Inventou o Leeds moderno. Foi um dos piores selecionadores da história do futebol inglês. Viverá para sempre associado ao seu mais duro rival, Brian Clough. Mas Don Revie foi muito mais do que isso. Futebolista brilhante, teve a visão de antecipar décadas de evolução táctica nas ilhas britânicas com a introdução de um falso nove no ataque. Ele próprio.

Falso nove, a herança danubiana

Enquanto Inglaterra lambia as feridas dos violentos golpes emocionais que cada golo húngaro significavam, ele pensava. Analisava. E desafiava-se a si próprio. O mítico duelo entre a Inglaterra e a Hungria, no estádio do Wembley, apresentou aos europeus a figura táctica do falso nove. Um avançado que longe de ficar estático, entre os centrais, recuava no terreno de jogo para associar-se aos interesses favorecendo assim a circulação fluída dos seus colegas de ataque à volta da defesa contrario. Nandor Hidgekuti, o genial maestro húngaro, tinha demonstrado aos ingleses, ao vivo, como se podia ser um avançado letal jogando longe da área. Era a forma mais pura de expressão de uma ideia que tinha começado a ganhar forma nos anos trinta com jogadores como Mattias Sindelaar e Giuseppe Meazza e que dera ao salto para o outro lado do Atlético na figura de Angel Pedernera, o porta-estandarte da Maquina do River Plate.

O mágico magiar era apenas a mais recente reencarnação deste novo pivot ofensivo. Mas a sua exibição histórica transformou o falso nove numa espécie de santo Graal táctico, um papel que parecia reservado a muito poucos. Um deles seria Donald Revie.
Nessa tarde de 1953 o avançado do Manchester City seguiu, como tantos outros, o jogo com especial atenção. Tinha estado às portas da convocatória pelo selecionador Walter Winterbottom. As suas épocas anteriores com a camisola do Manchester City davam a indicação de que nele Inglaterra tinha um avançado de futuro. Com 26 anos, Revie estava na flor da idade. À medida que Hidgekuti bailava sobre os centrais ingleses, deixando o caminho aberto a Puskas, Czibor, Kocskis e Paletas para destroçar as redes contrárias, Revie sentia, abismado, como era possível alguém numa posição tão especifica lograr algo tão anárquico e determinante. Jurou que seria capaz de reproduzir cada movimento, cada desmarcação, no terreno de jogo. A promessa foi cumprida.

Revie, o homem que introduziu o falso 9 em Inglaterra

Em 1954 Revie foi convocado finalmente para jogar com os Pross.

Começava a consagrar o seu estatuto e em Maine Road, a casa do Manchester City, o treinador Les McDowall ouvia as suas sugestões com atenção. Revie sentiu-se cómodo suficiente para expor o seu plano. Queria ocupar a posição central de ataque, a camisola nove, mas em lugar de ficar à espera dos lançamentos dos extremos ou dos passes interiores, iria buscar a bola uns metros mais atrás. Os seus marcadores teriam de decidir se o seguir, deixando metros sem marcação que os extremos podiam aproveitar, ou se ficar na posição original, permitindo a Revie controlar o esférico à vontade e aplicar o seu poderoso disparo de meia distancia. McDowall tinha duvidas e decidiu aplicar primeiro o plano à equipa de reservas, com Revie como expectante adepto a marcar presença em cada jogo para averiguar o processo evolutivo do seu plano. Os resultados em campo convenceram o treinador que aceitou o desafio de transpor o modelo para a equipa principal na temporada seguinte. O City era um histórico mas estava longe de viver a sua etapa mais brilhante. Era o clube perfeito para um balão de ensaio desta magnitude.

O Revie Plan, como foi rapidamente baptizado pela imprensa local, transformou o destino dos citizens. O City, habituado a sobreviver a meio da tabela, mudou completamente a sua aparência no terreno de jogo transformando-se numa equipa extremamente atrativa e eficaz. As rápidas trocas de bola, aliadas pela presença extra de Revie junto aos interiores, permitiam ao City ganhar quase sempre superioridade. E com a superioridade começaram a chegar golos, cada vez mais golos. A equipa esteve a poucos minutos de conquistar o titulo de liga depois de uma recuperação memorável na tabela classificativa e perdeu a final da FA Cup contra o Newcastle.

A honra aos vencidos foi respeitada com a entrega a Revie, comummente reconhecido como o responsável pela metamorfose táctica do clube de Manchester, do prémio de melhor jogador do ano. No ano seguinte o City deu um passo mais na sua recuperação institucional vencendo finalmente a Taça de Inglaterra, o único grande titulo como jogador na carreira de Revie. O jogo, frente ao Birmingham, foi mais uma lição de mestria táctica do avançado, capaz de destroçar com as suas movimentações interiores a defesa rival. No entanto, no dia seguinte, foi a gesta heróica do seu colega e amigo, o alemão Bert Trauttman, que jogou 18 minutos com o pescoço partido, que encheu as capas dos jornais ingleses.

O vilão do futebol inglês

Anos mais tarde as equipas orientadas por Revie – que com o passar dos anos passou do dinâmico WM que o popularizou como jogador para um mais rígido 4-4-2 – tornaram-se conhecidas pela ausência de futebolistas criativos em prole de uma abordagem mais defensiva e física. Tanto no Leeds United, clube que resgatou do esquecimento, como no cargo de selecionador inglês, os jogadores que mais se pareciam a Revie nos seus tempos de chuteiras nos pés, foram constantemente colocados de lado. Um quase contra-senso que modificou para sempre a percepção de um dos mais polémicos mas também triunfadores treinadores da história do futebol moderno.

Revie tornou-se o vilão da narrativa, em particular graças à sua relação de amor-ódio com Brian Clough. Essa visão tunelar da história levou muitos a esquecerem-se que Revie foi, para o futebol inglês, um verdadeiro pioneiro. A introdução nas ilhas do conceito de falso nove não frutificou no tempo mas é impossível negar que antes de Alfredo Di Stefano, Johan Cruyff, Michael Laudrup, Francesco Totti ou Lionel Messi, houve um falso nove esquecido mas igualmente fascinante que dava pelo nome de Don Revie.

1.907 / Por
  • Tiago Cardoso

    Se faz favor, agradecia saber quem era o falso 9 da Selecção Húngara de Futebol de 11 Masculino A nesse famoso jogo de futebol de 11 dos anos 50 em que derrotaram no Estádio de Wembley por 6-3 a sua congénere inglesa. 🙂
    Foram muito raros os futebolistas de 11 não-britânicos/irlandeses que jogaram no Campeonato Inglês de Clubes de Futebol de 11 Masculino Sénior de 1º Divisão antes dos anos 80. Porque não fazer um artigo aqui no FUTEBOL MAGAZINE acerca desses futebolistas de 11 (ou então, um artigo sobre o Bert Trautmann, cuja informação está muito bem disponível na Wikipédia em inglês – http://en.wikipedia.org/wiki/Bert_Trautmann)? ;D

    • Miguel Lourenço Pereira

      Tiago Cardoso,

      É do conhecimento público que o papel do falso nove se celebrizou com a exibição de Nandor Hidgekuti nessa tarde de Novembro em Wembley. Foi o continuador de uma escola que começou nos anos 20.
      Em relação à sua segunda pergunta é de fácil resposta. O mercado britânico estava totalmente vetado a jogadores não britânicos até 1979 – altura em que chegaram os primeiros estrangeiros como os holandes Arnesen e Muhren ou os argentinos Villa e Ardilles. Essa proibição não era aplicável aos estrangeiros que tivessem residido como minimo 3 anos no Reino Unido pelo que Trauttmann, prisioneiro de guerra, podia portanto ser utilizado pelo Manchester City. Como entenderá o Futebol Magazine não necessita de recorrer à informação da Wikipedia para delinear a sua linha editorial. Quem quiser recolher informação baseada exclusivamente na Wikipedia está à vontade mas esse não é o nosso modelo.