A literatura de futebol em português é ainda, comparada com outros países europeus, bastante escassa. Atravessa uma fase juvenil onde poucos autores se afirmam com linguagem própria e parece haver certo receio de deambular para lá do circo mediático criado à volta dos chamados “Três Grandes”. Nesse sentido a obra “República, Desporto e Imprensa” é uma lufada de ar fresco. Original, dinâmico e retrospectivo, o livro de João Nuno Coelho e Francisco Pinheiro permite recordar a génese do futebol português através do discurso directo da época republicana em que o desporto em geral se tornou numa das bandeiras do novo regime.

100 capas para a posteridade

Recorrer às primeiras páginas das edições de jornais desportivos mais emblemáticos da I República é o ponto de partida de um livro que despertará a curiosidade de qualquer amante do futebol português. Entre 1910 e 1926, o futebol nacional saiu rapidamente da infância e transformou-se num dos fenómenos sociais mais simbólicos da primeira etapa republicana, algo só comparável talvez com o fenómeno mariano das aparições de Fátima e o seus subsequente aproveitamente ideológico por parte da ainda influente Igreja Católica. O futebol, ao contrário do que sucedia no berço inglês e em muitos outros países europeus, passou imediatamente a ser um jogo de todos, apesar da notória ascensão de alguns elementos da mais alta burguesia como elementos nucleares na fundação dos principais clubes da época. Apesar de ser claramente um desporto urbano e burguês, conquista rapidamente elementos da velha aristocracia mas também do escasso proletariado.

A dupla de historiadores e sociólogos que já tinha estrado por detrás das obras “A Paixão do Povo” e “A Nossa Selecção em 50 Jogos”, João Nuno Coelho e Francisco Pinheiro, optou por retratar essa época em discurso directo. O livro, editado pela Afrontamento, recolhe as 100 primeiras páginas mais destacáveis dos jornais desportivos que marcaram o arranque do desporto português, em especial do universo futebolístico que rapidamente ganha a corrida de popularidade aos restantes desportos.

Os Sports Ilustrados, Tiro e Sport, O Sport Lisboa (fortemente ligado com a directiva do clube que mais tarde daria lugar ao SL Benfica), Norte Desportivo ou o mítico Eco dos Sports são as principais publicações que dão cor e alma a esta viagem no tempo que arranca poucos dias depois da proclamação da República e termina nos meses que se seguem ao golpe militar de 1926 que abriria caminho à instauração do Estado Novo. Nelas apreciamos não só a postura ideológica face às mudanças de regime politico como a mentalidade bem portuguesa que se começava a gerar à volta dos movimentos e associações clubisticas. Nessa década e meia a esmagadora maioria dos clubes, fundados nos últimos anos do regime monárquico, adquirem uma dimensão considerável e formam-se as primeiras rivalidades locais, regionais e nacionais, sem esquecer os duelos ocasionais com as equipas resistentes das colónias inglesas que nos anos 20 paulatinamente iriam desaparecer do mapa desportivo.

A importância social do futebol

Além de estudar cada uma dessas primeiras páginas, algumas com ilustrações memoráveis, o livro também capta bem o espírito da época em que Portugal começava a entender que o desporto era a melhor forma de afirmação internacional. O enfoque dado aos desportistas durante o período da I Guerra Mundial e os primeiros jogos internacionais da seleção nacional falam, sobretudo, desse Portugal que procura orgulhar-se do seu futebol mas que ainda é incapaz de demonstrar um nivel qualitativo suficiente para olhar de tu a tu às grandes potências continentais. Nasce portanto, nestas primeiras páginas, com esse português que o tempo engoliu, a liturgia desportiva que ainda hoje preenche o vocabulário de qualquer publicação desportiva com frases como

“Perdemos como poderiamos ter ganho. O resultado de hontem honra sobremaneira o foot-ball portugues”

escrita pelo editor do jornal Os Sports, depois da segunda derrota da equipa das Quinas diante da seleção espanhola.

No fundo esta viagem sociológica toma o pulso ao sentir de uma nação à medida que o futebol se transforma num elemento fundamental do dia a dia até se consagrar, já no regime do Estado Novo, como um dos três “f” que orientaram a cartilha ideológica salazarista. Recuperar algumas dessas primeiras páginas, num intenso trabalho de investigação que explora igualmente jornais de cariz regional que, como acontece com os seus clubes, são tão esquecidos debaixo desta paixão dos portugueses pelos seus três maiores clubes, é o grande mérito de um projeto como este “República, Desporto e Imprensa”.

Um livro que dentro do panorama nacional ganha especial destaque, não só pela análise certeira dos seus autores, mas sobretudo pela abordagem original com que encara essa história de amor centenária entre uma bola de futebol em constante movimento e olhar perdido e apaixonado de qualquer adepto português.

1.887 / Por