

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