A lenda do Boot Room é tão grande em Liverpool como os Beatles. Cinco homens começaram a reunir-se num pequeno anexo, onde se armazenavam as chuteiras, para falar de futebol. Durante trinta anos, o banco de Anfield Road foi ocupado sempre um dos seus. Só um homem nunca deu o salto para a ribalta. Reuben Bennett, a alma escondida do Boot Room.

O herói silencioso do Boot Room

Num dia frio de Inverno, contava Kenny Dalglish nas suas memórias, Reuben Bennett dava os treinos de calções e camisola de manga curta. Era uma forma de motivar os jogadores a correrem debaixo de temperaturas negativas, chuva e às vezes, neve. Quando fazia bom tempo, trocava a roupa por um fato de treino mais convencional. Todos o adoravam. Era escocês, bem humorado e o homem de confiança dos futebolistas no balneário. E também o elo perdido do Boot Room, a escola de futebol forjada num anexo de Anfield que liderou os destinos do Liverpool durante mais de três décadas.

Nenhum treinador serviu o clube durante tantos anos como Bennet. Mas sempre desde um segundo plano. Na sombra podia manter-se fiel a si mesmo, sem preocupar-se com a celebridade e a fama que dava ser treinador principal dos Reds. Graças a isso permaneceu mais tempo do qualquer outro dos seus companheiros do Boot Room. Foi confidente de jogadores de várias gerações, de Ian St. John a John Barnes, passando por Keegan, Dalglish e Rush. Conhecia-os melhor do que qualquer outro membro do staff. Quando havia algum problema pessoal com um jogador era o primeiro a saber e a comunicá-lo ao treinador principal. Bennett era a alma do balneário da era dourada do clube vermelho de Mersey. Talvez por isso, foi também um dos protagonistas esquecidos de uma odisseia épica de tantos anos. Os adeptos renderam-se ao génio de Bill Shankly. Aprenderam a idolatrar Bob Paisley. Respeitaram, como a poucos, a Joe Fagan. E quando Tom Saunders serviu de treinador interino na transição entre outros dois filhos da casa – Kenny Dalglish e Graeme Souness – as memórias dos seus dias no Boot Room foram trasladadas para as primeiras páginas dos jornais. Mas de Bennett pouco se falou. Injustamente.

O braço-direito de Shankly

Um ano antes do Mundo decidir entrar na sua primeira guerra global, Bennett nasceu em Abardeen, numa família pobre, de classe operária. O seu destino estava traçado. Trabalhar no porto, como estivador, ou debaixo da terra, como mineiro. Felizmente o futebol apareceu e abriu-lhe uma oportunidade. Dos dezasseis aos vinte e nove anos jogou no Hull City inglês e tornou-se num dos seus guarda-redes mais legendários. A carreira como futebolista acabou depois da II Guerra Mundial, no rejuvenescido Dundee. Como era habitual à altura, das luvas enlameadas, Bennett passou para o staff técnico do clube mas foi com o modesto Ayr United que o seu nome começou a ser falado nos meandros futebolísticos britânicos como um treinador extremamente pragmático e competente. De tal forma que apenas três anos depois, em 1958, o treinador do Liverpool, Phil Taylor, contratou-o para liderar a sua equipa de treino. Para Bennett significava abandonar a sua Escócia natal por um clube que então militava na 2º Divisão inglesa e com poucas perspectivas de sucesso imediato. Mas ainda assim o canto da sereia levou a melhor. Bennett encontrou-se com dois veteranos do clube, Bob Paisley e Joe Fagan, com quem travou imediatamente amizade. Mas Taylor, o homem que o contratou, durou apenas alguns meses no cargo. O seu sucessor, também ele escocês, foi confrontado com a possibilidade de fazer alterações no staff técnico. A sua decisão mudou a história do clube para sempre. Preferiu ficar com todos a seu lado. Começava a era do Boot Room.

O nome vem de um pequeno anexo onde os jogadores tinham as suas chuteiras e caneleiras armazenadas durante a semana. A princípios dos anos sessenta, Reuben, Paisley e Fagan reuniam-se aí para tomar uma cerveja ou um chá no final da sessão de treinos e debater sobre o estado dos jogadores, o próximo rival, a situação do clube, o trabalho da formação ou novas possíveis incorporações. Bill Shankly, o manager do clube, raramente aparecia. A história tem-no como a máxima referência do Boot Room mas a verdade é que “Shanks” gostava de trabalhar no seu escritório, só. Só baixava ao armazém quando sentia que havia algo serio a debater. Entre Paisley, Fagan e Bennett desenhou-se o futuro do clube. Reuben era a alma do grupo. Principal responsável pela equipa principal, era o homem de confiança de Shankly no balneário. O facto de vários dos jogadores serem de ascendência escocesa, como ele, ajudava. Quando o manager ia ver jogos de rivais, era Bennett que o acompanhava enquanto que Paisley tinha a responsabilidade de coordenar os treinos e Fagan exercia de fisioterapeuta. No final da década juntou-se ao grupo o jovem Tom Saunders, que se transformou no chefe de scouting do clube durante mais de duas décadas, descobrindo, entre outros, a Keegan, Grobelaar, Rush e Barnes.

O homem que nunca treinou os Reds

Bennett era uma figura fundamental no Boot Room.

Os amigos conheciam-no como Sherlock, tanto pelo chapéu que utilizava no Inverno como pela sua perspicácia a detectar e resolver problemas. Se Paisley era o génio táctico e Fagan o motivador, Bennett era a voz da razão. Talvez por isso tenha sido dos primeiros a saber da inesperada decisão de Shankly em anunciar o seu abandono precoce dos bancos, em 1974. Enquanto se especulava sobre quem podia ser o seu sucessor, foi fundamental em convencer a direção do clube a procurar a resposta dentro do Boot Room. O clube elegeu Paisley que aceitou, a contra-gosto. Bennett manteve, como Fagan e Saunders, o seu lugar no clube e durante uma década acompanhou o seu velho amigo no período mais brilhante da história do clube. Parte da sua missão consistia em manter a mística do Boot Room que se foi transformando, com o tempo, numa biblioteca de livros de apontamentos, diárias sobre os clubes rivais, exercícios de treino e análises tácticas, amontoados entre chuteiras e posters de raparigas em topless. No dia dos jogos, os treinadores rivais eram convidados a beber uma cerveja com os técnicos do Liverpool. As conversas estendiam-se por horas. Elton John, presidente do Watford e um apaixonado da cultura do “Room”, apareceu uma vez e pediu um gin cor-de-rosa. Bennett deu-lhe uma cerveja gelada.

Quando Paisley decidiu retirar-se, Bennett foi equacionado pela direção para ocupar o seu lugar mas o próprio preferiu apontar para a mais lógica escolha, o popular Joe Fagan que completou a era histórica de títulos europeus com a vitória na Taça dos Campeões Europeus em 1984. No ano seguinte, depois do desastre de Heysel, foi a vez de Fagan dizer adeus. A lógica diria que tinha chegado a hora de Reuben Bennett. Mas com 72 anos, o técnico não se sentia com forças. Ficou mais um ano no clube, servindo como mão-direita do jovem treinador-jogador Kenny Dalglish no seu primeiro ano à frente da equipa. Foi o momento de transição definitivo na história do clube. Em 1986, Bennett tornou-se no último membro da equipa original do “Boot Room” a retirar-se, mais de uma década depois do seu compatriota Shankly. O clube permaneceu ainda dez anos mais nas mãos de treinadores forjados nessa escola, de Dalighs a Souness, passando pelo período em que Saunders serviu como técnico interino, e acabando em Roy Evans, um dos primeiros jogadores treinados por Bennett na década de sessenta. Quando este deixou o clube a abriu caminho à chegada do francês Gerard Houllier, tinha chegado já ao fim a era do “Boot Room”.

Bennett não estava vivo para vê-lo. O seu coração parou a 14 de Dezembro de 1989. A Kop guardou um sentido minuto de silêncio. Com ele partia uma era. O elemento mais silencioso e enigmático da sala que desenhou a mística do Liverpool não encheu capas de jornais. Mas sem ele a bordo, talvez a história dos Reds tivesse sido outra.

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